Cotado como favorito para a sucessão no estado de São Paulo, o vice-governador Felício Ramuth (PSD) negou, em entrevista à IstoÉ, pensar na sua candidatura para o governo em 2026. De acordo com ele, o foco está no trabalho atual, mas não descartou a possibilidade de liderar a chapa estadual no próximo ano se Tarcísio de Freitas (Republicanos) concorrer à cadeira do Palácio do Planalto.
O governador paulista está cada vez mais próximo de disputar a presidência da República contra o atual chefe do Planalto, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), no próximo ano. Embora Tarcísio negue publicamente, aliados dele no Palácio dos Bandeirantes tratam a candidatura presidencial como prioridade. Com essa possibilidade, abriu-se uma disputa interna para saber quem será nomeado o sucessor dele.
Ricardo Nunes (MDB), prefeito de São Paulo, despontou como o preferido de Tarcísio, mas teve seu nome colocado na gaveta momentaneamente devido à preocupação que seu vice, o militar Ricardo Mello Araújo (PL), assuma a prefeitura com sua saída. Com isso, Ramuth voltou ao topo da lista e conta com apoio de líderes partidários do Centrão e de secretários que já atuam no Palácio dos Bandeirantes.
Mesmo com a preferência, Felício Ramuth prega cautela sobre a sua candidatura e diz não ter foco na candidatura do ano que vem. Para ele, a prioridade, caso Tarcísio dispute a presidência, será manter o governo blindado nos nove meses de mandato, mesmo não descantando a chance de assumir o protagonismo na disputa local.
“Quanto aos meus planos, mantenho-me à disposição para apoiar qualquer decisão que o governador venha a tomar. Minha atuação será sempre guiada pelo compromisso com o projeto de governo e com os interesses do estado de São Paulo, esteja eu na condição de vice-governador ou eventualmente como sucessor”, disse.
“Se o grupo responsável pelas definições eleitorais escolher meu nome para a sucessão estadual, obviamente aceitarei a missão. Estou sempre à disposição do projeto, mas reconheço que existem muitas etapas e variáveis nesse processo político dinâmico”, completou.

Felício Ramuth vê chance de Tarcísio aceitar “missão” de disputar uma cadeira ao Palácio do Planalto caso haja convergência na centro-direita
Ramuth passou a ter seu nome defendido nos bastidores e até publicamente por aliados de Tarcísio. Na semana passada, Nunes foi em defesa do vice-governador e disse que ele estaria capacitado para herdar o espólio de Tarcísio no estado. Felício, no entanto, vê uma disputa equilibrada com Ricardo e outros nomes, como o presidente de seu partido, Gilberto Kassab.
“Temos vários nomes qualificados no nosso campo político, como Ricardo Nunes, André do Prado e Gilberto Kassab, além de outros que podem surgir. Caso o governador Tarcísio decida pela candidatura presidencial, minha prioridade imediata será assumir o governo e defender seu legado contra os inevitáveis ataques que surgirão durante a campanha nacional”.
Ramuth apontou uma antecipação na sucessão estadual e reforçou a preferência de Tarcísio de Freitas para a disputa à reeleição no Palácio dos Bandeirantes. Ele não nega a pressão para que Tarcísio concorra ao Planalto e vê chances dele aceitar a “missão” se houver convergência na chapa de centro-direita.
“Reconheço que existe uma pressão externa significativa para que o governador Tarcísio dispute a Presidência da República. No entanto, é importante destacar que ele tem se dedicado integralmente ao governo de São Paulo. Seu plano atual continua sendo a reeleição para o governo estadual, que está bem encaminhada”.
“Não posso negar que há um movimento da sociedade civil e de partidos políticos que desejam vê-lo como candidato nacional. Caso surja um projeto unificado da centro-direita com o apoio de lideranças como Bolsonaro, acredito que ele poderia considerar essa missão”, concluiu.
Confira a entrevista completa com Felício Ramuth, vice-governador de São Paulo
Como avalia os seis meses desde o fim oficial da Cracolândia e por que acredita que é definitivo?
A Cracolândia foi erradicada após três anos de trabalho integrado, iniciado ainda na transição do governo Tarcísio. Enfrentamos uma área onde o poder público não entrava há décadas, que servia como refúgio para criminosos e centro de consumo ilimitado de drogas.
