Entrevista

Claudia Costin, Educadora e gestora pública

Vivemos um retrocesso civilizatório

Edilson Dantas

Vivemos um retrocesso civilizatório

Vicente Vilardaga
Edição 30/04/2021 - nº 2676

A educadora e gestora pública Claudia Costin, 63 anos, observa com atenção a crise da educação no Brasil e também a guerra ideológica promovida pelo governo de Jair Bolsonaro. Se já era séria antes da pandemia, principalmente por conta do déficit de aprendizagem e de uma profunda desigualdade no ensino, a crise agora se agravou e vem acompanhada do negacionismo e da rejeição ao conhecimento. Sem o comando estratégico do Ministério da Educação (MEC), o ensino só não está sendo abandonado por conta do grande esforço de estados e municípios. “O problema não é só a educação das futuras gerações, mas também de uma sociedade que não quer ter contato com o saber, com a ciência”, disse Claudia à ISTOÉ. “O Brasil precisa romper com essa lógica de negação da inteligência.” Atualmente, diretora do Centro de Políticas Educacionais (CEIPE), da FGV, ela foi ministra da Administração e Reforma do Estado durante o governo Fernando Henrique Cardoso e também esteve à frente da Secretaria de Cultura de São Paulo no governo de Geraldo Alckmin. “Vivemos tempos em que há mais interesse em se fazer a guerra ideológica que pensar políticas públicas e resolver problemas que afetam as diversas áreas de atuação do Estado”.

Que tipo de consequência essa longa interrupção das aulas nas escolas brasileiras pode trazer?
Infelizmente é muito triste o que está acontecendo, é uma pandemia que traz crise sanitária importante, com perdas de vida e com muita gente adoecendo, e há também uma crise econômica, com muita gente perdendo sua fonte de renda. E existe crise educacional, sem dúvida. Para quem fantasiava que homeschooling era a solução para os problemas educacionais brasileiros, ficou muito claro que não é dessa forma que se pode garantir aprendizado a crianças e jovens. A aula presencial, especialmente na educação básica, é fundamental.

A educação à distância não resolve?
Ensinar à distância não é impossível. Evidentemente houve um processo de mitigação de danos com o fato dos jovens estarem distantes das escolas, de tentar aprender um pouco, de não ter tanta perda de aprendizagem, como teria sido o caso se a gente tivesse cedido a uma narrativa paralisante que dizia que, se nem todos tem conectividade, não vamos fazer nada. Ainda bem que 82% dos municípios montaram alguma estratégia de dar aulas à distância, seja na forma de plataformas digitais, televisão, rádio foi muito usado, cadernos impressos enviados para as casas das crianças, e isso em todos os estados. As redes estaduais fizeram alguma coisa, mas é evidente que isso não substitui a escola presencial.

Esse tempo pode ser recuperado?
Não vou subestimar as perdas, mas em educação tudo é recuperável. Vai levar muito tempo e vai trazer danos para essas crianças e jovens. Vamos ter um risco enorme de abandono escolar, as pesquisas já vêm mostrando isso, e, se quisermos reerguer a educação brasileira, precisaremos fazer busca ativa desses jovens que se desengajaram da escola, caso contrário eles não terão futuro.

A pandemia expôs questões que estavam mascaradas?
A pandemia iluminou problemas que a gente vivia e que talvez não estivessem tão claros para todos, como a crise de aprendizagem e as profundas desigualdades educacionais. O Pisa, teste internacional de qualidade na educação, mostra que o Brasil é a segunda economia mais desigual do ponto de vista educacional entre as 79 que participaram do levantamento. E isso é pré-pandemia. Imagine um ano inteiro dentro de casa, uns com livros e pais com repertório cultural diversificado e outros acumulados num cômodo inadequado para aprender sem conectividade. É bem desigual. E vai aprofundar a desigualdade de uma maneira extrema.

A senhora acha que um novo normal irá se impor?
Vamos viver uma transformação profunda da educação. Em primeiro lugar, porque ficou claro que a conectividade é importante. A União Europeia, por exemplo, criou um processo para desenvolver competências digitais. O próprio Brasil já tinha posto a competência digital como a de número 5 na Base Nacional Curricular, como um fator essencial para o século 21. E com tudo o que aconteceu houve um número muito grande de professores que aprenderam a dar aulas de outras maneiras. Não vou dizer que são perfeitas ou que o mundo digital vai fazer desaparecer o mundo presencial. O que vai haver é um híbrido de ensino digital com presencial, mas não é qualquer híbrido.

Qual é, então, esse híbrido?
A gente vai aprender como construir algo que funcione nesses tempos em que a inteligência artificial está substituindo o trabalho humano numa velocidade que não tem precedentes na história, inclusive o trabalho humano que demanda competências intelectuais. O mundo do trabalho vai ser mudado frente à chamada 4ª Revolução Industrial. E o que vai mudar na educação não é só a tecnologia. Se os robôs vão nos substituir, temos de trabalhar cada vez mais com os alunos competências e habilidades que os robôs não poderão desenvolver, pelo menos em curto prazo, como a solução colaborativa de problemas com criatividade ou o pensamento crítico. Estamos caminhando para o aprendizado baseado em projetos e na solução de problemas.

