Voto dos Verdes com ultradireita acirra crise sobre acordo Mercosul-UE

Voto dos Verdes com ultradireita acirra crise sobre acordo Mercosul-UE

"ParlamentoEurodeputados alemães do partido de esquerda são criticados por apoiar a judicialização do tratado no Parlamento Europeu ao lado de siglas da ultradireita.A votação do Parlamento Europeu que levou o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia (UE) aos tribunais e travou sua implementação continua a gerar tensão entre as bancadas do bloco. Na Alemanha, o Partido Verde está sob pressão por ter sido decisivo para alcançar os votos necessários à aprovação da medida, que também contou com apoio de grupos de ultradireita, incluindo membros da Alternativa para a Alemanha (AfD).

Em 21 de janeiro, após a assinatura do acordo em Assunção, no Paraguai, 334 eurodeputados votaram pela submissão dos dispositivos ao Tribunal de Justiça da União Europeia (TJUE) para análise. O placar foi apertado, com 324 votos contra e 11 abstenções.

A pequena margem poderia ter sido revertida se o grupo parlamentar dos Verdes tivesse rejeitado o atraso na implementação da zona de livre comércio com o Mercosul: 36 de seus membros votaram a favor, oito deles oriundos do Partido Verde alemão.

Com uma economia voltada à exportação, a Alemanha é uma das principais interessadas no acordo. O texto prevê, por exemplo, a eliminação gradual de tarifas de importação para produtos industrializados, como veículos e maquinários, além de medicamentos, que figuram entre as principais exportações do país europeu ao Mercosul.

Em coletiva de imprensa em Berlim, a copresidente do Partido Verde alemão, Franziska Brantner, minimizou o impacto da votação, reforçando que o acordo poderá entrar em vigor de forma provisória assim que um país do Mercosul o ratificar. Ela havia trabalhado pela aprovação imediata dos dispositivos, mas foi voto vencido entre os colegas do partido no Parlamento Europeu.

Voto contra acordo divide o partido

A principal crítica interna recai no fato de que os votos dos Verdes figuram lado a lado com parlamentares da ultradireita alemã e europeia. Votaram pela judicialização do acordo, por exemplo, oito eurodeputados filiados à AfD. No Parlamento Europeu, eles compõem o grupo parlamentar Europa das Nações Soberanas.

Também apoiaram a proposta o Patriotas pela Europa, que agrega outras siglas da ultradireita europeia, como o Chega, de Portugal, e o Fidesz, da Hungria.

Na Alemanha, porém, os Verdes são críticos vocais de acordos parlamentares que incluam a ultradireita. A sigla contestou quando a União Democrata Cristã (CDU), do chanceler federal alemão Friedrich Merz, recebeu o apoio da AfD para passar uma moção anti-imigração no Bundestag, o parlamento da Alemanha.

À época, os Verdes defenderam que o "cordão sanitário", que impede a cooperação com a ultradireita, deveria ser mantido, algo que, para opositores do partido, foi agora descumprido no Parlamento Europeu. Críticos dentro da própria sigla também acusam a liderança do partido em Berlim de não ter coordenado a questão com os eurodeputados em Bruxelas.

A decisão de submeter o acordo à apreciação da Justiça europeia foi tomada como "desmedida" pelo ex-ministro do Meio Ambiente do Partido Verde, Jürgen Trittin. Já o colíder do partido, Felix Banaszak, afirmou à rádio Deutschlandfunk que o sinal "mais adequado" que os colegas deveriam ter dado teria sido o da "determinação europeia", o que não ocorreu.

"Duro revés para o acordo"

O secretário parlamentar do governista Partido Social-Democrata (SPD) no Bundestag, Dirk Wiese, tomou a votação como "politicamente estúpida" e "sem instinto".

Já o ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Johann Wadephul, da CDU, também criticou os Verdes, que fazem oposição ao governo. "Quem fala em 'cordão sanitário' deve cumprir essas exigências. Os Verdes no Parlamento Europeu falharam nisso esta semana", disse ele à rádio Deutschlandfunk.

"Outros países, como a Índia , estão muito atentos para ver se somos capazes de negociar acordos desse tipo e, em seguida, implementá-los politicamente em todas as instituições", continuou. A votação no Parlamento Europeu foi um duro revés para o acordo, disse o ministro das Relações Exteriores.

Este também foi o tom das críticas do presidente do grupo conservador Partido Popular Europeu (PPE) no Parlamento Europeu, Manfred Weber, que é filiado à União Social Cristã (CSU) na Alemanha. Segundo a ARD, ele disse que o voto contra o acordo fere os interesses econômicos alemães, além de se tratar de uma "aliança profana". Contudo, diversos políticos de outros países, membros do PPE, também votaram pelo adiamento do tratado.

Verdes no parlamento alemão defendem ratificação

O Partido Verde critica o acordo com o Mercosul desde o início das negociações. Grupos ambientalistas argumentam que os dispositivos não possuem medidas exequíveis de proteção ambiental e que o aumento do comércio levaria a um aumento do desmatamento. Agricultores europeus afirmam que os produtos sul-americanos seguem regras mais flexíveis sobre trabalho, pesticidas e bem-estar animal.

Muitos membros do partido continuam céticos, mas a líder dos Verdes no Bundestag, Britta Hasselmann, defende a abertura comercial ao Mercosul, especialmente como forma de combater o crescente nacionalismo. "É relevante para a Europa, e também para a Alemanha, fazer isso. Para deixar claro que, como europeus, somos capazes de estabelecer acordos comerciais justos com outros países", afirmou.

Erik Marquardt, chefe da delegação do Partido Verde alemão no Parlamento Europeu, votou a favor da revisão jurídica, mas lamentou que a maioria tenha sido alcançada com o apoio da ultradireita. "Vamos considerar cuidadosamente como podemos evitar que algo assim aconteça no futuro", disse ele em entrevista à rede alemã ARD.

Marquardt argumentou que a votação não minou o acordo em si, apenas pedia esclarecimento sobre questões jurídicas complexas.

A liderança do partido na Alemanha agora se comprometeu a acelerar novos acordos comerciais, como a chamada Parceria Transpacífica, que inclui a Austrália, o Japão, o Canadá, o México e vários países do Sudeste Asiático.