Internacional

Vítima de um regime esfacelado

Assassinato de estudante brasileira expõe a gravidade do conflito político que pede o fim do regime de Ortega — e se transforma em crise diplomática

Crédito: Divulgação
TENSÃO Policiais armados nas ruas da capital: bala de grosso calibre matou Raynéia Gabrielle (no alto) (Crédito:INTI OCON)

A estudante brasileira Raynéia Gabrielle Lima foi morta de forma covarde, aos 31 anos, na segunda-feira 23. Vítima inocente na escalada de violência política que assola a Nicarágua, ela foi atingida por um tiro de grosso calibre no peito quando circulava de carro nas proximidades da Universidade Americana em Manágua (UAM), onde cursava o último ano de medicina. A responsabilidade pela morte foi atribuída a um grupo paramilitar que apoia o governo de Daniel Ortega. Há três meses, desde que se instaurou no país uma rebelião permanente contra o governo do presidente, pelo menos 350 pessoas foram assasinadas. Raynéia não tinha qualquer atividade política. Em conversas com a mãe, a aposentada Maria Costa, a estudante relatava preocupação com a violência no país, onde morava desde 2013. Divorciada, não tinha filhos. “Ela era estudiosa e tinha planos de voltar ao Brasil no ano que vem, assim que finalizasse a residência médica”, disse à ISTOÉ o pai da Raynéia, Ridevando Pereira.

REAÇÃO Estudantes protestam contra o governo: palavras de ordem, estilingues, pedras e bombas caseiras (Crédito: Stringer / Anadolu Agency)

Crise sangrenta

A Nicarágua está imersa na crise mais sangrenta de sua história em tempos de paz — e a mais letal desde a década de 1980, quando Ortega também era presidente. Além do número gritante de mortos, os conflitos deixaram mais de 2 mil feridos, segundo cálculos de grupos humanitários. O governo brasileiro ainda aguarda informações precisas sobre a morte da estudante. O ministro de Relações Exteriores, Aloysio Nunes Ferreira, chamou ao Brasil, em consulta, o embaixador em Manágua, Luís Cláudio Villafane Santos. O chanceler brasileiro também convocou a embaixadora da Nicarágua no Brasil, Lorena Martínez, para prestar esclarecimentos. A atitude do ministro sinaliza insatisfação do governo brasileiro com a atenção dada pelas autoridades nicaraguenses ao caso. Trata-se de um ato considerado o primeiro passo em uma situação de desagravo entre dois países. O secretário-geral do Ministério das Relações Exteriores (MRE), embaixador Marcos Galvão, classificou a morte da estudante como uma “situação trágica”. O MRE diz em nota que “diante do ocorrido, o governo torna a condenar o aprofundamento da repressão, o uso desproporcional e letal da força e o emprego de grupos paramilitares em operações coordenadas pelas equipes de segurança.” O Itamaraty afirmou, na quarta-feira 25, que “a Embaixada do Brasil em Manágua está prestando todo o apoio cabível para obter a documentação necessária à liberação do corpo da estudante e providenciando o levantamento dos custos pertinentes, informando-os à família”.

LUTO Nicarágua está imersa na crise mais sangrenta de sua história: 306 mortos civis (Crédito:Marvin Recinos)

Os conflitos na Nicarágua começaram no dia 18 de abril com protestos contra a reforma na Previdência proposta pelo governo, que geraria aumento da contribuição à Seguridade Social e redução das pensões. Duramente reprimidos, os protestos se transformaram em revolta contra o presidente Ortega, em seu quarto mandato (o terceiro consecutivo desde 2007). Os manifestantes acusam Ortega e sua esposa, Rosario Murillo de instaurar uma ditadura no país marcada por corrupção e nepotismo. Dos 351 mortos contabilizados pela Associação Nicaraguense Pró-Direitos Humanos, 306 são civis, 20 são paramilitares, 16 são policiais e um é militar. A maior parte dos manifestantes e dos mortos são estudantes. Com estilingues, pedras e bombas caseiras, eles tomam a frente dos protestos e enfrentam policiais e paramilitares pró-governo — armados com revólveres, espingardas e fuzis. A Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) e o Escritório do Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos (Acnudh) responsabilizaram o governo por “assassinatos, execuções extrajudiciais, maus-tratos, possíveis atos de tortura e prisões arbitrárias”.

Oposição dos bispos

Ortega chamou os bispos da Conferência Episcopal da Nicarágua de “golpistas”, desafiou a Organização dos Estados Americanos e incitou seus apoiadores para que “não baixem a guarda” e mantenham “mecanismos de autodefesa”. As declarações do presidente foram feitas durante uma comemoração dos 39 anos da revolução que derrubou a ditadura de Somoza na Nicarágua. Segundo Ortega, ele está sendo vítima de uma “conspiração armada financiada por forças internas e externas” — cujos responsáveis não mencionou — que supostamente querem tirá-lo do poder. Ainda segundo Ortega, tais forças contam com a cumplicidade dos bispos nicaraguenses. Os religiosos atuam como mediadores e testemunhas de um diálogo nacional. Enquanto o impasse persiste, mais inocentes são executados.

“Sou vítima de uma conspiração armada financiada por forças internas e externas” Daniel Ortega, presidente da Nicarágua