Comportamento

Cama e grana

É como a polícia supunha: cada vez mais clareiam-se as evidências de que o assassinato do pastor Anderson do Carmo pode envolver sexo, filhas e muito dinheiro. A deputada Flordelis surge como principal suspeita de ser a mandante do crime

Crédito: Divulgação

CONFUSÃO Há quem afirme que Simone, filha biológica de Flordelis, se relacionou sexualmente com o pastor Anderson, antes de ele ser seu pai adotivo. Anderson casou com Flordelis mas quis continuar com, digamos, a doutrinação (Crédito: Divulgação)

Desde a morte do pastor Anderson do Carmo, em 16 de junho, as circunstâncias de seu assassinato levam a indícios mais nebulosos do que elucidadores. Ele foi morto com trinta tiros na garagem de sua casa, o que caracteriza execução ou crime por vingança. A Polícia Civil do Rio de Janeiro logo começou a trabalhar em duas linhas de investigação: cama e grana, e ambas parecem estar prosperando. A aposta decorre do depoimento de Rogério Silva, amante de Simone dos Santos, 35 anos e filha biológica da deputada federal e cantora gospel Flordelis dos Santos Souza. Rogério, frequentador da igreja de Flordelis, revelou à polícia o desejo de Simone de executar Anderson: “Vou matar esse demônio. Minha mãe não aguenta mais”. Na ocasião, Rogério teria se oferecido para fazê-lo, mas depois recuou. Antes, a filha expôs tentativas repetidas e antigas de envenenar o padrasto, que chegou a emagrecer vinte quilos em outubro de 2018. “Ele era tão ruim que não morria”, disse Simone a Rogério. Ela nega que tenha tentado envenenar o pai – apesar de laudos sobre isso estarem registrados – e alega que só foi atrás de venenos para ajudar ajudar uma amiga que queria sacrificar o seu cachorro que padecia com câncer.

MÃO DE FERRO Investigações apontam que Anderson era autoritário dentro de casa e controlava todo o dinheiro da família (Crédito:Divulgação)

Em outro depoimento, a mãe do pastor Anderson, Maria Edna do Carmo, disse que o filho teve um relacionamento com Simone antes de se casar com Flordelis. Até aí tudo bem. O ruim é que o pastor deu sequência a esse arrebanhamento pessoal e sexual depois de casado. As investidas sexuais do pastor também foram indicadas por outra filha entre os 55 que Flordelis e Anderson tiveram – 51 adotados, como quem coleciona crianças, e quatro biológicos. Sem revelar o seu nome, essa filha afirma que Anderson teria tentado abusar sexualmente de uma das irmãs, e, por isso, chegou a traçar um plano para matá-lo – ela igualmente não revela se “essa outra irmã” assediada foi a própria Simone ou, sabe-se lá, se não foi ela mesma. E dá-lhe irmãs na história. Uma terceira, chamada Mirza Teixeira da Silva, reconhece que encomendou a morte do pastor ao irmão Lucas Cézar dos Santos por dez mil reais e que Flordelis estava ciente do plano. Lucas teria aceitado mas também voltou atrás após refletir um pouco. Pelo sim, pelo não, nesse enredo de tragédia grega a polícia mandou seu relatório à Justiça e tanto Lucas quanto o seu irmão Flávio dos Santos Rodrigues, ambos presos, já são réus pelo assassinato: o primeiro teria atirado e o segundo providenciado a arma.

Estranho, muito estranho

As confissões envolvendo Simone não se limitaram aos relacionamentos afetivos no seio da família. A Rogério (que era o amante, e é bom lembrar em meio a esse emaranhado), ela um dia desabafou: Anderson era um “ditador” em casa e todo o dinheiro passava diretamente por ele. É aqui que grana e cama se misturam. Outro filho adotivo do casal, Wagner Andrade Pimenta, vereador em São Gonçalo e conhecido como Misael, disse à polícia que Flordelis foi peça fundamental no crime ao manipular os irmãos para encontrar “alguém com a coragem de matar Anderson.” E desfiou o rosário: além do casal passar por desavenças de cunho financeiro, as mensagens de Marzy enviadas à Lucas a fim de providenciar o assassinato de Anderson foram digitadas por Flordelis. Pelo começo ou pelo fim da história, os depoimentos dos filhos parecem levar de fato Flordelis à condição de mentora do crime. E já que tanta gente falou, que fale ela: nega a grana, nega a cama, e minimiza a sua participação: só teria quebrado o celular do marido morto e descartado-o na ponte Rio-Niterói, deixando a polícia a ver navios. Flordelis classificou a atitude de Misael como “sórdida” e “difícil de entender”. Para ela, as acusações foram decorrentes de uma briga entre o filho e o pastor Anderson, pois ambos queriam disputar a eleição à Prefeitura de São Gonçalo em 2020. Dias depois do assassinato, Misael se desligou da família. Estranho? Não deixa de ser. Mas o que não é estranho nessa tragédia?

 

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