Entrevista

Gonzalo Vecina Neto, Médico Sanitarista

Vivemos um caos sanitário pela inação de Bolsonaro

Marco Ankosqui

Vivemos um caos sanitário pela inação de Bolsonaro

Fernando Lavieri
Edição 08/01/2021 - nº 2660

O professor da faculdade de Saúde Pública da USP, Gonzalo Vecina Neto, de 65 anos, é um homem dedicado a salvar vidas. Médico sanitarista, ele esteve à frente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) de 1999 a 2003 e conhece suas engrenagens por dentro. Hoje, é um crítico contumaz do governo Jair Bolsonaro, que considera um desastre absoluto. Para ele há uma simbiose macabra entre a inépcia do governo e a propagação descontrolada do coronavírus e essa combinação está colocando o Brasil numa situação de caos. Ele percebe que assim como o Ministério da Saúde, o comando a Anvisa foi afetado pela politização negacionista de Bolsonaro e isso contribuiu para que o País alcançasse a terrível marca de 200 mil mortes. “Foi um desastre sanitário provocado pela inação do presidente da República. Não há meias palavras para se dizer isso. E esse desastre sanitário significa responsabilização por mortes que seriam evitáveis”, afirma Vecina. “Se tivéssemos valorizado o distanciamento social, o uso de máscaras, o não uso de medicamentos ineficazes contra a doença, e agido rápido na busca pela vacina, a situação estaria muito melhor”.

O Brasil voltou a apresentar números em torno de mil mortes diárias. Por que a situação não melhora?
Não podemos esquecer que só conseguimos reagir a essa epidemia quando a grande maioria do comércio não essencial estava fechado. Isso fez com que a movimentação de pessoas fosse muito pequena, o que garantiu a queda do número de casos. Esse índice não caiu por um gesto mágico. O número caiu porque diminuímos os encontros entre as pessoas. Hoje não existe comércio fechado e há muita gente na rua. Não tem milagre: enquanto não tivermos vacina, sair de casa significa elevar o número de casos e de óbitos.

Entramos numa segunda onda?
Não existe esse negócio de primeira e segunda onda. No momento estamos nos referindo ao mesmo vírus. Ele está sofrendo mutações como as registradas na Inglaterra e que já foram confirmadas aqui no Brasil, mas precisamos ver como essa mutação evoluirá. A doença teve um pico importante por volta de abril, maio, e depois houve uma queda. Essa queda chegou aos 30%, mas em seguida voltou a subir porque tivemos a desmobilização social. A alta coincide com esse relaxamento. Então, na verdade, nós não temos uma segunda onda. Temos um recrudescimento, uma piora da primeira onda.

O plano nacional de vacinação do governo é adequado?
No primeiro plano feito, o governo retirou do público prioritário os presidiários, quilombolas, populações de rua e ribeirinhos e manteve apenas a população indígena. Depois o plano foi refeito e esses grupos foram incluídos. A estratégia está baseada nos planos europeus, onde os países não têm a mesma desigualdade como a nossa. No Brasil, os pobres é que estão morrendo. O plano correto teria que dar prioridade aos profissionais de saúde, e depois, aos mais pobres, como os que recebem o Bolsa Família, por exemplo.


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O governo conseguirá bancar o custo da vacinação?
O dinheiro não é problema. Se fossemos imunizar a maioria da população, teríamos que vacinar pelo menos 160 milhões de brasileiros. Se considerarmos cada dose a dez dólares, estamos falando de algo em torno de R$ 8 bilhões. O Sistema Único de Saúde (SUS) consumiu no ano passado cerca de R$ 270 bilhões. Então, o problema não é falta de recursos. É falta de vacina. Para este ano, temos 140 milhões de doses da vacina da AstraZeneca e mais 140 milhões de doses da Coronavac. Uma parte já vem pronta, quarenta milhões de doses, a outra parte será envasada aqui. Perto de 100 milhões de doses deverão ser fabricadas no segundo semestre, após a transferência de tecnologia para o Brasil. Mas o que temos hoje, de forma concreta, não será suficiente para atender todo mundo.

Há outras opções de vacinas?
Existe um esforço internacional, mas não há vacina excedente para mandar para o Brasil. A Organização Mundial de Saúde (OMS) não conseguirá nos ajudar. As fábricas que conseguiram produzir, já venderam tudo. Se não fosse o Butantan e a Fiocruz, nós estaríamos na rua da amargura.

Como assim?
O governo não tem uma política de produção de imunobiológicos. A Fiocruz e o Butantan, que são os principais produtores e compradores de vacina no Brasil, estão fazendo tudo sozinhos. São esses órgãos que foram atrás dos acordos com fabricantes para fazer testes clínicos no País e levaram as propostas ao Ministério da Saúde, que as aprovou, mas o presidente Jair Bolsonaro tem feito de tudo para atrapalhar. A Fiocruz e o Butantan têm reconhecimento internacional e as empresas lá fora sabem da sua capacidade. Como no Brasil a doença está matando mais, seria adequado fazer os testes aqui, como está acontecendo.

