Os Estados Unidos viviam há 50 anos a maior crise de suas instituições. No dia 8 de agosto de 1974, Richard Nixon se tornava o primeiro presidente do país a renunciar — e é o único até hoje. O motivo: o caso conhecido como Watergate, considerado um dos maiores escândalos políticos da história.
Pouco mais de dois anos antes, em 17 de junho de 1972, durante a campanha que levou o republicano à reeleição, cinco homens instruídos por funcionários da Casa Branca invadiam a sede do Comitê Nacional Democrata, no complexo de edifícios Watergate, em Washington, para instalar microfones e fotografar documentos sigilosos que pudessem incriminar oponentes de Nixon.
Frank Wills, um dos homens que faziam a vigilância do complexo, foi o responsável por frustrar os planos dos invasores. Ao diário de Watergate, mantido no Arquivo Nacional, Wills conta ter ficado intrigado com um pedaço de fita adesiva colado à porta. “Chamei a polícia para inspecionar”, conta.
Os policiais chegaram ao local em cerca de um minuto e meio, conta outro vigia que trabalhava no fatídico dia, John Barret, em um programa de televisão exibido em 2017.
Ao adentrarem o edifício, os policiais perceberam que não havia só uma fita colada a apenas uma porta. O fato aguçou o faro dos policiais, que fizeram uma varredura pelo prédio e encontraram escritórios de cabeça para baixo.
Os oficiais saíram em busca dos criminosos. John Barret, um deles, conta ter visto um braço. “Eu me assustei. Gritei algo como ‘Saia daí com as mãos para cima ou vou explodir sua cabeça’. Dez mãos se ergueram e começaram a sair”.
As mãos pertenciam a James McCord, Virgilio González, Frank Sturgis, Eugenio Martínez e Bernard Barker, que foram imediatamente presos.
Não se tratava de um crime normal. Os invasores “tinham microfones, muitas bobinas de filme, canetas de gás lacrimogêneo, ferramentas de serralheiro, milhares de dólares em notas de cem”, explicou Barret.
No dia seguinte, o jornal Washington Post publicou o primeiro artigo sobre o assunto. O texto era assinado por Alfred E. Lewis. Na lista de colaboradores, na parte inferior da nota, apareciam também os nomes de Bob Woodward e Carl Bernstein, dois jovens repórteres que posteriormente investigaram cada detalhe do episódio e ganharam o Prêmio Pulitzer.
Investigação e renúncia
A investigação dos repórteres do Washington Post descobriu que um dos homens presos pela polícia havia recebido 25 mil dólares da campanha de Nixon. Posteriormente, foi expresso que o Partido Republicano mantinha um caixa dois para pagar as ações de espionagem dos oponentes de Nixon.
Apesar do impacto midiático, dos fortes indícios criminosos e das investigações do FBI, Nixon foi reeleito contra George Stanley McGovern, com mais de 60% dos votos.
Dois anos após o episódio, em situação de pressão insustentável, Nixou renunciou ao cargo para que não sofresse impeachment. Gerald Ford, seu vice, assumiu a presidência do país no dia seguinte.
Por que Watergate?
Hoje em dia considerado um marco arquitetônico incluído no Registro Nacional de Locais Históricos dos EUA, um dos mais infames endereços do país recebeu esse nome por razões pragmáticas.
Após o término da construção, em 1971, o Complexo Watergate foi o primeiro projeto de uso misto em Washington. Situado às margens do rio Potomac, o edifício consiste em escritórios, um hotel e blocos residenciais. Em seu auge, era o endereço residencial favorito do meio político.
No livro Presidential Power on Trial: From Watergate to All the President’s Men (“Poder presidencial sob julgamento: De Watergate a ‘Todos os homens do presidente’”), o escritor William Noble escreve que o complexo de edifícios recebeu esse nome por estar próximo à comporta (“gate” ou “floodgate”, em inglês) que regulava o fluxo de água (“water”) do rio Potomac.
Hoje, o sufixo “gate” é utilizado para quaisquer eventos que gerem controvérsia ou rendam manchetes de jornal, sejam políticos ou simples frivolidades, em todo o mundo.
* Com informações da Deutsche Welle e AFP