Economia

Xinjiang, um inconveniente para a Nova Rota da Seda da China

Xinjiang, um inconveniente para a Nova Rota da Seda da China

Delegado de etnia uigur após reunião da delegação de Xinjiang na Assembleia Popular Nacional chinesa, em 12 de março em Pequim - AFP/Arquivos

“Véus e barbas grandes são proibidos”. Em uma zona de livre-comércio na fronteira sino-cazaque, cartazes revelam a campanha orquestrada por Pequim contra o islamismo em Xinjiang, uma região que está no centro do projeto da Nova Rota da Seda.

Para Pequim, este território chinês na fronteira com o Paquistão, o Afeganistão e três ex-repúblicas soviéticas da Ásia Central de maioria muçulmana, Tajiquistão, Quirguistão e Cazaquistão, é a porta natural da Rota da Seda – projeto de infraestrutura faraônico que conectará seu território aos mercados tradicionais de Ásia, Europa e África.

“O projeto das Novas Rotas da Seda é um importante fator que permite explicar por que o governo central precisa colocar ordem de uma vez por todas em em Xinjiang”, avalia o pesquisador Adrian Zenz, especialista na região.

Cenário de atentados atribuídos a separatistas da etnia uigur, a região, com mais de 50% da população muçulmana, é alvo de uma intensa intervenção de Pequim, acusada de ter pelo menos 1 milhão de internos em campos de reeducação política, por motivos muitas vezes insignificantes, como usar uma barba suspeita.

O regime comunista desmente esta cifra e afirma que tratam-se de centros de formação profissional destinados a reforçar as capacidades da população para o emprego e combater o risco de radicalização.

– Posição delicada –

A repressão lançada em Xinjiang colocou os governos dos países vizinhos em uma situação delicada. Na semana passada, eles participaram da cúpula sobre a Rota da Seda em Pequim, convocada pelo presidente Xi Jinping.

Esses países, que têm relações com Pequim ligadas às promessas chinesas de investimentos maciços, hesitam em criticar a política que está em prática em Xinjiang, sob o risco de contrariar sua população.

“Falando francamente, não estou muito ciente”, disse o primeiro-ministro paquistanês, Imran Khan, em março, quando questionado sobre a situação em Xinjiang.

Comerciantes paquistaneses casados com uigures afirmam que suas mulheres estão detidas no lado chinês da fronteira e denunciam o silêncio de Islamabad.

No Cazaquistão, um ativista foi preso depois de denunciar a situação dos cazaques em Xinjiang (cerca de 6% da população). Além disso, Astana negou asilo a um cidadão chinês que fugiu para aquele país, depois de descrever suas condições de detenção em Xinjiang.

“A situação não é fácil para esses países, porque eles estão enfrentando esse parceiro econômico (China), cujo poder só cresce”, diz Raffaello Pantucci, do instituto britânico Royal United Services.

“Eles têm que gerenciar esse relacionamento, fazendo um esforço para representar o seu povo, tanto quanto eles podem”, explica.

– Benefício indireto –

Xi Jinping lançou sua iniciativa das Novas Rotas da Seda (que a China chama de “Cinturão e rota”) na capital do Cazaquistão, em 2013, o que explica a importância que Pequim concede à Ásia Central.

Para Pantucci, os líderes chineses esperam que o desenvolvimento da Ásia Central beneficie indiretamente Xinjiang.

“Do ponto de vista da China, a resposta de longo prazo aos problemas de Xinjiang […] reside na prosperidade econômica”, afirma.

A Zona Econômica Especial de Khorgos, na fronteira entre a China e o Cazaquistão, procura impulsionar o comércio entre os dois países. Os comerciantes vão ali trocar mercadorias, como roupas ou utensílios de cozinha, sem precisar de visto.

Mas as tensões políticas e religiosas não estão longe. Em uma visita à imprensa, um jornalista cazaque foi avisado de que ela não poderia entrar na parte chinesa da zona econômica com o hijab. O jornalista permaneceu no lado cazaque.