Qual é a dificuldade para a Anvisa aprovar uma vacina?
A Anvisa, como todas as agências reguladoras, recebe pedidos para fazer testes no País. Aprovados os testes clínicos, ai se requer o registro e a agência aceita ou não o registro. Depois, quem pretende comercializar o produto vai ao Ministério da Saúde e diz que tem vacina para vender. No caso da produção de vacina contra a Covid-19 as coisas aconteceram no atropelo. Os diretores da Anvisa, especialmente seu presidente, são influenciados pelo negacionismo de Bolsonaro.

Ele perturba o processo de aquisição de vacinas?
O presidente pediu ao ministro Pazuello que voltasse atrás no apoio que o Ministério da Saúde daria à produção da Coronavac. Mas aí, surgiu essa briga entre o presidente e o governador de São Paulo, culminando com a história do sujeito que morreu durante os testes, levando o presidente a dizer que tinha ganhado mais uma. Bolsonaro tripudia da vida dos brasileiros. Isso é muito grave. O Butantan precisa do dinheiro do Ministério para fabricar as vacinas. É o governo federal que custeia o Sistema Único de Saúde. Não é o governo do estado.

E se o ministério resolver não financiar essas compras?
No limite, o governo do Estado pode pagar, mas nesse caso só os paulistas seriam beneficiados. Seria um desastre. Espero que isso não aconteça dessa forma. Ter vacina em São Paulo, mas não ter no resto do País, é inadmissível. Espero que o governo federal volte atrás e aceite que a Coronavac esteja presente no Plano Nacional de Imunização.

Qual é a vacina mais adequada para o Brasil?
A mais adequada é aquela que estiver pronta. O que a vacina tem de ter? São seguras? Sim, todas são. Tem de ter eficácia e capacidade de produzir anticorpos. As vacinas que estão sendo testadas são a de RNA mensageiro, da Pfizer/BioNTech, a de vetor viral, que é a da Janssen, a russa, e a da AstraZeneca. Todas estão demonstrando grande capacidade de produção de anticorpos e uma taxa de eficácia em torno de 70%. A Coronavac ainda não apresentou o resultado dos estudos de fase 3, mas ,até agora, o que sabemos é que ela está em torno de 70% também. Então, qual é a melhor vacina? A de RNA mensageiro. Em segundo lugar estão empatadas a de vetor viral com a de vírus inativado.

O que o senhor acha da exigência das pessoas assinarem um termo de responsabilidade para serem vacinadas?
É terrível. Ele fez isso para nos deixar bravos. É sacanagem.

E sobre a possibilidade de uma vacinação privada?
A venda de vacina durante uma pandemia é imoral. Será criada uma fila paralela e desigual, formada pelos mais ricos.

Como o senhor vê o trabalho do general Eduardo Pazuello no Ministério da Saúde?
O trabalho dele é um desastre completo. Não tem salvação. Para colocar um monte de militares no Ministério, o governo remanejou funcionários que tinham vinte anos de carreira. E a turma que entrou, não conhece nada de Saúde. O general nunca se interessou em conhecer o sistema de saúde pública.

E sobre a frequente troca de ministros da Saúde?
É uma coisa muito ruim trocar no meio de uma pandemia três vezes o líder que está trabalhando com a gestão da crise. No meio de uma guerra não se trocam os líderes. Não consigo explicar uma barbaridade dessas.

Qual é a importância do SUS no combate à pandemia?
Em muitos estados, particularmente no Norte e Nordeste, o SUS é muito mais importante do que a rede privada. Nessas localidades, a rede privada é muito pequena, em torno de 5%. Em São Paulo, a cobertura é de 50%. Então, quem salvou a população foi a rede pública. Inclusive, socorrendo a rede privada, que colapsou muito rapidamente. No começo da pandemia, o SUS teve problemas porque faltaram equipamentos de proteção individual, mas isso foi resolvido logo no início.

Continuaremos dependendo dos serviços públicos?
Temos que garantir o funcionamento do SUS. Sem o SUS, será um desastre absoluto. Por isso, é preciso tomar cuidado com o orçamento, cobrar maior empenho do ministro Paulo Guedes com a Saúde. Afinal, este ano ainda vai ter pandemia. Se não melhorar o orçamento, não pode piorar. O SUS é financiado por estados, municípios e pelo governo federal, que põe metade do valor. Outros 50% são divididos entre estados e municípios.

Levaremos muito tempo para controlar a pandemia?
Até o final do ano vamos ter que vacinar 70% da população. Será um ano de aprendizado. Teremos que acompanhar a taxa de reincidência e a capacidade de produção de anticorpos. Vamos dar tempo ao tempo.

O senhor imaginou que chegaríamos a 200 mil óbitos?
Foi um desastre sanitário provocado pela inação do presidente. Não há meias palavras para se dizer isso. E esse desastre sanitário significa responsabilização por mortes que seriam evitáveis. Se tivéssemos valorizado o distanciamento social, o uso de máscara, o não uso de medicamentos ineficazes contra a doença, e sido rápido na busca pela vacina, a situação estaria melhor. Temos que melhorar nossa capacidade de reconhecer crises sanitárias, e antecipando o diagnóstico de novos vírus. Temos que melhorar a vigilância epidemiológica. E temos de aprender, de uma vez por todas, a resolver nossos problemas da desigualdade social. Uma sociedade civilizada combate a desigualdade. As pessoas pobres não são pobres porque querem. A sociedade brasileira cria desigualdades e tem que combatê-las com os instrumentos de Estado.

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