Cultura

Capanema, o homem que era um ministério

Biografia revela como o político mineiro se tornou ministro da Educação a contragosto, mas, ainda assim, conseguiu modernizar o ensino e a cultura na Era Vargas

Capanema, o homem que era um ministério

Toda vez que a educação corre perigo, manifestantes marcham em frente à sede do Ministério da Educação no Rio de Janeiro. Mal sabem que o prédio, de 1943, é um marco da arquitetura modernista e da renovação da cultura e do ensino. Projetado por Le Corbusier e Oscar Niemeyer, é conhecido como Palácio Capanema, nome de seu idealizador: Gustavo Capanema (1900-1985).

AUSTERO Gustavo Capanema em
Paris (c. 1950): reunião de artistas
e intelectuais para criar o Ministério
da Educação, hoje conhecido como “Ministério Capanema”

“O edifício resume a visão de um político que nunca pensou em apear do governo”, diz o historiador e jornalista Fábio Silvestre Cardoso, autor da biografia “Capanema: a história do ministro da Educação que atraiu intelectuais, tentou controlar o poder e sobreviveu à Era Vargas” (editora Record). “Para não deixar o poder, evitou concorrer a cargos eletivos.”

“Capanema foi o típico conservador mineiro”, diz Cardoso. “Era discreto e se aliava a amigos importantes.” Mesmo desprovido de carisma e jamais sorrir, manteve-se em cargos públicos por 50 anos, de 1929 a 1979. De interventor de Minas Gerais a senador biônico da ditadura, passou por seu momento glorioso, entre 1934 e 1945, o de sua gestão no Ministério da Educação e Saúde (MES), o mais longevo da história. Getúlio Vargas convidou-o para o ministério como consolação, pois sonhava em seguir como interventor.

Tão logo assumiu a sinecura, converteu-a em palanque. Iniciou uma gestão moderna, embora ditatorial. Fundou órgãos, como o Instituto Nacional do Livro e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Convidou o poeta Carlos Drummond de Andrade, para atrair intelectuais e artistas, entre eles o escritor Mário de Andrade e o músico Villa-Lobos. O círculo de celebridades deu brilho ao “Ministério Capanema”. À sombra do glamour, chefiou a nacionalização do ensino em 1942, após o Brasil entrar na guerra contra o Eixo. Foi então que chamou o exército para forçar as colônias italianas e alemãs dos estados do Sul a abandonar seus idiomas de origem. Mandou demolir escolas rurais e prender quem não falasse o português.

De Jango ao Caos

Getulista, defendeu o presidente na crise que o levaria ao suicídio em 1954, como deputado pelo Partido Social Democrático (PSD). Apoiou o correligionário JK à presidência, e se assustou quando João Goulart assumiu o cargo em 1961. Foi então que proferiu a imprecação: “Entre Jango e o caos, prefiro o caos.”

Organizou o caos: apoiou o golpe e se filiou à Aliança Renovadora Nacional (Arena), onde se manteve até morrer. “No início, queria traçar o perfil de um homem discreto”, afirma Cardoso. “Descobri que ele era muito vaidoso.” Cobiçava a imortalidade com dois livros, um de discurso e outro de aforismos. Mas perdeu a eleição à ABL em 1980. Apesar de ter criado um instituto de preservação da memória, Capanema é um vulto esquecido. Eis um de seus ditos célebres: “Política é a arte de conquistar e conservar o poder”. Cumpriu a divisa até o final.