Cultura

Xenia França faz show de estreia de novo álbum no Auditório Ibirapuera

Quando deixou Candeias, no Recôncavo Baiano, Xenia França ainda achava que seu nome deveria ter acento grave. Escrevia-se “Xênia”. “Não sei o motivo disso, mas achava mais bonito”, ela diz. Treze anos atrás, a moça deixava mãe, avó, história e raízes em direção a São Paulo, na busca de um sonho. Deixou o microuniverso que conhecia para se aventurar. Na cabeça, a ideia de que, depois da capital paulista, seguiria para Nova York. “Eu assistia a muitos filmes e tinha esse sonho”, explica. A vida manteve Xenia por aqui, enraizada.

Com outros 11 parceiros formou a banda Aláfia, um supergrupo que funde sonoridades, o jazz, o rock, o rap, e provoca a reflexão e a dança, na mesma medida. Ao todo, lançaram três discos – último, “SP Não É Sopa”, saiu em fevereiro deste ano. Havia – e há -, contudo, mais o que compartilhar, dizer e cantar. “Xenia”, o disco, lançado há pouco e com show de estreia marcado para ocorrer no Auditório Ibirapuera, neste domingo, 15, é a prova de que o furação Xenia, a cantora, ainda estava fracionado.

O disco (independente e viabilizado com o auxílio do edital Natura Musical) é um álbum de retratos sobre os 30 anos de Xenia França. Há amores e amarguras, sorrisos e lágrimas, conceitos e preconceitos. Ela traça sua linha da vida aqui. O passado é representado pela ancestralidade, as asperezas que lhe rasgaram a pele negra, pelas homenagens à avó e à mãe. O presente também e bruto e pontiagudo, fere, machuca. Do futuro, ainda não há foto, somente a esperança. “O desejo de ter um trabalho solo é antigo”, ela conta. “Sempre há a vontade de provar para nós mesmos que podemos dar novos passos. Poderia ter feito esse disco quando comecei a cantar. Diante do meu amadurecimento, das minhas experiências de vida, percebo que lançar um disco agora é perfeito. Sinto-me muito mais segura.”

E a história de Xenia data de antes mesmo de ela chegar ao mundo. “Pra Que Me Chamas?”, a primeira canção do trabalho, é uma poderosa canção assinada por ela e Lucas Cirilo, integrante da Aláfia, na qual ela canta sobre apropriação cultural e sobre a maior ferida da história do País, iniciada quando os primeiros navios aportaram por aqui com pessoas escravizadas. E chega ao fim com “Breu”, outro petardo, uma das muitas consequências ao que é cantado em “Pra Que Me Chamas?”, uma música cheia de silêncios e espaços para o luto que trata da violência nas suas mais atrozes formas – a letra, de Cirilo, surgiu depois do assassinato de Claudia Silva pela Polícia Militar do Rio de Janeiro, em 2014.

“Pra Que Me Chamas?” e “Breu” são capa e contracapa do álbum de fotografias de Xenia. Dentro dele, ela expõe quem é. Mulher, negra, forte e frágil, tudo ao mesmo tempo. É a garota sonhadora que veio a São Paulo com ambição de se tornar modelo e morar em Nova York (como em “Minha História”) e encontrou, na cidade, um mercado racista – “As agências tinham uma cota a ser preenchida, se já houvesse uma ou duas garotas negras no casting, estavam satisfeitas”, relembra. É a mulher a questionar a falta de afetividade e do amor, como em “Perfeita Para Você” e “Miragem” (Sem Razão), as duas composições do disco nas quais assina as letras sozinha. “Estatisticamente, a mulher negra está mais propensa a ficar sozinha. Há um machismo, quando não há um racismo”, explica.

Xenia vaga por canções próprias e dos outros – “No Alto”, de Tiganá Santana, e “Respeitem os Meus Cabelos, Brancos”, de Chico César, têm versões arrebatadoras -, para mostrar quem é. Salta pelo jazz, hip-hop e o pop de Michael Jackson – sua maior inspiração, de quem tem os discos em vinil exibidos em um altar na casa onde mora. É o rosto dela na capa, seu nome estampado. Um disco sobre quem é Xenia. É sobre tantas outras Xenias. Com ou sem acento. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

XENIA FRANÇA

‘xenia’

Independente; R$ 25 e plataformas digitais

XENIA FRANÇA

Auditório Ibirapuera. Av. Pedro Álvares Cabral, s/nº, Parque do Ibirapuera, tel. 3629-1075. Dom. (15), às 19h. R$ 20.