Comportamento

Viúva de dissidente chinês vivia com o fantasma de seu marido

Viúva de dissidente chinês vivia com o fantasma de seu marido

Liu Xia, a viúva do dissidente chinês Liu Xiaobo, no aeroporto de Helsinque, na localidade de Vantaa (Finlândia), em 10 de julho de 2018 - Lehtikuva/AFP

“Ouvem tudo o que acontece”, sussurra à AFP, em Pequim, Liu Xia, que na terça-feira deixou a China depois de oito anos em prisão domiciliar por ser a esposa do dissidente Liu Xiaobo. Ela se refere aos agentes do governo que a vigiavam.

A pintora e poetisa de 57 anos chegou na própria terça a Berlim, após ter vivido sob o controle permanente do Estado chinês desde 2010, quando seu marido, falecido em 2017, obteve o prêmio Nobel da Paz.

Na segunda-feira, a AFP conseguiu evadir as importantes medidas de segurança do edifício onde Liu Xia morava, em Pequim, e pôde visitar seu apartamento, no quinto andar, um dúplex cheio de livros.

Ao abrir a porta, ela parece surpresa de ver jornalistas estrangeiros. Mas rapidamente se torna acolhedora. Liu Xia fala em sussurros quase imperceptíveis, diretamente na orelha da jornalista da AFP.

“Escutam tudo o que acontece neste apartamento”, diz. Atendendo a um pedido seu, a AFP não tirou fotografias durante a entrevista.

Embora no momento da visita a imprensa estrangeira ainda não soubesse disso, Liu Xia tinha um passaporte há uma semana. Mas não havia malas prontas e nada indicava sua partida iminente.

– Liberdade –

No centro da sala de jantar, há uma grande tela branca, na qual está pintado várias vezes o mesmo número, em preto: 20170713. “É a data da morte de Liu Xiaobo”, explica a viúva. O dissidente morreu de câncer de fígado quando estava em prisão médica.

Em uma parede, embaixo das fotos do marido sorridente, há outro quadro, todo cinza com algumas manchas pretas. “É o fechamento de um túmulo”, explica.

Todas as cortinas do apartamento estão fechadas. A luz do dia só entra pela janela da cozinha, que dá para um parque com árvores. E no vidro de uma janela, Liu Xia escreveu várias vezes a palavra “Liberdade”.

As autoridades chinesas sempre asseguraram que Liu era “livre”, embora na verdade a vigiassem permanentemente.

“Deveriam adicionar um artigo à Constituição: amar Liu Xiaobo é um crime grave que merece prisão perpétua”, disse Liu Xia, segundo declarações recolhidas por seu amigo, Liao Yiwu, um escritor dissidente exilado na Alemanha.

Segundo ele, a pintora e poetisa pensava em suicídio e tomava muitos remédios contra a depressão e as alucinações.

Outro amigo da viúva, Ye Du, explicou que ela só podia sair do apartamento alguns dias por mês para visitar seu irmão, mas sempre escoltada pela polícia.

Liu Xia tinha uma linha de telefone fixo, mas não tinha telefone celular, o que teria lhe permitido usar serviços de mensagens criptografadas, segundo Ye Du.

– Guardas 24 horas por dia –

Desde a morte de Liu Xiaobo, sua viúva viu frustradas várias tentativas de sair do país. “Fez as malas várias vezes, mas o governo não tem escrúpulos, sempre tinha uma boa desculpa” para não deixá-la sair, diz Liao Yiwu.

Do lado de fora, a residência em Pequim onde vivia até agora parece tranquila, com aposentados que passeiam com seus cachorros e mulheres que voltam do mercado, como em muitas outras ruas da capital chinesa.

Mas algo estranho chama a atenção: a presença de ao menos cinco guardas vestidos de civis, um deles com um fone no ouvido. Todos observam permanentemente quem entra e quem sai do edifício, onde duas camas improvisadas haviam sido montadas para monitorar Liu Xia 24 horas por dia.