Isso exige um atendimento personalizado do aluno?
Há pesquisadores em educação que mostram que a inteligência não é dado, os talentos não são dados fixos. Você pode — e esse é o papel da educação — desenvolver muito mais os talentos do que a gente imaginava há alguns anos. Nós vamos ter de olhar para cada criança e aprender a trabalhar com a aprendizagem de cada uma individualmente. Uma das coisas interessantes que esse período da pandemia nos trouxe foi gerar — já que o processo de ensino está acontecendo em plataformas digitais — dados de aprendizagem. Existem agora as plataformas adaptativas. Você consegue identificar as insuficiências de aprendizagem do aluno e dirigi-lo para a aula digital para completar o aprendizado. Isso permite a personalização do processo de ensino

Estamos em um momento de encolhimento das políticas públicas. Isso não agrava a situação?
Acho que é bastante grave o que estamos vivendo. Por um lado, vivemos tempos em que há mais interesse em se fazer a guerra ideológica do que pensar políticas públicas e resolver problemas que afetam as diversas áreas de atuação do Estado. Na saúde tivemos problemas logísticos terríveis, devido a uma operação inadequada e marcada pela questão ideológica. Na educação, durante a maior parte da pandemia, tivemos um ministro em guerra com a universidade, achando que essa era a principal forma de atuação dele, o Abraham Weintraub. Como sou otimista, nasci com esse defeito de fabricação, espero que ainda se consiga voltar a olhar para as urgências de aprendizagem no Brasil e que se possa pensar num sistema nacional de educação, integrado aos governos federal, estaduais e municipais. As coisas só não ficaram piores porque os governos estaduais e municipais trabalharam muito.

O MEC abriu mão de qualquer papel estratégico e insiste em homeschooling. O que a senhora acha dessa prática?
Não acho errado existir homeschooling. O que está errado, em um momento como o atual, é o governo achar que é uma agenda importante. O homeschooling resolve a situação de uma parcela pequena da sociedade. Temos questões graves na educação e esse seria um dos últimos problemas na lista de prioridades.

E as escolas cívico-militares têm futuro?
Acho uma resposta errada para um problema real. É verdade que em escolas que atendem adolescentes há problemas sérios de disciplina. Isso tem a ver com a mudança no padrão de autoridade e com as características próprias da faixa etária. Mas a resposta para a questão da disciplina não é transformar os jovens em robôs. Se nós vamos competir com robôs no futuro, a última coisa que a gente quer é formar nossos jovens para serem iguais. A melhor resposta está no que eu vi em Pernambuco, nas escolas de tempo integral.

Por exemplo…
Inspirados num educador brasileiro já falecido, Antonio Carlos Gomes da Costa, os educadores do estado fizeram Pernambuco saltar de penúltimo lugar no ensino médio, no ranking do Ideb, que é o índice de qualidade da educação, para terceiro lugar, tendo um nível sócio-econômico muito mais baixo que São Paulo ou Rio. Eles trabalham o protagonismo do aluno, ensinam que ele é portador de sonhos e que seus sonhos de futuro precisam ser traduzidos em projetos de vida. Isso é mais importante que ensinar disciplina militar.

Nossa cultura está sendo ultrajada?
Eu considero que a cultura fala um pouco da alma de uma sociedade. Você tem de um lado a indústria do entretenimento, que gera empregos e bem-estar social, e você tem o acesso ao saber não mediado por uma instituição educacional, que é a questão, por exemplo, do acesso ao livro. Dentro da guerra ideológica, alguém ousou dizer que deveríamos pagar impostos adicionais sobre livros, porque só rico consome. Para mim, isso é uma coisa assustadora. É como se decidíssemos ser um país menos civilizado. O problema não é só a educação das futuras gerações, mas também de uma sociedade que não quer ter contato com o saber, com a ciência. O Brasil precisa romper com essa lógica de negação da inteligência. Quem vai contra a cultura, a ciência e a educação luta contra o processo civilizatório. Diria que há regressão, um retrocesso nesse processo que levamos anos para construir. Agora estamos endeusando o oposto.

E como a senhora analisa a situação da mulher no Brasil, diante da misoginia de Jair Bolsonaro e da posição conservadora da ministra Damares Alves?
Evidentemente a pandemia cobrou um preço desproporcional das mulheres, que tiveram mais dificuldade para voltar a trabalhar porque as escolas estavam fechadas. Isso trouxe um prejuízo à inserção progressiva da mulher no mercado de trabalho em postos um pouco mais elevados. Nós tivemos a questão do discurso: tenho uma teoria que diz que ato de fala também é ato, o que eu falo conta, o discurso mobiliza. E o discurso para colocar a mulher em um lugar secundário ganhou espaço dentro desse governo. E a falsa pretensão, ao se adotar esse discurso, foi a de a mulher voltar a ter respeitabilidade, desde que exerça a função de rainha do lar. Só assim seria respeitada e admirada. A mulher profissional passou a ter uma percepção mais negativa e suas escolhas ficarão prejudicadas, como se ela precisasse de um guia, de um guardião que irá definir suas escolhas por ela.

Copyright © 2021 - Editora Três
Todos os direitos reservados.

Nota de esclarecimento A Três Comércio de Publicaçõs Ltda. (EDITORA TRÊS) vem informar aos seus consumidores que não realiza cobranças por telefone e que também não oferece cancelamento do contrato de assinatura de revistas mediante o pagamento de qualquer valor. Tampouco autoriza terceiros a fazê-lo. A Editora Três é vítima e não se responsabiliza por tais mensagens e cobranças, informando aos seus clientes que todas as medidas cabíveis foram tomadas, inclusive criminais, para apuração das responsabilidades.