ISTOÉ 2016

Velejadores treinam manobras para tirar lixo de quilha na Baía de Guanabara

O lixo flutuante na Baía de Guanabara ainda é preocupação para os atletas da vela, a pouco menos de um mês e meio dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. A tal ponto que retirar plásticos e objetos da quilha está entre as manobras treinadas por Isabel Swan e Samuel Albrecht, da classe Nacra 17, a mais veloz das provas de vela. Os possíveis efeitos à saúde da água poluída foram minimizados pelo veterano medalhista Robert Scheidt. “Em 25 anos, nunca tive infecção, gastroenterite, nada. Pode ser que algum atleta venha a ter algum mal-estar, mas estão exagerando nessa questão.”

Isabel, embaixadora da candidatura da cidade à Olimpíada em 2009, se diz frustrada. “Um mês antes, a única coisa que se pode fazer é tirar o lixo das raias de competição. Para a prática esportiva estará ok. O Rio vai entregar a Baía até melhor do que eu esperava. Mas houve um compromisso que não foi cumprido. Esse projeto não é prioridade para o Brasil. Mas vou continuar lutando, trabalhando por isso, mesmo depois dos Jogos”, afirmou.

O barco de Isabel e Samuel Albrecht virou no evento-teste, em agosto do ano passado, por causa do saco plástico que grudou no leme. “A gente treina para retirar algum lixo da quilha ou da bolina para não atrapalhar a regata. Mas espero que a gente não sofra influência deste tipo de situação. Mas estamos treinados para se, eventualmente, acontecer. Outras equipes estão também se preparando”, disse ela.

Para Ricardo Winiki, o Bimba, o Brasil perdeu a oportunidade de despoluir a Baía de Guanabara. “Deixar um estádio, é bom para um esporte. Deixar o metrô, é bom para a cidade. Mas limpar a baía seria bom para o País inteiro. Acho que não vão fazer nunca mais.”

Os velejadores estão reunidos por uma semana na Escola de Educação Física do Exército, na Urca, zona sul. Segundo o coordenador técnico, Torben Grael – cinco medalhas em cinco Olimpíadas – é uma estratégia para dar “senso de equipe” ao grupo, pois a vela é formada por times isolados.

Para ele, pela primeira vez, as mulheres têm mais chance de medalhas do que os homens. Torben aponta para o favoritismo das duplas Martine Grael (sua filha) e Kahena Kunze da classe 49erFX, Fernanda Oliveira e Ana Barbachan, da 470. Entre os homens, Torben aponta haver boa chance de o campeão Robert Scheidt, que volta a competir pela Laser, depois que a classe Star saiu do programa olímpico.

Scheidt, cinco medalhas olímpicas, é a referência do grupo. “É o primeiro a treinar. A disciplina dele é um exemplo”, comenta Fernanda Oliveira, medalhista de bronze em Pequim, com Isabel. “Não ser o favorito me deixa numa posição um pouco mais confortável. Estou bem tranquilo. Sei da minha realidade, do meu potencial. De maneira nenhuma eu vejo minha situação como negativa. É extremamente positiva. Estou aqui para disputar a sexta Olimpíada, brigar de igual para igual. Aconteça o que acontecer, vou sair daqui de alma lavada”, afirmou ele.

Scheidt, de 43 anos, diz saber que não teria o favoritismo da Laser, como aconteceu antes, quando foi bicampeão olímpico (1996 e 2004). “Mas me surpreendeu ter chegado no nível de competição em alguns meses. Isso acendeu a concorrência também, deu uma chacoalhada. São caras com preparo físico excepcional. Laser sempre exigiu muito, mas o nível de profissionalismo dessa garotada é muito bom.”

A mulher dele, a velejadora Gintare Scheidt, competirá pela classe Laser Radial pela seleção da Lituânia. Ela treinou no Rio na semana passada. “Costumo dizer que nossa família tem chance de duas medalhas. Nós e a família Grael, com dois irmãos participando (Martine e Marco).” No período intenso de treinos e competições, os filhos de 6 e 3 anos ficam com a avó. Em agosto, Erik vem ao Brasil acompanhar os pais.