Brasil

O pior amigo de Bolsonaro

Gilmar Alves, que fez parte da infância do presidente em Eldorado, não se lembra dele exercendo ocupação remunerada quando criança e se sente difamado pelas declarações do ex-companheiro de pesca

Crédito: GABRIEL REIS

DESPREZO Chamado de “amigo gay” pelo presidente, Gilmar sofre chacotas e já não espera um pedido de desculpas (Crédito: GABRIEL REIS)

Vinícius Fonseca

Atarracado, desconfiado, de cabelos grisalhos e com as mãos cultivadas pela terra, Gilmar Alves, de 63 anos, puxa a conversa para a sua sala, no Escritório de Defesa Agropecuária de Registro, onde é engenheiro agrônomo. Para conseguir cursar agronomia, em Curitiba, pescava toda semana nas margens do Rio Ribeira do Iguape, “fazendo frio ou calor”, na cidade de Eldorado Paulista, ao lado de Jair Messias Bolsonaro, quando ainda eram alunos da Escola Estadual Dr. Jayme Almeida Paiva no final dos anos 1960. Como eram filhos de famílias humildes, a renda da pescaria era dividida entre os dois em partes idênticas. “A gente brincava muito, pescava para se divertir e juntar dinheiro, porque queríamos aprender. Nós sabíamos que a vida em Eldorado acabava junto com o fim do ensino médio. Ele deu mais sorte, foi para a Academia Militar das Agulhas Negras, onde não tinha despesa e até ganhava um salário mínimo”, lembra Gilmar.

Prioridade para os estudos

Antes de comercializar peixes, o atual presidente afirmou ter trabalhado, aos nove anos, em uma fazenda próxima à cidade, em uma plantação de milho. Recentemente, em uma de suas aparições no Facebook, defendeu a “importância” do trabalho infantil para o desenvolvimento social das crianças. “Não atrapalha a vida de ninguém, mas fiquem tranquilos, pois não vou apresentar um projeto para descriminalizar, caso contrário eu seria massacrado”, afirmou. Gilmar não acredita que ele tenha trabalhado na fazenda. “Ocupação remunerada mesmo, não me lembro”, diz. Esta tampouco é a memória do irmão de Jair, Renato Antonio Bolsonaro, que, em 2015, afirmou que o pai deles “nunca deixou um filho trabalhar, pois, para ele, filho tinha que estudar”. Segundo Gilmar, o patriarca da família Bolsonaro “tinha essa característica de priorizar os estudos”. “Não me lembro de Jair trabalhando, até porque não tinha emprego mesmo para aqueles que queriam”, diz. Essa realidade pouco mudou nas últimas décadas e é reiterada pelo prefeito de Eldorado, Durval Adélio, amigo da família Bolsonaro: “os empregos são escassos”.

VIDA MANSA Uma das principais diversões de Bolsonaro era pescar no Rio Ribeira de Iguape (acima): esforço para juntar uns trocados (Crédito:Twitter jairmessiasbolsonaro)

Hoje Gilmar “despreza” Bolsonaro e ignora suas pregações por causa das “mentiras” das quais alega ter sido alvo e de seu posicionamento político, contrário ao presidente. A razão principal da sua repulsa ao ex-amigo é uma entrevista concedida pelo então deputado federal à Lydia Sayeg, no programa Raul Gil, do SBT. Questionado sobre a promiscuidade entre política e religião, Bolsonaro declinou e reorientou a conversa para a polêmica do “kit gay”. “Sou católico, está ok? Inclusive, a partir dessa questão do kit gay nas escolas, eu falava muito em cristão, evangélico, católico, até que um amigo gay meu, o Gilmar, que mora em Registro, ligou para mim e falou: ‘Sou ateu e penso da mesma maneira que você”.

Por causa da declaração, Alves, que é agnóstico, pai e avô de duas meninas, ainda hoje, quase quatro anos depois, é motivo de piada nas ruas do Vale do Ribeira. “O que me chateou foi a covardia, porque ele tem a mídia, ao contrário de mim, e sabe que é mentira”, critica. De fato, Bolsonaro ligou para o então amigo a fim de compreender a sua opinião sobre o tema. “Mas mesmo que eu fosse gay ou ateu, ele não tem nada a ver com isso. O complicado é fazerem piada toda hora por algo que não sou”. Atrás de explicações e retratações, chegou a telefonar para Bolsonaro, que negou a declaração. Teve esperanças de um pedido de desculpas, esvaziado pelo silêncio duradouro do outro lado. “Sou avô, tenho família religiosa, mas até hoje sofro certo bullying. Sempre tem aquelas pessoas que dizem: ‘Onde tem fumaça tem fogo’, ou ‘É ativo ou passivo?’. É uma coisa que me chateia bastante, me prejudicou muito e até hoje me deixa incomodado. Só eu sei o que passei por causa disso. É difícil, fui caluniado”, desabafa.

ECONOMIA Eldorado, cidade onde Bolsonaro cresceu, oferece poucas oportunidades de trabalho: empregos escassos (Crédito: GABRIEL REIS)

Com exceção de Gilmar, é difícil encontrar alguém no Vale do Ribeira disposto a falar do atual presidente. Na região, vigora uma espécie de lei do silêncio. Nenhum dos familiares de Bolsonaro quis falar com a reportagem da ISTOÉ, que percorreu quatro cidades em busca de declarações a respeito do trabalho infantil. A irmã, Vânia Bolsonaro, dona de uma loja de móveis em Cajati, justificou sua postura ao afirmar que a mídia já fez “muita matéria, de todo tipo”, sobre a família. O irmão, Angelo Guido Bolsonaro, que ainda vive em Eldorado e é dono de uma lotérica na praça central da cidade, demonstrou animosidade ao ser abordado. Em Eldorado, o vice-prefeito Dinoel Rocha alertou que a família “é um pouco hostil à imprensa”. Seja como for, algo parece certo: há controvérsias quanto ao trabalho de Bolsonaro na infância.

 

Tópicos

Bolsonaro