Desenvolvemos uma metodologia única, regulamentando a política estadual sobre drogas e criando um hub de atendimento que realizou 35 mil atendimentos e 28 mil internações voluntárias. Paralelamente, ações de segurança prenderam 1.500 traficantes usando monitoramento por câmeras e fecharam estabelecimentos ilegais, com apoio fundamental do Ministério Público.
O resultado foi uma queda de 62% nos roubos na região central e o completo esvaziamento da cena de uso em maio. O trabalho continua com o monitoramento qualificado da população em situação de rua, garantindo que a Cracolândia não voltará a existir.
O fim da cracolândia não provocou uma dispersão de dependentes pela cidade? Temos na região do Glicério, no viaduto da Paulista, por exemplo.
É importante diferenciar os grupos: os pontos de moradia nas regiões centrais sempre existiram e não são resultado do fim da Cracolândia. Essas pessoas se reúnem por segurança e para dividir o trabalho com material reciclável, sendo que a maioria tem dependência de álcool, não de crack.
A qualificação atual dessas populações mostra que apenas 8% têm passagem pela antiga cena de uso da Cracolândia. Locais como a Marechal Deodoro sempre tiveram moradores em situação de rua, independentemente da intervenção realizada na região da Cracolândia.

Ramuth chefiou trabalhos para colocar fim à Cracolândia durante os três primeiros anos de mandato
Como está o monitoramento dos dependentes que se dispersaram para outras áreas?
Não houve dispersão, e sim um redirecionamento estruturado: 28 mil pessoas foram encaminhadas para tratamento, com aproximadamente duas mil atualmente em comunidades terapêuticas, hospitais ou casas de acolhimento. A migração de usuários de outras cidades cessou, pois o ponto de uso livre não existe mais.
Um dado relevante é que o perfil dos frequentadores noturnos era diferente – eram usuários recreativos que iam após o trabalho. O termo “Cracolândia” era inadequado, pois sugeria diversão, quando na realidade era um local de extrema vulnerabilidade. O depoimento de um ex-usuário sintetiza a transformação: “antes acordava pensando em dormir; hoje durmo sonhando em acordar”. A revitalização trouxe benefícios não só para os usuários, mas para moradores, comerciantes e turistas, com o centro hoje mais seguro e revitalizado.
Como garantir que não haverá a formação de novos pontos de drogas e que medidas impedirão essas tentativas?
O monitoramento contínuo mostra que os grupos atuais são majoritariamente de moradores em situação de rua, não ex-usuários da Cracolândia. Um exemplo recente na Barra Funda tinha 20 pessoas, sendo apenas 2 com passagem pela cena aberta de uso – as demais unem-se por questões de segurança e trabalho com recicláveis.
A população, após ver a solução da Cracolândia, tornou-se mais exigente com grupos menores em suas regiões. Mantemos a mesma metodologia bem-sucedida, expandindo do centro para outros bairros, sempre respeitando o direito de ir e vir enquanto oferecemos atendimento adequado.
Qual o prazo para instalação do centro administrativo na região central da cidade e por que considera um dos pontos altos do governo?
O projeto de revitalização do centro inclui um investimento de R$ 5 bilhões no Centro Administrativo. Atualmente, 22 mil servidores estão espalhados em 65 prédios, mas em três anos começará a transferência para a nova sede ao lado da Praça Princesa Isabel, com conclusão total em cinco anos.
O complexo terá fachada ativa com comércio e restaurantes, sem muros ou grades, integrado ao espaço público. A transferência da rodoviária e a restauração do Palácio dos Campos Elíseos completam a revitalização. Esse investimento público já estimula a abertura de novos negócios na região, criando um círculo virtuoso de desenvolvimento.
Mas como esse Centro Administrativo melhorará a segurança na região?
O reforço na segurança do centro inclui 400 novos policiais nos batalhões, duas novas companhias e fiscalização com motos. A parceria com o município através da atividade delegada acrescenta dois mil homens diariamente, aproveitando policiais em suas horas de folga.
Essas medidas, somadas ao sistema Muralha Paulista integrado ao Smart Sampa, resultaram em 62% de redução de roubos. A região central já não é mais a área mais violenta da cidade, comprovando a eficácia da estratégia integrada de segurança.

