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Vargas Llosa volta à história latino-americana com ‘Tiempos recios’

Vargas Llosa volta à história latino-americana com ‘Tiempos recios’

O escritor e Prêmio Nobel de Literatura peruano Mario Vargas Llosa durante a apresentação de seu livro "Tiempos Recios" na Casa de América, em Madri, em 8 de outubro de 2019 - AFP

O escritor peruano Mario Vargas Llosa apresentou seu romance “Tiempos recios” (“Tempos difíceis, em tradução livre) nesta terça-feira (8), um novo mergulho na história da América Latina para abordar o golpe na Guatemala em meados da década de 1950, que marcou o futuro da região por décadas.

Misturando história e ficção, assim como em “A festa do bode” (2000), com o qual compartilha personagens, o livro mostra “o lado mais antiquado e retrógrado de uma América Latina” das ditaduras que felizmente “está desaparecendo”, indicou em coletiva de imprensa em Madri.

O novo romance do prêmio Nobel de Literatura, à venda a partir desta terça na América Latina, Espanha e Estados Unidos, usa histórias cruzadas para compor os anos antes e depois do golpe de Estado contra Jacobo Árbenz em 1954.

Árbenz era um presidente eleito democraticamente que buscou modernizar a Guatemala, mas em plena Guerra Fria.

A poderosa empresa americana United Fruit se sentiu ameaçada por suas reformas sociais, e ele foi acusado de ser um agente soviético por Washington, que usou a CIA para derrubá-lo.

Um grave erro, na opinião de Vargas Llosa, já que foi “um acontecimento neurálgico” que reverberou em toda a América Latina e que a condicionou por décadas.

– Meio século de atraso –

A queda de Árbenz propiciou uma imagem negativa dos Estados Unidos e “levou muitos jovens latino-americanos, eu entre eles, (…) a desacreditar na democracia e pensar no socialismo, no paraíso comunista, na revolução à maneira dos cubanos, e iniciou um período terrível de matanças e terrorismo” na região, apontou.

“Se os Estados Unidos em vez de derrubar Árbenz tivessem apoiado as reformas (…) provavelmente a história da América Latina seria outra, provavelmente Fidel Castro não teria se radicalizado e virado comunista, nem Che Guevara, que, na Guatemala nesse momento, refugiou-se na embaixada argentina quando se desatou a “febre anticomunista”.

“Isso nos atrasou mais meio século”, disse o escritor peruano de 83 anos, que em sua juventude foi seduzido pela Revolução Cubana, mas depois a renegou e há décadas é defensor das democracias liberais.

De qualquer modo, o autor esclareceu que seu novo livro “é um romance” e não “um livro de história”.

“Eu pesquiso para mentir com conhecimento de causa, para poder criar, fantasiar a partir de material real”, indicou Vargas Llosa.

Apesar de ter uma carreira de mais de 60 anos, que lhe rendeu além do Nobel muitos prêmios como o Cervantes e o Príncipe de Asturias, Vargas Llosa confessou sentir “terror” e “pânico” diante da página em branco.

“Nas artes, a prática não dá segurança, pelo contrário, eu me sinto mais inseguro agora ao começar um romance do que quando escrevi meus primeiros contos”, apontou.

Talvez seja “o medo de decepcionar um público que você sabe que já tem” ou o fato de ter que se isolar “com fantasmas, sonhos, fantasias e materiais que têm que se transformar em literatura”, acrescentou.