Edição nº2504 08.12 Ver edições anteriores

Venezuela, uma questão de tempo

Mesmo não podendo acompanhar in locu a situação da Venezuela, tenho para mim que o país caminha para uma tragédia. Violência em larga escala. Pode levar alguns meses ou algumas semanas. Não me surpreenderei se já tiver começado quando essa edição de ISTOÉ chegar às bancas.

Salta aos olhos que as hierarquias institucionais estão se desmanchando, e que a força das armas mantém a ordem pública.

Ou seja, regime, no sentido mais sério da palavra, já não há. A ordem constitucional está por um fio, e é até com certo pudor que recorro a esse conceito. Nicolás Maduro, o lunático que se faz passar por presidente, pode reter por algum tempo a fidelidade de seus generais e desencadear a quantidade de violência que quiser, mas sabe que sua precária legitimidade já tomou a forma de uma espiral descendente. É tudo uma questão de tempo.

Violência em larga escala entre cidadãos de um mesmo país é sinônimo de guerra civil. Já teria estourado há muito tempo se os opositores civis venezuelanos possuíssem armas. Sabemos que não possuem. Mas a situação atual é insustentável. A catástrofe — porque é disso que estamos falando: um banho de sangue, com sofrimentos imensos — poderá tomar duas formas. Uma, a divisão das Forças Armadas, desembocando num enfrentamento violentíssimo, com pouca ou nenhuma participação de grupos civis. É até possível que a maioria se mantenha fiel a Maduro, temendo que a sua queda resulte num cenário ainda pior, com numerosas punições entre os próprios militares.

A outra hipótese é a sociedade se estilhaçar primeiro, antes da cisão dentro das Forças Armadas. Aqui temos uma distinção difícil, mas necessária. Uma coisa é a sociedade funcionar no limite da desordem, outra, muito diferente, é a desordem propriamente dita. A anarquia, com a violência pipocando por toda parte e as próprias autoridades discordando sobre como tentar restaurar um mínimo de ordem. Prendendo cem, mil, dez mil indivíduos? Fuzilando alguns milhares sumariamente? Num país aberto como a Venezuela sempre foi, com vizinhos bem ou mal democráticos, e fortemente integrado ao comércio internacional pelo petróleo, uma ditadura selvagem, com aguda divisão entre os próprios militares, estará com os dias contados.

Violência em larga escala entre cidadãos de um mesmo país  é sinônimo de guerra civil. Já teria estourado há muito tempo se  os opositores civis possuíssem armas

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