O ex-presidente peruano Martín Vizcarra reiterou sua inocência diante das denúncias de corrupção e prometeu que não deixará o país, durante audiência nesta quinta-feira (18) perante uma juíza que nas próximas horas deverá decidir se o condena a 18 meses de prisão preventiva.
A juíza María de los Ángeles Álvarez decidirá antes do final do dia o destino de Vizcarra, a quem a promotoria está investigando por supostamente receber propina quando era governador da região sul de Moquegua em 2014.
“Espero que a senhora juíza resolva este caso com autonomia e independência, longe de pressões políticas e de avalanches midiáticas, pediu o ex-presidente (2018-2020) de sua casa no segundo dia da audiência, realizada por videoconferência.
“Não vou deixar do país, não vou pedir asilo político. Estou aqui para responder e dar esclarecimentos sem medo, porque não cometi nenhum crime”, acrescentou Vizcarra.
Seu pronunciamento deu um fim a cinco horas de debate e a audiência foi suspensa até que a juíza anuncie sua decisão.
Anteriormente, o promotor Germán Juárez havia reiterado seu pedido de prisão de Vizcarra, alegando que há risco de fuga e obstrução da investigação.
Se o juiz aceitar o pedido do procurador Juárez, Vizcarra poderá se tornar o segundo ex-presidente do país em prisão preventiva, depois de seu antecessor, Pedro Pablo Kuczynski (2016-2018), de quem foi vice-presidente.
Vizcarra é acusado de receber propina de empresas em troca da vitória nas licitações para a construção de duas obras públicas quando era governador de Moquegua (2011-2014). Juárez estimou que uma eventual condenação do ex-presidente “não seria inferior a 33 anos” de prisão. Vizcarra nega as acusações.
Os valores dos supostos subornos chegariam a US$ 621.000, de acordo com a imprensa local.
O destino de Vizcarra, de 57 anos, está nas mãos da mesma juíza da Primeira Vara de Instrução Preparatória de crimes de corrupção de funcionários que emitiu medida cautelar em novembro impedindo-o de deixar o país até maio de 2022.
Por este caso, o Congresso o destituiu em 9 de novembro em um julgamento relâmpago de impeachment, que gerou protestos violentos que deixaram dois mortos e uma grande crise institucional em meio a uma pandemia. No período de 10 dias, o Peru teve três presidentes.
Na semana passada, o Ministério Público pediu a prisão preventiva de Vizcarra por 18 meses, enquanto avança a investigação iniciada em outubro passado.
– Não pedirá asilo –
O ex-presidente negou afirmações da promotoria de que busca asilo na Bolívia e garante ter sido vítima de uma tentativa de retirá-lo da disputa eleitoral no momento em que concorre a uma cadeira legislativa nas eleições de 11 de abril.
A promotoria apoia a tese de que Vizcarra planeja fugir para a Bolívia porque conhece o presidente Luis Arce desde a época em que era governador em Moquegua e o líder boliviano era ministro de Evo Morales.
“Para uma prisão preventiva deve haver risco de fuga. Se meus documentos estão em poder da promotoria, os passaportes estão na posse da promotoria, eu tenho embasamento. Qual prova disso pode ser maior do que o fato de que estou concorrendo ao Congresso?”, respondeu Vizcarra.
O ex-presidente, muito popular em seu governo por ter lançado uma cruzada contra a corrupção, um dos males do Peru, é apenas o mais recente dos líderes políticos do país envolvidos em problemas jurídicos.
Kuczynski, 82, está sob custódia há 36 meses em sua casa desde abril de 2019 por envolvimento no escândalo de corrupção da Odebrecht.
o MP também investiga os ex-presidentes Alejandro Toledo (2001-2006), Ollanta Humala (2011-2016) e Alan García (1985-1990 e 2006-2011) no caso Odebrecht. Este último suicidou-se em 2019.
Alberto Fujimori, 82, que governou de 1990 a 2000, é o único ex-presidente peruano condenado. Ele cumpre pena de 25 anos por crimes contra a humanidade durante a guerra contra o grupo terrorista Sendero Luminoso.