A Polícia Federal (PF) investiga um voo fretado pelo empresário Fernando Oliveira Lima, conhecido como “Fernandin OIG”, sob suspeita de descaminho ou contrabando devido à entrada irregular de bagagens no Brasil. A aeronave transportava quatro parlamentares federais, um ex-assessor com histórico de investigações e um empreiteiro ligado à Operação Lava Jato, gerando controvérsia. O voo, ocorrido em abril de 2025, partiu de São Martinho, no Caribe, e pousou em São Roque (SP), com o inquérito já remetido ao Supremo Tribunal Federal (STF) devido à presença de autoridades com foro privilegiado.
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O que aconteceu
- Voo fretado por empresário do setor de bets, Fernando Oliveira Lima, é alvo de investigação da Polícia Federal por suspeita de descaminho.
- Quatro parlamentares federais – incluindo o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e o senador Ciro Nogueira (PP-PI) – estavam a bordo, o que levou o caso ao STF.
- Um ex-assessor de Ciro Nogueira e um empreiteiro da Lava Jato também figuravam na lista de passageiros, aumentando o escrutínio sobre a viagem.
A PF ainda não identificou o dono das bagagens que foram transportadas por fora do raio-X, com indícios de prevaricação por parte de um auditor da Receita Federal. O voo que se tornou alvo de inquérito, remetido ao Supremo Tribunal Federal (STF), contava com a presença do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), do senador Ciro Nogueira (PP-PI), e dos deputados Doutor Luizinho (PP-RJ) e Isnaldo Bulhões (MDB-AL).
Motta afirmou, por meio de nota, que “cumpriu todos os protocolos e determinações estabelecidas na legislação aduaneira” e aguarda a manifestação da Procuradoria-Geral da República (PGR). Os demais parlamentares foram procurados pela reportagem, mas não se manifestaram até o momento. O espaço segue aberto para seus posicionamentos.
Os parlamentares viajaram acompanhados de cônjuges. Além deles, outros nomes relevantes estavam na lista de passageiros, como Victor Linhares de Paiva, ex-assessor parlamentar de Ciro Nogueira. Paiva foi alvo de busca e apreensão em um desdobramento da Operação Carbono Oculto, deflagrada no Piauí.
Quem estava no voo do empresário?
Victor de Paiva trabalhou como assessor parlamentar de Ciro Nogueira, no Senado, entre abril de 2018 e junho de 2020, ocupando cargos tanto no gabinete pessoal quanto na liderança do partido, função exercida pelo senador piauiense. Filiado ao PP de Ciro Nogueira desde 2008, Paiva foi eleito vereador de Teresina em 2024. No início do ano seguinte, foi nomeado secretário de Articulação Institucional na gestão do então prefeito Silvio Mendes (União). Seu currículo inclui também um período como funcionário da Codevasf, a “estatal do Centrão”. Em março de 2025, ele anunciou sua filiação ao União Brasil, articulada por Antonio Rueda, presidente do partido.
Paiva foi apontado como destinatário de R$ 230 mil enviados por um dono de rede de postos de combustíveis que supostamente teriam relação com o PCC, o que motivou a busca e apreensão contra ele. Adicionalmente, uma reportagem publicada pela revista piauí em julho afirmou que ele recebeu, entre dezembro de 2023 e setembro de 2024, R$ 625 mil de Fernando Oliveira Lima, dono da aeronave investigada.
Fernando Oliveira Lima é conhecido como “Fernandin OIG”, sigla de sua empresa. Segundo a PF, o grupo representa as plataformas 7Games, Betão e R7.BET. Ele estava presente no voo com os parlamentares, que ocorreu em abril de 2025, período em que a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) das Bets estava ativa no Senado, com a participação de Ciro Nogueira.
O que dizem os envolvidos?
Procurado, Victor de Paiva não respondeu aos contatos da reportagem. Já Fernando Oliveira Lima afirmou que a bagagem transportada pertencia ao comandante do voo. “Recebi a notícia e a imagem e liguei para o comandante Jorge, o mesmo falou que se trata de itens pessoais dele e que o desembarque seguiu todo o processo normal”, disse o empresário.
Outro nome na lista de passageiros é o empreiteiro Fernando Cavendish, que foi preso pela Lava Jato do Rio e fez uma delação premiada confessando pagamento de propina ao ex-governador Sergio Cabral e outros políticos. O Estadão fez contato com Cavendish, mas ele não havia dado um retorno até a publicação deste texto. O espaço segue aberto para sua manifestação.
Como a Polícia Federal descobriu?
O voo saiu da ilha de São Martinho, um paraíso fiscal do Caribe, e pousou na noite de 20 de abril do ano passado no aeroporto de Catarina, em São Roque (SP), utilizado para aviação executiva. As suspeitas da PF surgiram a partir de uma investigação sobre a corrupção de um auditor fiscal, Marco Canella, que foi indiciado em outro inquérito por facilitação de contrabando ou descaminho. Canella foi procurado, mas também não se posicionou.
No caso específico do voo com os parlamentares, Canella permitiu que um funcionário do empresário desembarcasse no aeroporto e passasse com sete volumes de bagagem por fora do raio-X. Este procedimento foi registrado pelas câmeras de segurança do local.
Segundo a Polícia Federal, em todos os voos fiscalizados por Canella naquele dia, o auditor verificou todas as bagagens de todos os passageiros. A única exceção foi com as malas do piloto de “Fernandin OIG”. A investigação narra ainda que, somente durante o desembarque do voo do empresário do setor de bets, o auditor fez uso frequente do celular. Canella chegou a ser questionado pela operadora de raio-X, mas gesticulou com as mãos, “expressando banalidade e irrelevância”.
Ainda não foram identificados os donos das bagagens que passaram ilegalmente pelo raio-X. Como o voo era proveniente de um paraíso fiscal e o auditor já havia sido indiciado por crimes de facilitação ao contrabando e descaminho, a PF suspeita que o conteúdo das bagagens possa ser ilegal.
Da IstoÉ.