Edição nº2599 18/10 Ver edições anteriores

A nova literatura de Brasília

Estamos tão acostumados com o surrealismo que impera na política brasileira que a revelação de que um procurador-geral da República pretendia assassinar um ministro do Supremo Tribunal Federal e depois se suicidar passa como uma espécie de anedota para a opinião pública. Mais uma dessas maluquices de Brasília.

Mas a verdade é que a revelação de Janot abre um novo capítulo naquilo que podemos esperar de nossos homens públicos. Imagine se cada desses protagonistas da história republicana recente decidisse publicar livros com relatos bombásticos? Aí sim valeria a pena ler, reler e guardar todos os jornais da semana. A Netflix teria que produzir minisséries em série — com o perdão do trocadilho. Ainda que eu esteja convencido de que poucos escritores de ficção teriam talento para superar o ex-procurador-geral, não posso deixar de imaginar o potencial dessas histórias. Eis alguns trechos que permitirão aos leitores saber quem está narrando.

No livro de um poderoso ex-deputado federal: “No dia da votação do impeachment, estava convencido que precisava garantir que o processo passasse para o Senado. Pedi que colocassem uma bazuca embaixo da mesa da presidência. Já havia negociado com todos os deputados que podia, mesmo assim ainda tinha medo de alguma mudança de lado na última hora. Então chamei um deputado com experiência militar e decidimos espalhar algumas bombas em locais estratégicos do plenário, just in case. Graças a Deus, não foi necessário utilizá-las.”

Nas memórias de um ex-vice-presidente: “Quando ele veio me visitar, temi que fosse me chantagear. Então pedi para que ficássemos na garagem de casa, para não haver testemunhas. Minha intenção era esconder seu corpo no porta-malas depois de assassiná-lo, já que não conseguiria arrastá-lo da sala até o carro. Sou um senhor de idade, entendam. Além do mais, poderia chamar a atenção dos empregados. No entanto, quando percebi que ele estava seguindo todas as minhas instruções, mudei de ideia. Ah, se eu soubesse que o safado estava nos gravando…”

Na biografia autorizada de uma ex-presidente: “Se tinha uma coisa que eu odiava, era quando ele me chamava de ‘querida’. Sério. Aquilo me tirava do sério. Mas fazer o quê? Sendo ele quem era, podia chamar a gente do que bem entendesse. Então, naquele dia que liguei para ele, aquele dia que eu ia chamá-lo para a Casa Civil, tinha certeza que a conversa estava sendo gravada. E eu sabia que ele ia me chamar de ‘querida’. Foi minha vingança. É como eu sempre digo: Mais vale um pássaro na mão do que um peixe que morre pela boca.”

E se depois do Janot todo mundo que importa na República
resolvesse
contar o que sabe, o que viveu, o que sentiu lá no fundo? Confira trechos de alguns livros de suposta não-ficção
que jamais serão lançados

Em “A Verdadeira História do Brasil”, de um ex-presidente-presidiário: “Isso eu nunca contei para ninguém. Guardei para esse livro. Antes desse escândalo todo começar, o tal juiz veio falar comigo. Pouca gente sabe disso. Eu o recebi no meu apartamento. Ele tinha uma proposta. Queria trocar a chácara pela minha liberdade. Queria tudo. Até os pedalinhos. Disse que se eu passasse a chácara para o nome dele, encerraria o processo. Expliquei que não era dono da chácara. Ele ficou maluco e começou a me perseguir. Veja você como funciona a Justiça no Brasil.”

E, finalmente, no romance “Meus Amores”, de um ministro do STF: “Naquele dia em que ele veio ter comigo, decidi que iria matá-lo e depois me suicidaria. Depois que li que essa também era sua intenção, percebi como somos parecidos. Nos aproximamos. Agora moramos juntos num apartamento funcional, em Brasília. Temos um labrador chamado Jairzinho e estamos muito felizes.”


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