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Entrevista

Bárbara Paz, Atriz e diretora

Um país sem cultura é um corpo sem alma

Felipe Hellmeister

Um país sem cultura é um corpo sem alma

Luisa Purchio
Edição 19/07/2019 - nº 2586

O apartamento onde mora a atriz gaúcha Bárbara Paz, sozinha mas com “todos os seus eus”, parece refletir sua ocupante: todo branco. É repleto de livros e obras de arte. No centro de São Paulo, a cidade que a “abraçou” quando tinha 19 anos, a residência foi comprada com o prêmio que ganhou no Reality Show “A Casa dos Artistas”. É ali que funciona também a sua produtora de vídeos. Viúva do cineasta Héctor Babenco, que há três anos faleceu em decorrência de um câncer, Bárbara está concluindo os dois projetos que prometeu a ele: um livro e um documentário sobre sua história. O livro foi lançado na FLIP, onde o conheceu, e o filme virá em outubro. Ela pretende se lançar como diretora em um novo projeto: um filme sobre solidão. Foi em clima de confidência regado a café e chimarrão que a atriz recebeu ISTOÉ e falou sobre o tempo, arte e mulher. Apesar de não querer se envolver com política, se disse preocupada com a desvalorização da cultura no Brasil: “O teatro e o cinema foram meus educadores, foram quase tudo. Essa é minha única preocupação e por isso vou lutar sempre.”

Você enfrentou resistência por ser uma mulher dirigindo um documentário?

Por mais que tenhamos evoluído, ainda somos uma minoria. Não imaginei que fosse tanto assim. As pessoas que você contrata ainda esperam um homem mandar. No meu caso, sou diretora e produtora, e isso é muito difícil, principalmente no Brasil. Parece que falta uma resposta, se não tem um homem comandando. Há dificuldades ainda em ser mulher, mas não é impossível quebrar as barreiras, temos de mostrar isso com trabalho. Fiz isso até agora e continuo fazendo.

Qual é o papel das redes sociais em sua vida?

A única rede social que gosto é o Instagram, não aguento o Twitter, não consigo me relacionar. Não consigo ter muitas redes sociais, me vicio. Quando comecei a entender o Instagram, vi que aquele lugar era o meu lugar, que eu poderia fazer a minha própria revista. E se não gosto do que fiz ou de algum comentário, apago, bloqueio. A rede social tem de ser favorável à vida. E tem aquela coisa de te agredirem quando você coloca uma coisa relacionada à política no Brasil.

Você me disse que não fala sobre política. Por quê?

Primeiro porque sou filha de político. Meu pai foi vereador e vice-prefeito em Campo Bom (RS). Nasci num comício. Diversos dos meus padrinhos eram vereadores, na minha família tudo era voltado à política. Criei um distanciamento por ter perdido meu pai por causa disso.

O que aconteceu?

Ele perdeu a última eleição e teve uma desilusão, aí veio a doença, foi tudo junto. Minha mãe também se desiludiu com o plano Collor e morreu antes de ver o dinheiro que tinha guardado. Fui me distanciando disso, embora ser atriz se traduza como um ato político.

Você sente medo de ser agredida?

Para falar sobre política hoje no Brasil é preciso ter muita certeza do discurso, e que de qualquer lado levará pedras. Eu não sei se sou forte suficiente para aguentar. Toda vez que postei algo sobre isso no meu Instagram, recebi muita agressividade. Então desativo os comentários. A democracia tem de estar viva, e em primeiro lugar, mas parece que o brasileiro está com muita raiva, muito triste. Temos de mudar essa chave.

Você tem alguma preferência partidária?

Não tenho um discurso pronto. Está tudo tão errado que estou em susto. Mas o que vai acontecer com a cultura no nosso País? Eu trabalho nisso, eu vivo disso, minha vida inteira é cultura. Não estou falando de lei Rouanet, estou falando de tudo. O teatro e o cinema foram meus educadores, minha escola. Um país sem cultura é um país manco, um corpo sem alma.

Você está sentindo o momento social refletindo no teatro?

Sem dúvida, em tudo. A nossa classe está muito assustada e preocupada porque foram tiradas muitas coisas nossas, mas ninguém vai parar de trabalhar. A gente sempre fez teatro, com dinheiro ou sem dinheiro, com lei ou sem lei. As pessoas falam “o teatro morreu”, mas ele nunca morreu. Se tem alguma coisa que vai sobreviver é o teatro.

E o mercado audiovisual?

O cinema é um pouco mais complicado, porque sem dinheiro não conseguimos fazer as coisas. Talvez um curta, mas não um longa. São muitas pessoas e muito dinheiro envolvido, que aliás faz circular a economia do Brasil. Há pouco tempo, tudo foi congelado, amigos que sustentam famílias ficaram a ver navios. É assustador querer tirar a cultura do mapa.

Como vê a criminalização da homofobia e o decreto das armas?

O Brasil é o país que mais mata gays, lésbicas, bissexuais e transsexuais no mundo. Diariamente homossexuais e transgêneros são assassinados. Sou totalmente a favor da criminalização da homofobia. Já sobre o porte de armas, sou totalmente contra. É um absurdo, uma loucura insana e um retrocesso no País. Medidas como essa só aumentam a criminalidade, incitam a violência, o ódio e a discórdia.

