Comportamento

Piratas do patrimônio

Além de destruir a memória da humanidade e negar as conquistas da civilização, o grupo terrorista Estado Islâmico comercializa relíquias em comunidades secretas do Facebook

Crédito: Joseph Eid

MEMÓRIA Estátua destruída em Palmira na Síria: objetos históricos se perdem ao serem vendidos pelo mercado informal (Crédito: Joseph Eid)

Ficaram na memória as cenas terríveis do Estado Islâmico demolindo na Síria monumentos milenares de imensa importância histórica e roubando partes deles. Foi assim com o templo de Baal-Shamim, erguido na cidade de Palmira no século II a.C., e também com o mosteiro de Mártir Elian, construído há mais de 1500 anos na cidade de al Qarvatain. Outros patrimônios da humanidade tiveram o mesmo destino. A destruição de tais símbolos é uma atividade insana e prática frequente de bárbaros invasores e de organizações terroristas que querem eliminar as tradições com as quais não concordam. Agora, além de vilipendiar a civilização, o Estado Islâmico vem conseguindo financiar suas atividades criminosas comercializando clandestinamente tais peças de sítios arqueológicos. E o lucro é alto.

Divulgação

O projeto Athar (cujo nome é proveniente da palavra árabe que se refere a antiguidades de importância histórica) divulgou recentemente a descoberta de que o grupo terrorista está procurando compradores de relíquias milenares do Oriente Médio por intermédio de comunidades secretas que se comunicam em árabe no Facebook. Há até mesmo colecionadores que fazem encomendas de objetos de saques, principalmente de documentos e pergaminhos. Encontros são marcados pela internet, mas as transações de verdade acontecem longe da rede de computadores e em locais discretos, envolvendo, obviamente, dinheiro vivo. A Turquia é uma das rotas de contrabando mais utilizadas pelo grupo terrorista e seu principal foco de ação.

pós a divulgação desse esquema, o Facebook anunciou o banimento de 49 grupos suspeitos de envolvimento na operação, mas o líder do projeto Athar, professor Amr Al-Azm, estima que ainda existam em torno de 90 dessas comunidades em funcionamento, envolvendo milhares de usuários. Ele afirma que os esforços para deletar os grupos só teriam efeito prático se tivessem ocorrido anos atrás, impedindo assim o crescimento da rede de contrabandistas. Hoje, os registros das postagens são até importantes para ajudar na procura por obras saqueadas. Entre os produtos que são vendidos ilegalmente estão estátuas, moedas, peças de ouro e até mosaicos que jamais foram documentados. Só se sabe que ele existem devido à exposição e venda nas redes sociais. A Athar é filiada ao projeto “The Day After”, que planeja uma transição democrática para a Síria após o fim da ditadura de Bashar al-Assad, e utiliza agentes infiltrados nos grupos para rastrear arte furtada.

CLASSIFICADOS Obras desconhecidas tiveram o primeiro registro ao serem anunciadas no Facebook

Quanto ao valor dessas obras há bastante variação, mas o projeto já tornou público ter recebido ofertas de até US$ 300 mil para compra de mosaicos retirados da Síria. Durante a extração dessas antiguidades, o Estado Islâmico destrói aqueles com significado cultural para povoados rivais do Oriente e conserva os potencialmente atrativos para compradores do Ocidente, como conta Vagner Porto, professor do Museu de Arqueologia da USP. “O Ocidente critica as ações do Estado Islâmico, faz um espetáculo do terrorismo, mas, por outro lado, alimenta esse mercado que sustenta o grupo”, diz Porto. Ele afirma que a aura de “arte perdida” faz com que o valor financeiro seja estratosférico para colecionadores de artes e mecenas ocidentais.

Saque de Napoleão

Roubo e comércio clandestino de relíquias são práticas que existem há muito tempo e se confundem com a história da arte. Napoleão, por exemplo, invadiu e saqueou o Egito e levou inúmeras obras para a França, para abastecer o museu do Louvre. Os frisos de mármore do Parthenon, removidos da Grécia antes da Guerra de Independência do país e levados para a Grã-Bretanha em 1806 pelo Lorde Elgin, ainda estão guardados e em exibição no Museu Britânico, em Londres. A Grécia reserva um espaço para suas preciosidades saqueadas no moderno Museu da Acrópole de Atenas. Devolver tais peças a seus países de origem, nisso ninguém pensa em fazê-lo. No caso das relíquias sírias, um fator que complica bastante o retorno desses tesouros é a rejeição dos governos ocidentais à ditadura de Assad. Como muitas dessas obras são recuperadas em países da Europa Ocidental, a possibilidade de devolução parece algo bastante improvável. Sempre haverá algum motivo para negá-la. Como aponta Porto, a segurança de que é possível preservar pesa muito nessa decisão: “O Ocidente não tem confiança de mover material arqueológico de um local seguro como o Louvre para a Síria, alvo de constantes ataques”.

Após a divulgação do esquema criminoso, o Facebook anunciou o banimento de 49 grupos suspeitos, mas ainda existem 90 em atividade

Como ferramentas de conservação, Michele Arroyo, presidente do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais, estado que teve sua arte barroca saqueada nas últimas décadas, aponta que o plano de ação para preservação de patrimônio inclui documentação detalhada do acervo de um sítio arqueológico, bem como informações precisas da forma dos objetos para eventual reconstrução em impressoras 3D — isso, para casos irrecuperáveis. Ela conta que o exercício da memória acontece no presente, e que fotos e outras construções são importantes para dar sentido às lembranças. “Em grandes desastres em que monumentos são destruídos, é como se aquela sociedade tivesse que reconstruir sua história, por isso é importante a preservação de imagens”, diz Michelle. Na Síria, berço da humanidade, deveria ser obrigação legal de todos proteger a memória da civilização. Mas isso é descartado em meio a radicalismos religiosos e à ganância de colecionadores.

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