Edição nº2603 14/11 Ver edições anteriores

Você entende a inovação?

Só há três tipos de inovação corporativa e todos eles têm nome de avião: Enola Gay, Concorde e Embraer. Mas de todos estes, só há um que funciona. É o mais discreto.
Aquilo que há muito pouco tempo era uma excentricidade— a existência de startups — transformou-se na moeda franca do desenvolvimento econômico. Quem não é, não tem, não viu e não fala com startups não é moderno nem vai ter sucesso. Inovar “is the new black.”

Só que o mundo dos negócios não começou com startups. É uma história antiga que dura há um século e meio, desde que começou a revolução industrial. O futuro não começou logo com founders & CEO, CTO, COO, CFO, CPO, BLABLAO. Começou com engenheiros, advogados e economistas e perdurou assim durante muitas décadas, até a globalização ter trazido a internet para acabar com o espaço e o tempo como a gente os conhecia antes.

Então tudo mudou. Empresa que não tem departamento de inovação é pé de chinelo. Diretor corporativo que não participe de um Summit está fora. Contra o passado corporativo, inovar, inovar, inovar é a nova palavra de ordem.

Resistir à mudança é uma das mais tenazes características
do ser humano e os processos de inovação são o maior fator
de perturbação nas relações de trabalho

Só que, como Roma e Pavia que não se fizeram num dia, também a inovação não entrou fácil nas empresas. Como resistir à mudança é uma das mais tenazes caraterísticas do ser humano, os processos de inovação são também o maior fator de perturbação nas relações de trabalho. O que acontece por uma razão simples: ninguém explicou de forma clara aos engenheiros, advogados, economistas ou aos CEOCTOBLABLAOS que para saber de inovação era preciso saber de avião.

A inovação mais simples e mais mortífera é a Enola Gay, nome do avião que lançou a primeira bomba atômica em Hiroshima. O modelo é fácil de entender: você destrói tudo e faz de novo. Funcionou no Japão, mas a mortandade foi geral. Na inovação tipo Enola Gay não é preciso falar com ninguém. Ganha-se tempo, mas se perde conhecimento.

Outro tipo é a inovação Concorde — aquele avião supersônico que levava você até a Europa em menos de 3 horas — era simultaneamente o orgulho de uma nação e motivo constante de celebração. Nunca até hoje houve um avião tão inovador. Mas, em 24 de outubro de 2003, 36 anos depois do primeiro voo, foi cancelado. Não era lucrativo mantê-lo. A inovação Concorde é bela, funciona, mas como é só para os ricos fica insustentável.

O último tipo de inovação é como um Embraer. Tem menos de 100 lugares. É mundialmente competitivo e desenvolvido no Brasil. Tem boa imagem e resolve muitos problemas para muitas pessoas. É a inovação mais eficaz.


Sobre o autor

José Manuel Diogo é autor, colunista, empreendedor e key note speaker; especialista internacional em media intelligence,  gestão de informações, comunicação estratégica e lobby. Diretor do Global Media Group e membro do Observatório Político Português e da Câmara de Comércio e Indústria Luso Brasileira. Colunista regular na imprensa portuguesa há mais de 15 anos, mantém coluna no Jornal de Notícias e no Diário de Coimbra. É ainda autor do blog espumadosdias.com. Pai de dois filhos, vive sempre com um pé em cada lado do oceano Atlântico, entre São Paulo e Lisboa, Luanda, Londres e Amsterdã.


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