Ediçao Da Semana

Nº 2742 - 12/08/22 Leia mais

Brasil/Atentado  1981

No palco do Riocentro, Chico Buarque, Gal Costa, Gonzaguinha e Gonzagão, Clara Nunes, Alceu Valença, Djavan e outros artistas. Na plateia, 20 mil pessoas comemorando o Dia do Trabalho, num show organizado pelo Centro Brasil Democrático, entidade ligada ao Partido Comunista Brasileiro, então na ilegalidade. Do lado de fora, dois agentes do DOI-Codi, órgão de inteligência e repressão do Exército, dentro de um carro Puma, carregando vários artefatos explosivos. Estava armado, no dia 30 de abril de 1981, a farsa que seria o último suspiro da ditadura militar.

Agentes desastrados

“Durante o espetáculo explodiram, eu disse explodiram, duas bombas”, disse Gonzaguinha ao público, seguindo com um breve discurso em favor da democracia. Minutos antes, os artefatos haviam sido detonados acidentalmente no colo do sargento Guilherme Pereira do Rosário, que morreu na hora. O capitão Wilson Machado ficou levemente ferido. Uma segunda bomba explodiu na estação de luz do Riocentro, mas não foi suficiente para interromper a energia.

A intenção de ambos, como ficou provado depois, era detonar a bomba no pavilhão em que acontecia o show e culpar a esquerda, para tumultuar o lento processo de redemocratização do País. “O atentado ocorreu com a conivência dos militares que estavam no poder, como ficou demonstrado com descobertas recentes, como a agenda do oficial do Exército Julio Miguel Molinas Dias”, diz Ana Carolina Antão, 25 anos de idade, relatora do capítulo sobre os atentados no relatório final da Comissão Estadual da Verdade do Rio de Janeiro. “As evidências mostraram que o Estado estava envolvido e havia uma ruptura interna entre pessoas que não queriam a abertura e as que eram favoráveis a ela.”

As consequências dos atentados foram o enfraquecimento do regime e a retomada da democracia. Agora, as novas gerações têm um ganho: o direito à verdade. “Essa é uma noção fundamental do Direito internacional: conhecer o passado, entender, responsabilizar e traçar estratégias de não repetição”, afirma. Para ela, os trabalhos das comissões da verdade em diferentes âmbitos apenas começaram e ainda há muito a ser feito. “As Forças Armadas têm dificuldade em abrir seus arquivos e ainda há centenas de desaparecidos no Brasil”, afirma. “A Comissão Nacional da Verdade alterou a história oficial, quando o Estado reconheceu violações sistemáticas e de lesa humanidade”, diz ela. “Precisamos continuar investigando nosso passado e ter o direito à memória garantido.”

Ao praticar o jornalismo investigativo e independente, ISTOÉ sesmpre se pautou pela busca da verdade dos fatos, denunciando abusos e exigindo a devida punição dos culpados.

“O Estado estava envolvido e havia uma ruptura entre pessoas que não queriam a abertura e as que eram favoráveis a ela” Ana Carolina Antão, 25 anos, da Comissão da Verdade do Rio de Janeiro
“O Estado estava envolvido e havia uma ruptura entre pessoas que não queriam a abertura e as que eram favoráveis a ela”Ana Carolina Antão, 25 anos, da Comissão da Verdade do Rio de Janeiro