Na sua infância você cuidou dos seus pais, depois do Héctor Babenco. Como vê isso?

Eu falei para a vida: “chega”. É uma coisa louca. A minha história realmente é trágica. Fiquei órfã muito cedo, meu pai faleceu quando eu tinha 6 anos e minha mãe quando eu tinha 17, mas tudo bem, continuei tocando. Nunca achei que isso seria o marco na minha vida. O interessante é que acabou mesmo sendo esse marco do destino.

As duas coisas se relacionam?

Claro, psicanaliticamente falando. Minha mãe era doente, então o cheiro do medicamento me é familiar, não me assusta. Eu nasci para cuidar, gosto de servir. Desde meus seis anos tive de aprender a cozinhar sozinha, e não tinha outra opção porque a vida me fez assim. No começo do meu relacionamento com o Héctor, ele falava: não quero uma enfermeira. Mas era o que eu sabia fazer.

Como foi esse encontro com ele?

No momento em que o conheci, passei a descansar de mim. Cansa falar de mim, da minha história, todo mundo quer saber das minhas coisas e ele se tornou mais importante que eu. A sua história era mais interessante que a minha e ali a coisa se inverteu, passei a ser a mulher do Héctor. Isso foi bom, a gente virou dois. Talvez eu seja atriz também por isso, quando interpreto um personagem descanso de mim.

O que ele deixou de mais importante em você?

Ele acreditava em mim, falava: você pode. Eu mostrava os meus textos, fotos, e ele dizia “você não é só uma atriz, você fotografa, dirige, escreve”. Sou muito insegura e ele me deu um voto de confiança. Já vivi relacionamentos sem cumplicidade, mas com o Héctor era diferente, falávamos sobre cinema e criação. A idade dele nem passava na minha cabeça, não importava. Eu me sentia protegida, com um lar interno mais preenchido. Era como se eu pudesse voar, porque teria alguém cuidando.

Qual lado de Babenco o livro mostra?

Ia ser só um caderno de poemas. Um dia achei uma caixa de poesias que ele guardava a sete chaves e cuidava desde os 14 anos, com papéis, blocos. Ele falava que não tinha a pretensão de ser um escritor ou um poeta, mas que aquilo tinha muito significado e que um dia desejava publicar. Quando vi, achei aquele material uma relíquia que tinha de ser mostrada. Há uns anos atrás começamos a alimentar isso. Ele editou quase metade dos poemas. Isso o tornava ativo, vivo.

Como esse projeto cresceu?

Uns dois anos antes do Hector falecer, ele me pediu para gravar todos os momentos para um filme. Eram conversas sobre a vida. Ele era muito arredio, mas comigo se abria. Quando ele se foi, transcrevi todo aquele material e percebi que não daria para colocar tudo no filme. Então resolvi juntar esse material no livro de poemas. Ali você o conhece profundamente, além do poeta, do cineasta, do argentino, do brasileiro. Ele que escolheu a capa.

O que esses projetos significavam para vocês?

É sobre o estar vivo, é uma despedida e o que você quer deixar registrado. Ele brincava com a morte o tempo todo e falava que não iria morrer nunca. Ele dizia que estar filmando era como viver um dia a mais. Ele vivia para continuar filmando, e queria estar vivo para não deixar de filmar nunca. Estou transformando-o em uma obra. É transformar a nossa vida em poesia, e saber que isso modifica de alguma forma o leitor, porque é muito humano.

Quanto tempo depois da morte você mergulhou no material?

Um dia, e foram três anos fazendo. Durante esse tempo, eu nem percebia que não estava conseguindo terminar. De alguma forma estava próxima dele, o tempo todo, escutando, como se ele estivesse vivo. Mas tenho de ser forte para dizer para mim mesma: isso é para todos, Bárbara, você quis fazer isso, e ele queria te dar isso. Ele falava: “estou te dando o meu passaporte. Confia. Vai, faça o filme. Eu estou te dando o filme, pode confiar.” Então não posso me lamentar, tenho de agradecer.

Você quer fazer mais filmes como diretora?

Agora que peguei a direção, não quero mais parar. Se o Brasil me permitir. Por isso não quero errar nesse primeiro. Nunca vou deixar de atuar, o teatro é a minha casa, mas vou fazer cinema, eu sempre fui muito diretora, no sentido de criar as coisas. É um dos únicos lugares que tenho segurança, confio em mim como criadora. Brigava diversas vezes com o Héctor por causa disso, porque ele queria uma coisa e eu queria outra.

Qual seu próximo projeto?

Tenho um roteiro agora de ficção. Terminando esse, já tenho outro. Esse é para ele, o próximo será pra mim. Não posso morrer sem antes me dar um filme. Será sobre solidão, estou desenvolvendo. A ideia surgiu lá atrás, o Héctor ainda era vivo. Ele falava que queria dirigir e que eu seria a atriz, e eu falava: “não, esse sou eu. Esse não.” A história é muito boa. E também quero fazer mais um livro.

Qual será o tema?

Eu tenho alguns escritos que escondo porque ainda não estou pronta, mas a editora está interessada. Então estou juntando, estou mais corajosa. São poemas, mas não só. Escrevo muito, mas ainda não tive confiança absoluta de que os escritos são bons. Será sobre a minha vida. Eu não cesso, se eu parar de criar eu morro. Essas são as minhas crianças.





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