Felício Ramuth defendeu o secretário de Segurança Pública do estado, Guilherme Derrite, das críticas sofridas durante a tramitação do PL Antifacção
Guilherme Derrite, secretário da SSP, relatou o PL Antifacção na Câmara. O texto final da lei não saiu enfraquecido após tantas alterações?
Confio no trabalho do secretário Derrite, que traz experiência real de ruas, diferentemente de abordagens burocráticas. Sua sensibilidade social permitiu aprimorar o projeto original com cinco correções, ajustando pontos sobre Polícia Federal e verbas, sem enfraquecer sua essência.
Acho um grande erro do ministro Lewandowski nessas afirmações. É um burocrata, na verdade, da segurança. Já o Derrite tem experiência real nas ruas, da sociedade.
A base do projeto mantém-se intacta: aumento de penas e redução do período para regressão de pena. Esses ajustes são naturais no processo democrático e o objetivo central será cumprido, representando um avanço significativo.
Este é o primeiro passo para um necessário endurecimento gradual da legislação. A impunidade atual é evidente em casos como a receptação, onde criminosos são soltos rapidamente, desgastando a credibilidade das instituições.
Espero que esta seja apenas a inicial de uma série de mudanças que combatam efetivamente a reincidência criminal. Precisamos descentralizar o rigor desde o crime organizado até delitos do cotidiano, assegurando que a justiça mantenha presos aqueles que a polícia prende.
Quais seus planos para 2026, considerando a possível candidatura de Tarcísio à Presidência?
Reconheço que existe uma pressão externa significativa para que o governador Tarcísio dispute a Presidência da República. No entanto, é importante destacar que ele tem se dedicado integralmente ao governo de São Paulo, com foco na agenda de interiorização que recentemente levou à região de Presidente Prudente e seguirá para outras localidades.
Seu plano atual continua sendo a reeleição para o governo estadual, que está bem encaminhada. Contudo, não posso negar que há um movimento da sociedade civil e de partidos políticos que desejam vê-lo como candidato nacional. Caso surja um projeto unificado da direita com o apoio de lideranças como Bolsonaro, acredito que ele poderia considerar essa missão.
Nesse cenário, o governador se desincompatibilizaria em abril, quando eu assumiria o governo. Minha prioridade imediata seria preservar e dar continuidade ao legado construído por sua gestão, garantindo a estabilidade administrativa do estado.
Quanto aos meus planos, mantenho-me à disposição para apoiar qualquer decisão que o governador venha a tomar. Minha atuação será sempre guiada pelo compromisso com o projeto de governo e com os interesses do estado de São Paulo, esteja eu na condição de vice-governador ou eventualmente como sucessor.
Como avalia o apoio interno ao seu nome como possível sucessor no governo de São Paulo?
Temos vários nomes qualificados no nosso campo político, como Ricardo Nunes, André do Prado e Gilberto Kassab, além de outros que podem surgir. Caso o governador Tarcísio decida pela candidatura presidencial, minha prioridade imediata será assumir o governo e defender seu legado contra os inevitáveis ataques que surgirão durante a campanha nacional.
Se o grupo responsável pelas definições eleitorais escolher meu nome para a sucessão estadual, obviamente aceitarei a missão. Estou sempre à disposição do projeto, mas reconheço que existem muitas etapas e variáveis nesse processo político dinâmico.
É lamentável constatar que o PT e Lula sempre se posicionam ao lado do crime organizado, como ficou evidente na relação com a cunhada do chefe do Moinho. A declaração presidencial sugerindo que traficantes são vítimas dos usuários revela uma visão preocupante que eles tentam esconder, especialmente porque a segurança pública não é um tema confortável para essa corrente política.
Como estão as articulações para a saída de secretários para disputar eleições em 2026?
Esta é uma questão que ainda não discutimos, pois o governador Tarcísio mantém total foco em sua reeleição. Seja qual for sua decisão futura – permanecer no governo ou concorrer à Presidência –, uma rotatividade de secretários é natural e ocorrerá independentemente do cenário.
No início do próximo ano, quando esse tema for abordado, minha posição será de total apoio à construção do melhor cenário. Estarei à disposição para contribuir com indicações e sugestões, independentemente de ser candidato, governador em exercício ou vice-governador.
Minha prioridade é assegurar a continuidade do projeto de governo e oferecer todo o suporte necessário ao governador em suas decisões, sempre visando o melhor para o estado de São Paulo e a consistência do nosso trabalho.