O Vaticano lançou nesta sexta-feira (20) uma iniciativa que conclama as instituições católicas a deixarem de investir no setor de mineração, a fim de privilegiar setores éticos em termos de impacto ambiental.
O projeto se baseia na rede ecumênica Igrejas e Mineração da América Latina, que denuncia desde 2013 a violência ligada à expansão da mineração, com o apoio de mais de 40 instituições.
Seus coordenadores convocaram às organizações católicas a romper laços financeiros com o setor de mineração, sem especificar o alcance que esta ação teria.
“Em muitas regiões do mundo, a expansão da indústria mineira causou profundas tensões sociais e graves consequências ambientais”, disse o cardeal italiano Fabio Baggio, número dois do departamento do Vaticano responsável pelas questões ambientais, em uma coletiva de imprensa.
O bispo brasileiro Vicente Ferreira também destacou a preocupação com o avanço da inteligência artificial, que provocou uma explosão na demanda de minerais como o cobalto para fabricar ímãs, baterias e componentes indispensáveis para os serviços informáticos.
“A inteligência artificial é um bom exemplo de quantos recursos minerais as empresas tecnológicas consomem”, afirmou o bispo, que pediu a estas empresas que tratem os trabalhadores de forma justa e que respeitem o meio ambiente.
Esta iniciativa é inspirada na encíclica Laudato Si’ (2015), um manifesto histórico do papa Francisco sobre a proteção do meio ambiente, que desenvolveu o conceito de ecologia integral.
Nesta linha, em 2020 o Vaticano pediu às instituições católicas que não invistam em indústrias de combustíveis fósseis e de armamento.
O papa Leão XIV seguiu o mesmo caminho e defendeu a necessidade de proteger a natureza e os direitos trabalhistas.
“É essencial escutar a voz das comunidades que sofrem diretamente com as dificuldades e os conflitos causados pela exploração de minérios, legal e ilegal”, afirmou cardeal Baggio.
“Não podemos ficar calados diante das injustiças flagrantes”, acrescentou.
Muitas destas comunidades, que pertencem às “periferias” das quais o papa Francisco se tornou porta-voz, vivem na América do Sul, África ou Ásia.
O cardeal Alvaro Ramazzini, bispo de Huehuetenango (Guatemala), denunciou, por sua vez, a exploração do ouro em seu país, onde os lucros vão para os países do Norte e é a população local que sofre com a contaminação por cianeto.
“A questão é fazer com que os governos e as empresas compreendam que legalidade nem sempre coincide com justiça”, destacou.
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