Edição nº2552 15/11 Ver edições anteriores

Entre o sonho e a realidade

Não resta dúvida, especialmente para expatriados como eu, viver em uma época permeada pela conectividade traz enormes vantagens. A facilidade para matar as saudades da família é uma delas. Entretanto, também dissabores, como ter sido incapaz de evitar o falatório proporcionado por Fausto Silva a Luciano Huck.

Não se trata de antipatia gratuita, apenas não consigo enxergar virtudes nesse voluntarismo empapado de ingenuidade e destilado com tanta destreza pelo jovem apresentador. Mesmo ciente das suas aspirações políticas. Aliás, justamente por conta delas.

No fundo, ainda que as premissas do seu discurso sejam as melhores possíveis, talvez Huck não se dê conta de um detalhe crucial: após tantos ciclos eleitorais acreditando em salvadores da pátria e se deixando levar pela flauta do populismo, tudo o que o eleitor comum não precisa agora é de aventureiros bem-intencionados.

Seriam muito bem-vindos, por outro lado, argumentos carregados de pragmatismo. Que, ao invés de flertar com a autoajuda, levassem o cidadão a enxergar a cena política de maneira adulta. Principalmente em tempos de tanta polarização. A compreender, enfim, que a própria demonização generalizada dos políticos vem sendo instrumentalizada há tempos para empossar patifes e gatunos.

Convenhamos, de Collor a Lula, passando até por um certo Tiririca, não faltam exemplos de candidatos ungidos pelas massas apenas pelo fato de não preencherem integralmente o estereótipo do político de carreira. Também é verdade que a história nunca se furta de confrontá-los, e em alguns casos espera-se que até a Justiça o faça, porém seria ótimo se conseguíssemos demonstrar um fiapo que fosse de aprendizado com os nossos erros.

Huck não ajuda, mas sempre pode piorar: nessa esteira de candidaturas antiestablishment, já houve até quem sugerisse o nome de Guilherme Boulos e o próprio Jair Bolsonaro é outro que se aproveita do momento, embora
não seja um noviço na política.

A verdade, no fim das contas, é que não existem atalhos para mudar o País. Nunca existiram. E é melhor que o eleitor acostume-se logo com essa idéia, ao invés de continuar se deixando levar por palavras fáceis, legendas que mudam de nomes, ou grupos dispostos a sequestrar o sistema.

Não será tão fácil. E, honestamente, é melhor mesmo que não seja.

De Collor a Lula, passando até por um certo Tiririca, não faltam exemplos de candidatos ungidos pelas massas apenas pelo fato de não preencherem integralmente o estereótipo do político de carreira


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