Venezuela lança plano contra a fome em meio à crise alimentar

Delcy Rodríguez apresenta iniciativa em fórum da ONU, na Itália, e anuncia projeto de lei para integrar cadeias produtivas; organizações humanitárias alertam para necessidades persistentes

programa Venezuela Alimenta, anunciado por Delcy Rodríguez durante o Fórum Mundial da Alimentação, em Roma. A iniciativa busca fortalecer a produção e o abastecimento de alimentos em meio às dificuldades humanitárias enfrentadas pelo país.
Foto: programa Venezuela Alimenta, anunciado por Delcy Rodríguez durante o Fórum Mundial da Alimentação, em Roma. A iniciativa busca fortalecer a produção e o abastecimento de alimentos em meio às dificuldades humanitárias enfrentadas pelo país.

A presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, anunciou nesta terça-feira, 13 de outubro, a criação do programa “Venezuela Alimenta”, uma iniciativa destinada a integrar as cadeias produtivas do país e ampliar o acesso da população aos alimentos.

O anúncio ocorreu durante o Fórum Mundial da Alimentação, realizado em Roma pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).

Segundo Rodríguez, o plano pretende fortalecer a produção nacional e contribuir para o cumprimento da meta internacional de erradicação da fome.

A apresentação acontece em um momento de dificuldades econômicas e sociais na Venezuela, onde organizações humanitárias ainda identificam famílias com necessidades alimentares e acesso limitado a serviços essenciais.

Como vai funcionar o programa Venezuela Alimenta?

A proposta anunciada pelo governo venezuelano busca coordenar diferentes setores envolvidos na produção e na distribuição de alimentos.

A intenção é aproximar atividades agrícolas, iniciativas comunitárias, empresas e a indústria agroalimentar para fortalecer o abastecimento interno.

Rodríguez também informou que pretende enviar à Assembleia Nacional um projeto de lei voltado à economia local.

O texto deverá incentivar a integração entre atividades municipais e comunitárias e os setores empresariais ligados à produção de alimentos.

O governo não apresentou, nas informações divulgadas durante o anúncio, um cronograma detalhado de implantação nem os recursos financeiros previstos para executar todas as medidas.

Governo afirma que subnutrição diminuiu no país

Durante o fórum, Delcy Rodríguez apresentou indicadores que, segundo ela, demonstram uma melhora na situação alimentar da Venezuela.

A presidente interina afirmou que a prevalência de subnutrição caiu para 5,3% no período de 2023 a 2025, o equivalente a aproximadamente 1,5 milhão de pessoas.

Ela atribuiu o dado ao relatório SOFI 2026, elaborado pela FAO e por outras agências das Nações Unidas.

Rodríguez também mencionou uma redução do indicador para 3% em 2026.

Esse último percentual foi apresentado pela dirigente e não deve ser confundido com a estimativa referente ao triênio de 2023 a 2025. Os dois números abrangem períodos diferentes e exigem cautela na comparação.

A presidente destacou ainda programas de distribuição de alimentos, entre eles os Comitês Locais de Abastecimento e Produção (CLAP), e iniciativas de alimentação escolar.

Segundo o governo, essas ações fazem parte da resposta às dificuldades econômicas e aos efeitos das sanções internacionais.

Organizações apontam necessidades humanitárias persistentes

Apesar da melhora nos indicadores citados pelo governo, avaliações humanitárias continuam apontando dificuldades de acesso a alimentos e serviços básicos na Venezuela.

No início de 2026, estimativas mencionadas em levantamentos sobre a situação do país indicavam que entre 1,5 milhão e 1,99 milhão de venezuelanos precisavam de assistência alimentar humanitária.

Esses números não medem exatamente a mesma situação representada pela taxa de prevalência de subnutrição.

Enquanto o indicador de subnutrição procura estimar a proporção da população que não dispõe de energia alimentar suficiente, as avaliações de assistência humanitária identificam pessoas que necessitam de apoio diante de diferentes vulnerabilidades.

Por isso, os dados não devem ser tratados como diretamente equivalentes.

Terremotos agravaram a situação em regiões venezuelanas

As dificuldades humanitárias foram ampliadas pelos terremotos registrados em 24 de junho, que atingiram diferentes áreas da Venezuela.

Segundo as informações reunidas em avaliações humanitárias citadas no relato da agência ANSA, os tremores provocaram danos à infraestrutura, deslocamentos populacionais e novas demandas por ajuda.

Nas regiões afetadas, a estimativa temporária de pessoas que precisavam de assistência humanitária chegou a variar entre 3 milhões e 3,49 milhões.

O aumento estava relacionado às necessidades emergenciais nas áreas atingidas e não deve ser interpretado como uma estimativa nacional de pessoas subnutridas.

O Programa Mundial de Alimentos (PMA) mantém ações de assistência, incluindo refeições escolares e iniciativas comunitárias, mas enfrenta restrições de financiamento.

Venezuelanos protestam durante evento em Roma

A participação de Delcy Rodríguez no Fórum Mundial da Alimentação também provocou manifestações de integrantes da comunidade venezuelana na capital italiana.

Os participantes criticaram a situação alimentar e as condições dos serviços públicos no país.

Segundo os manifestantes, parte das famílias enfrenta interrupções no fornecimento de água e eletricidade, enquanto os salários são insuficientes para garantir a compra regular de alimentos.

Os protestos evidenciaram a diferença entre a avaliação apresentada pelo governo e a experiência relatada por cidadãos que denunciam dificuldades cotidianas.

Delcy Rodríguez governa após captura de Maduro

Rodríguez assumiu interinamente a Presidência da Venezuela após a captura de Nicolás Maduro, em janeiro de 2026, conforme o relato divulgado pela ANSA.

Desde então, a dirigente prometeu promover diálogo político e realizar eleições, mas ainda não anunciou uma data para a votação.

O lançamento do programa Venezuela Alimenta ocorre nesse contexto de transição política e de cobranças por respostas à crise social.

A efetividade da iniciativa dependerá de sua implementação, do fortalecimento da produção e da capacidade de ampliar o acesso da população aos alimentos.

Da IstoÉ e Ansa