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União Europeia lança o primeiro consórcio mundial de cientistas para identificar os principais problemas associados ao uso da internet e apontar as melhores soluções

Crédito: ljubaphoto/istock

Desde que a internet tornou-se um fenômeno da vida contemporânea, muitas perguntas começaram a ser feitas sobre os efeitos provocados na mente, no corpo e no comportamento das horas e horas passadas navegando na rede. Na semana passada, foi anunciada uma iniciativa pioneira para trazer à tona as respostas para as questões mais importantes. Ela será executada por 120 pesquisadores de 38 países, coordenados pela direção do Comitê Científico da União Europeia. Na quarta-feira 10, um evento em Barcelona, Espanha, marcou o início do projeto. A psiquiatra Naomi Fineberg, professora da Universidade de Hertforshire e coordenadora do painel, falou à ISTOÉ sobre a importância do trabalho. “A internet faz parte da vida de todos. Embora ela tenha muitos efeitos positivos, existe uma preocupação crescente dos prejuízos associados ao seu uso”, afirmou. Seu colega David Nutt, do Imperial College of London, complementou; “É importante estarmos preparados para os efeitos negativos que a internet provoca. O projeto é um passo importante nesse sentido.”

Entre os danos que mais assustam estão a dependência e o isolamento social a que sua utilização pode levar, a pornografia online, o bullying virtual e o uso excessivo das redes sociais. Vários trabalhos mostraram, por exemplo, que o fenômeno desencadeia ansiedade e depressão. No mundo paralelo das redes, todos são felizes e não há espaço para as chatices e fracassos do cotidiano. Passear por elas sem ter isso em mente pode fazer parecer que a vida do internauta é a mais medíocre de todas, levando a sentimentos de inferioridade, inveja e desalento com a própria realidade.

Sinais como esses preocupam estudiosos há algum tempo. Desde 2014, a Organização Mundial de Saúde reconhece a figura do “uso problemático da internet” e incluirá a dependência em jogos virtuais na nova edição da Classificação de Doenças Mentais, prestes a ser divulgada. O problema é que os estudos são fragmentados e não levam em consideração diferenças culturais. “Portanto, não conhecemos a escala real do problema, suas causas e distinções culturais que fazem populações serem mais vulneráveis”, diz Naomi.

ESTUDO David Nutt, do Imperial College of London: é importante saber os efeitos negativos da rede

O projeto colocará para trabalharem juntos sociólogos, psiquiatras, educadores e geneticistas, entre outros profissionais. Os coordenadores selecionaram nove perguntas (leia mais no quadro) que guiarão os trabalhos dos grupos. A primeira pede uma definição do que é uso problemático da internet. Define-se por horas navegando, consequências para a vida cotidiana, repercussões na saúde mental? A oitava pede aos cientistas que criem métodos de intervenções precoces e tratamentos. A última questiona se é possível encontrar no organismo substâncias cujas concentrações indiquem se o usuário está fazendo uso prejudicial da rede. Embora não tenha prazo definido para ser encerrado, o projeto não demorará a entregar as primeiras informações. “Já juntamos estudos sobre algumas das áreas”, informou Naomi.

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