Wagner Moura diz que personagens são sua forma de reagir ao mundo atual

Ator brasileiro falou à Variety após indicação histórica ao Oscar

Michael Tran / AFP
Wagner Moura na chegada ao Globo de Ouro Foto: Michael Tran / AFP

Indicado ao Oscar por O Agente Secreto, Wagner Moura afirmou em entrevista à revista Variety que tem encontrado nos personagens uma maneira de reagir ao momento político e social que o mundo atravessa. Para o ator, a arte e o cinema assumem um papel ainda mais relevante em tempos de polarização e crise democrática.

“Quando a arte e o cinema se elevam e criam uma ‘ficção’, isso pode ser algo mais importante do que a realidade. Porque você assiste a um filme, volta para casa e isso te faz pensar sobre ele. Estou cada vez mais interessado em me expressar através de personagens, em dizer o que preciso dizer através deles”, afirmou Moura.

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Segundo o ator, a dificuldade atual não está apenas no embate de ideias, mas na própria noção de verdade. “Os fatos não importam mais. Antes brigávamos, esquerda e direita, costumávamos discutir, mas brigávamos pela mesma coisa. Hoje em dia, não se trata de fatos. Trata-se de versões da verdade”, disse.

Vivendo há cerca de sete anos nos Estados Unidos com a esposa e os três filhos, Moura demonstrou preocupação com os efeitos desse cenário sobre a democracia. “A polarização é a maior ameaça à democracia. Muitas pessoas não são más; estão mal informadas. A tecnologia ajuda a ciência, mas destrói a vida cívica. A capacidade de atenção desapareceu. Os jovens estão deprimidos. A verdade parece ter acabado”, afirmou o ator, ao comentar suas expectativas para os próximos anos.

Em um segundo momento da entrevista, Moura comparou os contextos políticos do Brasil e dos Estados Unidos, citando os governos de Jair Bolsonaro e Donald Trump como exemplos de períodos que colocaram as instituições democráticas à prova. Ao falar sobre o Brasil, ele destacou a resposta após os ataques às instituições. “O Brasil foi rápido em fazer a coisa certa e mandar a mensagem de que não se pode mexer com a democracia. Nós prendemos pessoas. Bolsonaro está preso”, declarou.

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Sobre os Estados Unidos, o ator avaliou que o país ainda hesita em estabelecer limites claros. “Nos Estados Unidos, é como se eles estivessem testando os limites, como uma criança. Se não houver reação, o que acontece? Sinto que os EUA e suas instituições não estão respondendo com a firmeza necessária”, disse, ao mencionar o ambiente político associado à era Trump.

Para Moura, a ausência de uma vivência histórica com regimes autoritários contribui para essa postura. “Vocês nunca tiveram a experiência de viver sob uma ditadura. Vocês não sabem o que é isso, como se sente ou o quão ruim é. Acontece aos poucos. E se você não reage às pequenas coisas, é aí que elas tomam conta”, alertou.