Xingatório geral e irrestrito

Tenho ouvido uma série de comentários sobre o aumento dos desatinos verbais que ora são observados no Brasil. Alguns observadores se limitam a constatar o fato. Outros procuram as causas do fenômeno. Sobre suas consequências em nossa sociedade, raramente ouço ou leio alguma coisa.

Que tal desatino aumentou de uma forma inacreditável, creio não haver dúvida. O País do idílio “cordial” sempre foi uma meia verdade, mas existiu. Época houve em que conseguíamos falar de política ou de futebol sem descambar para a grosseria. Hoje é uma quase impossibilidade. Qualquer afirmação ligeiramente irônica ou provocativa
é contestada de maneira agressiva e azeda, com uma chuva de palavrões e linguagem chula.

A que se deve tal mudança? O marco zero é de uma clareza meridiana: a eleição presidencial de 2018, com a polarização raivosa entre petistas e bolsonaristas. O contraponto entre duas rejeições: muita gente votando em Bolsonaro por odiar o PT e vice-versa. Os bolsonaristas entendiam que a sociedade demandava franqueza, algo que Bolsonaro lhes ofereceu.

A vantagem dessa hipótese é que ela explica não só o antipetismo, mas também o anticentrismo. Milhões de eleitores não queriam mais ouvir o que sempre ouviram: projetos que em outras condições talvez lhes parecessem sérios e bem concebidos. Não, eles queriam algo que, neste contexto, significasse uma fala desabrida, acusatória, sem luvas de pelica e, sobretudo, sem o comedimento que as democracias ocidentais a duras penas conseguiram consagrar na vida pública.

A outra explicação a que se tem abundantemente recorrido é o advento das redes sociais. De fato, certas restrições morais que trouxemos da infância se afrouxaram. Ficamos todos mais corajosos, mais machos. Tempos atrás, a comunicação instantânea e em larga escala era vista com esperança, como base de uma futura “democracia direta”. Imaginávamos que assim a troca de ideias e a formação de consensos ficariam mais fáceis. Ledo engano. O que estamos vendo é que as redes impulsionam o xingatório geral.

Já passa da hora de entendermos que essa suposta franqueza é ruim para o fígado e pior ainda para o desenvolvimento de nosso País. Radicalizar e insultar a torto e direito são os caminhos mais curtos para destruirmos um ativo importante que possuíamos: uma certa concórdia. Essa boa educação nos dava capacidade de ouvir e ponderar pontos de vista diferentes dos nossos.

O cansaço com os velhos discursos abriu as portas para uma franqueza acusatória. Só que passou da hora de percebermos que o insulto faz tão mal ao fígado quanto ao País

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