Cultura

Viagem fantástica

Estrelado por Angelina Jolie e David Oyelowo, o filme “Alice e Peter: Onde Nascem os Sonhos” conta a origem dos famosos personagens infantis antes de eles se tornarem os clássicos de Lewis Carroll e J.M. Barrie

Crédito: Alex Bailey

EM FAMÍLIA O ator David Oyelowo e os “filhos” Alice, David e Peter: a imaginação supera problemas (Crédito: Alex Bailey)

São bastante conhecidas as aventuras de Peter Pan na Terra do Nunca e de Alice no País das Maravilhas. Mas como eles foram parar lá? Apresentar uma origem comum para esses dois personagens clássicos da literatura mundial foi o ponto de partida para “Alice e Peter: Onde Nascem os Sonhos”. O filme é estrelado por Angelina Jolie e David Oyelowo, casal que interpreta os pais do casal de irmãos Alice (Keira Chansa) e Peter (Jordan A. Nash). O personagem de Peter Pan apareceu pela primeira vez em 1904 em uma peça de teatro escrita pelo dramaturgo escocês J.M. Barrie, como era conhecido Sir James Matthew Barrie. Alice foi protagonista de um romance do britânico Lewis Carroll publicado em 1865. Em comum, eles vivem histórias mágicas, que parecem ter saído dos sonhos de seus criadores. Esse clima onírico é a principal característica do filme de estreia de Brenda Chapman, conhecida por animações de sucesso como “Rei Leão” (1994), da Disney, e “Valente” (2012), da Pixar.

RAINHA DE COPAS Angelina Jolie: a mãe passa a ser vilã após agressão a Alice (Crédito:Divulgação)

Apesar de ser um conto de fadas cinematográfico em que os efeitos especiais cairiam muito bem, os criadores de “Alice e Peter” optaram por uma abordagem mais sutil. O destaque se deslocou, portanto, para a sensibilidade na criação de uma ponte crível entre a realidade e a fantasia, revelando de onde vieram as metáforas que inspiraram os clássicos infantis. O “Capitão Gancho”, de Peter Pan, nada mais é do que um homem mau cuja mão foi decepada em uma briga; a Rainha de Copas, por sua vez, é a própria mãe de Alice quando se torna uma “vilã” e briga com a filha. Pouco a pouco, o roteiro desvenda cada detalhe dos livros de maneira poética e surpreendente. Compreendemos então que os problemas da vida real podem adquirir novos significados sob o olhar das crianças. Uma canoa abandonada à margem do rio vira um galeão lotado de piratas malvados; um simples bicho de pelúcia se transforma em um apressado coelho mágico; um senhor usando um chapéu esquisito transforma-se em um chapeleiro maluco — tudo depende da liberdade para deixar a imaginação correr solta.

O trauma inspira atitudes opostas: enquanto Peter não quer crescer, Alice deseja virar adulta o mais rápido possível

Há demonstrações de diversidade que não constam nas obras originais, como o casal multirracial que interpreta os pais das crianças. A questão de gênero também está presente na produção: além da diretora Brenda Chapman, o roteiro é assinado por Marissa Kate Goohill. Ou seja: a história é contada sob o ponto de vista feminino. Segundo a roteirista, sua maior dificuldade foi encontrar maneiras de mostrar por que os personagens têm destinos tão diferentes. “Alice e Peter entram ao mesmo tempo em suas fantasias particulares. No entanto, um deles volta para casa ao final da aventura, enquanto o outro, não. Tentei compreender por quê”, afirmou Marissa, em seu blog.

Divulgação

O momento mais emocionante do filme é a “transformação” de Alice e Peter em “Alice no País das Maravilhas” e “Peter Pan”. Causada por uma tragédia familiar ocorrida na vida real com o autor J.M Barrie, o filme pretende demonstrar que a vontade de viver dentro de uma fantasia surge como forma de fugir da realidade. Alice e Peter agem como contrapontos, um ao outro: o trauma força o garoto a crescer rapidamente, o que ele repudia — é por isso que a “síndrome de Peter Pan” é usada para descrever o adulto que não consegue se desapegar do passado. Já sua irmã Alice deseja virar adulta o mais rápido possível para poder se tornar independente e escapar da tirania da mãe. Há uma complementaridade nas duas histórias — e o talento para uni-las é a mágica dessa fantástica viagem.