Edição nº2543 14/09 Ver edições anteriores

Vem, meteoro!

Um meme se tornou famoso, há alguns anos, nas redes sociais.

“Vem, meteoro!” (ou alguma diversificação dessa ideia) ressurge sempre que é noticiado um desses absurdos que só acontecem no Brasil.

Uma referência ao fato de que — já que um meteoro devastou o planeta na época dos dinossauros — eventualmente um outro deve estar a caminho para selar de vez a nossa sorte.

O meme clama para que um meteoro venha logo de uma vez e nos poupe dessa maldição de escândalos, de incompetência, de corrupção e de ignorância.

A frase mostra o velho bom humor cáustico nacional.

Como fazemos há décadas, rimos para disfarçar nossa própria habilidade de construir um País anormal.

Ou é normal um ex-presidente preso ter 39% das intenções de voto?

Ou é aceitável termos mais de 15 milhões de desempregados?

Ou é coisa pouca que nos últimos dois anos o governo esteja estagnado pela sua própria inépcia política?

Vem agora, meteoro!

Vem com força!

O que entristece ainda mais é que a popularização dessa frase, principalmente no Twitter e no Facebook, sugere a absoluta descrença na possibilidade de mudança.

Mas nada, nem o mais inventivo roteirista, poderia conceber o que estava por vir.

Nem os mais descrentes com o País poderiam imaginar os requintes trágicos do incêndio que destruiu o Museu Nacional.

Passada quase uma semana, ainda há quem partidarize o desastre.

Gente que culpa o BNDES da era PT por ter investido US$ 6 bilhões em obras em países amigos, enquanto trancava míseros 20 milhões que poderiam ter reformado e salvado o Museu.

Gente que culpa ministros, presidentes, governadores, como se a destruição do maior e mais importante Museu de História Natural da América Latina fosse mais uma de suas cotidianas incompetências.

Estamos tão acostumados com o dia a dia surreal que ocupa a mídia que, por mais que a imprensa tenha dado destaque (aqui e mundo afora), não conseguimos ter a dimensão de como o incêndio do Museu Nacional não tem precedentes.

Não pode ser comparado a nenhuma de nossas mazelas cotidianas.

Erra quem coloca essa tragédia apenas na conta da incompetência de partidos e políticos.

Simplifica quem compara os desmandos e incongruências a que assistimos todos os dias com o fim que levou o Museu Nacional.

Porque o incêndio do Museu não foi um escandolizinho a mais.

Não se compara a um presidentinho corrupto.

Nossos escândalos diários, o tempo e a História hão de dar a devida irrelevância.

Já o Museu era o que tínhamos escolhido eternizar, ao longo de séculos.

Evidentemente que o incêndio suja as mãos de políticos e burocratas.

Esses canalhas que estão demolindo nosso presente e afogando nosso futuro acabaram de incinerar boa parte de nosso passado.

Podem assinar orgulhosos a coautoria dessa obra macabra.

Mas dessa obra somos todos autores.

O nosso descaso atávico com a Cultura deu nisso.

Descaso de raramente frequentar museus.

De não votar pensando em Educação.

Vem de uma vez, meteoro!

E o Museu Nacional, que tantos agora dizem que “iam com os pais”, mas que nunca mais voltaram, em sua imensa sabedoria nos deixou um recado.

E usando a mesma ironia que nos é peculiar.

Assim que as operações de rescaldo começaram, um dos vinte milhões de itens que compunham o acervo do Museu estava ali, no hall de entrada, intacto.

Bendegó, o maior meteorito já encontrado em solo nacional estava impávido, cercado pelo que sobrou do Museu, ostentando suas mais de cinco toneladas.

Inevitável pensar no Museu rindo de todos nós.

Vocês pediram um meteoro.

Aí está ele.

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Mentor Neto

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