Artes Visuais

Velocidade máxima

Coleção de vídeos de instituição alemã ganha exposição em São Paulo. A montagem ressalta volatilidade dos trabalhos e da cultura visual contemporânea

Crédito: Divulgação

CINEMA “Destroy she said” (1998), de Mônica Bonvicini: mulheres nervosas (Crédito: Divulgação)

O TEMPO MATA – IMAGEM EM MOVIMENTO NA JULIA STOSCHEK COLLECTION/ SESC Avenida Paulista, SP/ até 16/6

O mineiro Rodrigo Moura, anunciado esta semana como o novo curador chefe do Museo del Barrio, em Nova York, despede-se do Brasil com duas mostras importantes, “Djanira: A Memória de seu Povo”, no Masp, e “O Tempo Mata”, no Sesc Avenida Paulista. O recorte produzido sobre a coleção da alemã Julia Stoschek é uma oportunidade de ver obras de primeira grandeza da produção artística em vídeo, filme e novas tecnologias, pouco acessíveis no Brasil.

COLAGEM ‘‘APEX’’ (2013), vídeo de Arthur Jafa: instalação imersiva que convida à meditação (Crédito:Divulgação)

O título da mostra, tradução de “Time Kills”, é extraído de um frame de um vídeo de Chris Burden, pioneiro da videoarte norte-americana. O artista, aqui representado pelo vídeo “The TV Commercials” (1973-1977), é mais conhecido pela videoperformance “Shoot” (1971), em que se submete ao um tiro de espingarda, numa analogia ao poder de fogo das câmeras. Os trabalhos em exibição foram produzidos nos últimos 60 anos, desde que a imagem – eletrônica e digital – começou a assumir protagonismo na vida contemporânea. “É menos uma questão de técnica e mais de genealogia. Trata-se de pensar como esses trabalhos refletem sobre um mundo inundado de imagens que alteraram nossa percepção”, diz o curador Rodrigo Moura à ISTOÉ.

O vídeo “APEX” (2013), de Arthur Jafa, que foi diretor de fotografia de longas de Spike Lee e Stanley Kubrick, é o ponto de partida de um mergulho na correnteza forte da cultura visual contemporânea. Descrita pelo curador como “uma instalação imersiva que hipnotiza o espectador com sua sequencia de centenas de imagens ordenadas ao som de uma trilha sonora de música eletrônica”, a peça é uma colagem de imagens de ícones da cultura afro-americana e “possibilita uma profunda meditação sobre as relações raciais e sua representação visual”.

CLOSE UP “Palisades in Palisades” (2014), videoinstalação de Rachel Rose: detalhes

Outro grande arquivo visual é “Destroy she said” (1998), videoinstalação de Monica Bonvicini, construída com fragmentos de filmes clássicos dos anos 1960. Esta pode ser considerada outra obra chave da exposição, pois o mesmo critério adotado pela artista para a seleção das imagens foi usado pelo curador para a montagem da mostra. Bonvicini usa imagens de personagens femininas em situações de grande carga emocional, interagindo dramaticamente com os espaços arquitetônicos dos cenários dos filmes. Moura optou por uma montagem em que os vídeos escapam às previsíveis projeções em salas escuras, se espalhando pelo edifício do Sesc, ocupando espaços improváveis, como a fachada, as janelas, o mezanino. “Me senti desafiado a trabalhar com a arquitetura, oferecendo diferentes formas de fruição ao espectador”, diz. O resultado é uma fricção entre as imagens e o espaço, fazendo da exposição uma experiência sensorial e, por que não, sensual.

Roteiros

SP-Arte faz 15 anos e América Latina é a cereja do bolo

SP-ARTE/ Pavilhão da Bienal, Parque do Ibirapuera, SP/ de 4 a 7/4

A 15ª edição da SP-Arte, a feira internacional de arte de São Paulo, que acontece a partir de quarta-feira 4, é uma ótima oportunidade para a alemã Julia Stoschek preencher uma lacuna de sua coleção, atualmente em exibição no Sesc Avenida Paulista. Duas pioneiras da videoarte no Brasil, Leticia Parente e Analívia Cordeiro, são os destaques da Galeria Jaqueline Martins, em exibição no setor Masters, que apresenta obras dos anos 1950 aos 1980.

Este ano, com 2 mil artistas de 15 países, a SP-Arte festeja suas 15 primaveras e a cereja do bolo é a América Latina. “Os mercados do eixo Sul são os mais desassistidos em feiras internacionais. Isso deve ser fomentado aos poucos, ao propor diálogos e aproximações”, diz à ISTOÉ Fernanda Feitosa, diretora da feira. Feitosa convidou a chilena Alexia Tala, curadora chefe da Bienal Arte Paiz, que acontecerá na Guatemala, em 2020, para comandar o setor Solo, composto por exposições individuais. Tala traz a São Paulo o paraguaio Feliciano Centurión, da galeria Walden, da Argentina, e Maria Edwards, da Galeria Patricia Ready, do Chile, entre outros. A curadora também participa de uma mesa redonda sobre a relação do Brasil com seus países hermanos.

Outras atrações incluem o setor OpenSpace, com curadoria de Cauê Alves, curador do MuBE, com esculturas em grande escala distribuídas pelo parque Ibirapuera. Em diálogo com o que restou do paisagismo de Burle Marx e com os atletas que correm nas trilhas do parque, teremos instalações de Helio Oiticica (Arte57), Amelia Toledo (Galeria Marcelo Guarnieri), André Komatsu (Vermelho) e Eduardo Navarro (Nara Roesler). ”Temos uma ótima expectativa. Historicamente, a SP-Arte é a nossa principal feira e São Paulo é a nossa casa”, diz Alexandre Roesler, sócio da galeria Nara Roesler, que tem unidades em São Paulo, Rio e Nova York. “Apesar do momento ainda conturbado, os primeiros meses do ano indicam que os colecionadores estão otimistas com a expectativa de crescimento da economia e esse bom humor pode refletir em uma retomada também do crescimento do mercado de arte no Brasil”, diz ele.

O setor Performance este ano terá obras de AVAF (Casa Triângulo) e Jaime Lauriano (Galeria Leme/AD), que vai trocar as estrelas da bandeira do Brasil por sementes de Pau Brasil. “A SP-Arte vai comprar uma performance e doar para a Pinacoteca”, adianta Feitosa. O trabalho deverá custar até R$ 30 mil. Este é o terceiro ato filantrópico da SP-Arte. A primeira vez foi uma obra Mira Schendell, doada para o MAM-SP. PA