Brasil

Vazamento capcioso

À pretexto de expor adversários, Bolsonaro divulgou dados sigilosos do BNDES sobre a compra legal de aivões com financiamento do órgão

Crédito: Divulgação / Ministério da Economia

QUEBRA DE SIGILO O presidente do BNDES, Gustavo Montezano, divulgou dados de forma indevida sobre negócios legais do banco (Crédito: Divulgação / Ministério da Economia)

O presidente Jair Bolsonaro criou um falso escândalo ao revelar que o BNDES financiou a compra de 134 aeronaves da Embraer em 2009, com juros abaixo do mercado, num total de R$ 2 bilhões. A pretexto de dizer que o negócio foi um dos que compuseram a “caixa preta” do banco estatal, o presidente usou de má-fé, revelando dados sigilosos envolvendo seus adversários políticos, como o apresentador de televisão Luciano Huck e o governador João Doria. Eles adquiriram os aviões de forma legal, com os juros estabelecidos pela lei 12.096/2009, aprovada pela Câmara, mediante normas estabelecidas pelo Conselho Monetário Nacional. O projeto objetivou incentivar as vendas da Embraer e fez parte do Programa de Sustentação do Investimento (PSI). E, pasmem, a lei recebeu o voto favorável do então deputado Jair Bolsonaro, que estava no Partido Progressista, da base de apoio do presidente Lula, autor da proposta.

Empréstimos legais

O ardiloso vazamento de Bolsonaro, com base em dados que lhe foram passados à sorrelfa por Gustavo Montezano, presidente do BNDES, foi mais um gesto impensado do presidente, que reagiu a uma declaração de Luciano Huck. Na semana passada, o apresentador da TV Globo disse que Bolsonaro representava o caos administrativo. O presidente respondeu com o fígado. “Ele falou que eu sou o último capítulo do caos. Se ele comprou jatinho, ele faz parte do caos. Não fica não arrotando honestidade que o bicho vai pegar”, disse o presidente, ameaçando divulgar os tais detalhes do financiamento do BNDES. Para o presidente, o empréstimo concedido “não foi legal”. Huck, no entanto, demonstrou que comprou e está pagando todas as prestações em dia.

Na verdade, o PSI para a compra de aviões da Embraer, com juros de 3% a 4%, realmente representou um subsídio da ordem de R$ 693 milhões, mas os empresários que recorreram ao programa de forma legal não podem ser acusados de irregularidade alguma. O estranho, portanto, não foi a compra dos jatinhos, mas a forma incorreta do presidente vazar dados sigilosos para atingir adversários.

O uso da estrutura da máquina pública com a finalidade de prejudicar adversários foi um dos motivos que levaram os eleitores a rejeitar o PT nas urnas no ano passado e eleger Bolsonaro. Não faz sentido, portanto, que o presidente use os mesmos métodos petistas para expor quem o critica, mesmo que em muitos momentos eles apoiem a política de reformas do presidente. Bolsonaro foi, no mínimo, capcioso.

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