Comportamento

Tempos sombrios

O céu negro durante o dia em São Paulo escancara um grave problema ambiental no País: o excesso de queimadas e o descaso com a preservação da Amazônia

Crédito: Reprodução/Twitter

Foi necessário que o dia virasse noite em São Paulo para que os olhos de todos se voltassem para a grave situação das queimadas no Brasil. Na segunda-feira 19, a partir das 15h da tarde, já era necessário dirigir com os faróis ligados, afinal, a escuridão já tinha tomado conta da capital paulista.

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Este fenômeno visual que capturou a atenção de todos se deu por causa de uma combinação de fatores climáticos. A nuvem negra que cobriu a cidade foi resultado do encontro entre fuligem de queimadas no norte do País com uma frente fria que se formou em São Paulo. O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) reconheceu fenômenos similares em 2010 e 2017, mas nunca dessa forma. Focos de incêndio são comuns nessa época do ano, devido ao tempo seco. Em 2019 essas queimadas têm sido mais intensas.

De janeiro até agosto deste ano, o INPE registrou 72.843 focos de calor, um número 83% maior do que no mesmo período de 2018. Das queimadas registradas neste ano, 52,5% delas foram na Amazônia. A fumaça já foi constatada até por satélites da NASA nos meses de julho e agosto. Num primeiro momento, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, duvidou da conexão entre a intensificação dos incêndios e a redoma negra que assustou moradores paulistas. Ele comparou a suposição a notícias falsas que observou recentemente, e afirmou: “hipóteses foram levantadas prontamente para criar certo sensacionalismo.”

A visão do ministro foi refutada rapidamente. Moradores da cidade que coletam água da chuva para reuso começaram a compartilhar os seus resultados nas redes sociais. O que se viu foi uma água preta que assustou especialistas. As primeiras amostras avaliadas por laboratórios confiáveis do País, como o Instituto de Química da USP, comprovaram que havia alta concentração de poluentes de queimadas na água, derivados da fuligem emitida pelo fogo nas florestas no norte do País.
No dia seguinte, Salles também foi contestado, dessa vez pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam). Após publicar no Twitter que o aumento de incêndios tinha a ver com “tempo seco, vento e calor”, os técnicos do Ipam disseram que a escalada está diretamente ligada ao desmatamento, afirmando que a relação entre as duas coisas está “particularmente forte em 2019.” Segundo o Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia, o total desmatado cresceu 15% nos últimos doze meses quando comparado ao mesmo período anterior. Durante a semana, celebridades globais como a modelo Giselle Bundchen, o ator Leonardo DiCaprio e o tenista Novak Djokovic expressaram tristeza com a situação, e a hashtag #PrayForAmazonas esteve entre as mais citadas do mundo.

ESCURIDÃO O encontro da fumaça com a frente fria em São Paulo trouxe o anoitecer às 15h. A água da chuva que caiu era preta e cheia de fuligem (Crédito:Divulgação)

Orgulho desmatador

A área que versa sobre as políticas do Meio Ambiente parece ser a mais competente do governo. O afã desmatador do presidente é seguido à risca pelos seus subordinados. Ele deveria se orgulhar do feito. Gritar aos quatro cantos, confeccionar camisetas comemorativas com os dizeres: “Eu desmato mesmo, e daí?”. Não está muito longe disso. Por ora, Jair Bolsonaro prefere tergiversar. Alega que o motivo das queimadas pode ser a ação de ONGs, que, segundo ele, não recebem mais repasses da presidência. “Pode estar havendo ação criminosa desses ‘ongueiros’. Essa é a guerra que enfrentamos”, conspirou. Não, presidente. A guerra somos nós que enfrentamos. E é outra.