Artes Visuais

A vida como ela é

O ácido humor britânico a serviço de uma crítica demolidora à sociedade de consumo, na fotografia de Martin Parr

Crédito: Martin Parr/ Magnum Photos/ Galeria Lume

PRAIA INVADIDA Cena da praia de New Brighton, na Inglaterra, da série “The Last Resort” (1983-85), de Martin Parr (Crédito: Martin Parr/ Magnum Photos/ Galeria Lume)

PARRTIFICIAL/ Museu da imagem e do Som-SP/ Até 24/7

PARQUE TEMÁTICO Menino flagrado na hora do lanche na Disneylandia de Tóquio, em 1998
PARQUE TEMÁTICO Menino flagrado na hora do lanche na Disneylandia de Tóquio, em 1998 (Crédito:Martin Parr/ Magnum Photos/ Galeria Lume)

Integrante da Magnum Photos desde os anos 90, Martin Parr é considerado um dos fotógrafos contemporâneos mais influentes do mundo. Sua fotografia ganhou repercussão mundial com as cenas triviais clicadas nas areias escaldantes da América Latina e nas melancólicas praias europeias, mas seu olhar para o discreto charme da banalidade começa antes disso, nos início dos anos 70, ao documentar o estilo de vida britânico. A irresistível atração do que há de mais saborosamente ridículo, patético e grotesco da vida cotidiana está descrita em Parrtificial, que reúne no MIS-SP cerca de 240 imagens do fotografo britânico.

O curador Iatã Cannabrava aponta em seu texto curatorial que Martin Parr teve como referência a fotografia documental de feras como Henri Cartier-Bresson e Robert Frank. Mas apesar de ter flertado com o documentarismo clássico, ele foi pioneiro ao assumir a fotografia em cores. Ao “escapar” do P&B, inaugurou uma fotografia menos romântica do que a praticada por muitos de seus contemporâneos. Sob a luz dessa nova fotografia documental inglesa, quanto mais banal é a cena retratada, mais bizarra ela é.

TURISMO PREDATÓRIO Ângulo favorável de funcionária de cassino em Las Vegas, EUA, em 1998
TURISMO PREDATÓRIO Ângulo favorável de funcionária de cassino em Las Vegas, EUA, em 1998 (Crédito:Martin Parr/ Magnum Photos/ Galeria Lume)

Se, no início da carreira, o interesse de Parr se restringia ao quintal de sua casa, registrando as corridas de cavalos, o culto à Rainha e as feiras nacionalistas – em fotos reunidas recentemente no livro “We Love Britain!”, de 2014 –, logo seu olhar se voltou para a indústria das viagens e do turismo do outro lado do Canal da Mancha. Em séries como “Home and Abroad” (2003), “Small World” (1995) e “Life’s Beach” (2013), ele explora os parques temáticos, os shopping centers, os sítios históricos e os resorts à beira-mar. Muito antes da existência dos selfies, ataca com ironia a voracidade da fotografia turística e a compulsão ao autorretrato.

O maior alvo da fotografia turística, a  Monalisa, no Museu do Louvre, Paris, em 2012
O maior alvo da fotografia turística, a Monalisa, no Museu do Louvre, Paris, em 2012 (Crédito:Martin Parr/ Magnum Photos/ Galeria Lume)

O mundo dos artifícios, da diversão e do entretenimento, visado pelo humor ácido de Martin Parr, encontra ressonância direta nos ambientes artificialmente compostos para receber a mostra no Museu da Imagem e do Som. Esse partido que o museu adotou pela montagem cenográfica de suas exposições – altamente questionável em mostras como a retrospectiva do cineasta Jorge Bodansky, em cartaz no segundo andar, na medida em que corre o risco de reduzir a obra artística a um quadro na parede – assume aqui outra dimensão. Afinal, a parafernália kitsch e mundana da fotografia de Parr encontra sua mais perfeita continuidade na direção de arte de Ekaterina Kholmogorova e no parque temático da montagem. Até praia de areia há no MIS.

Outro partido interessante da curadoria é o núcleo Bookshop, que reúne em vitrines algumas dezenas de publicações originais – com versões integrais digitalizadas em vídeos à disposição do público –, dando ao livro a devida importância que teve como suporte, nas cinco décadas de fotografia de Parr.