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Entrevista

Utopia não existe, mas continuo acreditando

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Utopia não existe, mas continuo acreditando

Luís Antônio Giron
Edição 31/08/2018 - nº 2541

Ele tem embalado sucessivas gerações desde os anos 1960 — seja em parceria com Roberto Carlos, seja nas músicas que gravou sozinho ou naquelas ao lado de grandes estrelas da música brasileira. Aos 77 anos, Erasmo Carlos acaba de lançar seu 31º disco, “Amor é isso”. Ele também receberá dois prêmios que confirmam seu talento inimitável: o de Compositor Brasileiro, oferecido pela União Brasileira dos Compositores (UBC), e o Prêmio à Excelência Musical do Grammy Latino. Casado há três com a pedagoga paulistana Fernanda Passos, de 28 anos, Erasmo diz ter mudado seu jeito de compor, preferindo escrever poemas a melodias. Apaixonado, ele diz que foi convencido pela mulher a trocar a bebida pela pipoca e a vida noturna por filmes da televisão. Nesta entrevista dada a ISTOÉ no saguão de um hotel em São Paulo, Erasmo falou sobre o “amor como conceito”, sua desilusão com a política e disse o que pensa da descriminalização das drogas.

Seu novo disco é sobre o amor. O que é o amor para você hoje?

Decidi abordar o amor como um conceito. Aquele amor maior que engloba todos os tipos de amor. Aquele amor sem preconceito, grande, infinitamente elástico, que abraça todos os tipos de amor que a gente tem: amor pelos pais, pelos filhos, pelos objetos, por Deus. Um amorzão que abraça tudo.

Foi esse amorzão que fez você mudar seu jeito de compor?

Pela primeira vez eu coloquei as músicas em forma de poesias. Eu nunca tinha feito isso. Sempre fiz o contrário, eu letrei músicas. Durante sete anos eu escrevi poemas para a minha mulher, Fernanda, e fiquei com 111 poemas. Eles serão editados em um livro no ano que vem. Pedi então ajuda a amigos que lidam com poesias, como a Adriana Calcanhotto e o Arnaldo Antunes. Foi uma experiência que fiz para esse disco. Não quer dizer que vou fazer isso para sempre. Sou muito inconstante nesse ponto. Sou ávido pelo novo, procuro sempre fórmulas novas.

Esse é o segredo de se manter atualizado?

Nunca foi com essa intenção, mas acho que é uma coisa que me move, esse desejo de participar das coisas que estão acontecendo agora. Não adianta nada viver do passado. Poderia facilmente viver até hoje da Jovem Guarda, fazendo show. Mas não. Quero estar vivo agora, mostrar que estou vivo agora, atuante, estou antenado, que meu momento é agora. O período da Jovem Guarda foi lindo, maravilhoso, todas as vezes que fecho os olhos me lembro dela. Ela sempre vai ter o cantinho dela. Mas passou.

Você nunca teve similares ou imitadores. A que você atribui o fato de ser, como diria Roberto, “inimitável”?

Acho que a minha personalidade não é fascinante a ponto de despertar em ninguém o desejo de ser parecido comigo. Ou então, sem modéstia, eu sou único, inigualável e inimitável. Tem gente que acha que quando faço música é algo tão íntimo, para mim, que só eu mesmo posso interpretar. Saca? Minhas músicas não são muito regravadas porque meu estilo é único. Eu dou uma carimbada nelas e pronto. A não ser as parcerias com o Roberto Carlos, que são músicas românticas universais. Essas são muito regravadas.

Você foi pioneiro em fazer o elogio de uma transexual, a Roberta Close. O que você tem a dizer sobre o modo como a sociedade brasileira vê os transgêneros hoje?

Não foi bem um elogio. Na música eu era um cara neutro, como um fotógrafo cuja lente revela a história. Nem a conhecia. Quando eu fiz o videoclipe tudo isso estava começando. Contei a história da Roberta Close e o departamento de marketing da Polygram achou que ela deveria ser convidada para participar do clipe. Hoje acho que essa situação é superevolutiva, da ordem natural das coisas. Os tempos vão mudando, você vai tendo consciência de outras coisas, o pensamento vai sendo reajustado, os valores vão sendo mudados dependendo da necessidade do progresso, da época e da evolução da cultura das pessoas. Eu não vejo esse processo com os olhos estapafúrdios com que a maior parte do público vê. Eu vejo uma coisa normal que tem que acontecer e vai acontecer. Não se pode deter o progresso. Você pode lutar contra, se quiser, mas vai morrer na praia, bicho. É preferível você entender, fazer uma reflexão, e nadar a favor da maré. Porque não dá pra impedir a evolução da humanidade.

E a diversidade sexual?

Regrediu tudo. Porque o sistema achata e molda você como ele quer. Toda geração que surge está cheia de revolta, de contestação. Começa a xingar os pais, a família, os professores. Mas aí o sistema achata e ele volta a ser um carneirinho contente a serviço do sistema. A sexualidade não está relacionada ao entretenimento, está ligada à vida, ao bem-estar.

Como você o compara o feminismo de hoje com aquele dos anos 1960?

As mulheres estão ainda tentando impor seus valores, suas ideias. E suas conquistas devem ser valorizadas. É preciso ter muita determinação nas coisas. Não é um protestinho que deve ser feito, é um protestão. As coisas funcionam assim. Tem que impor mesmo. Acho que pela seriedade da coisa, que vem arrastada há vários anos, elas deviam se unir muito mais e fazer algo muito grande, em vez de fazer coisas pequenas. O que tem que ser, será. Se o sistema age errado com as mulheres, isso será consertado no futuro. Pode demorar mais ou menos, não se sabe. Isso depende das manifestações, das leis que serão criadas, dos debates, das guerrilhas que serão feitas. Então, que se faça uma guerra mundial para encurtar esse processo.

Você é a favor da legalização do consumo e da comercialização das drogas?

Falar das drogas assim você me compromete. É preciso exemplificar. Se você falar da maconha, eu digo que deve. Sobre liberar outras drogas eu tenho restrições. Cocaína não vai ser liberada. A maconha deveria ter olhares mais simpáticos das autoridades. Acho uma evolução pensar no assunto. Nos Estados Unidos, por exemplo, você já percebe pequenas mudanças. Um estado liberou assim, outro liberou para fins medicinais. Em países como o Brasil não há boa vontade com nada, ninguém nem toca no assunto. Joga tudo para debaixo do tapete. Acho uma vergonha isso. E estamos falando da maconha, mas existem diversos outros assuntos muito mais importantes, como a educação e a saúde, que deveriam ser tratadas como prioridade, com carinho, mas não são. Quando uso esse espaço que você está me dando para falar de maconha eu me sinto injusto, porque acho que a saúde, a educação merecem muito mais esse assunto.

Vamos falar disso também. Como você vê o Brasil hoje, na educação, na cultura, no ambiente geral?

Nunca imaginei que chegaria a esse ponto, tirando a ditadura, claro. A corrupção foi um choque. Achei que a honestidade não deveria ser algo elogiado, porque é uma obrigação do ser humano. É uma forma de conviver na coletividade, de ser uma pessoa melhor. Com o decorrer do tempo, tomei conhecimento do que os políticos fazem e fiquei estarrecido. Fico pensando em pequenas coisinhas: como um político corrupto, pai, olha para os filhos? A família dele é corrupta também? Eles participam? O filho tem vergonha do pai, ou é conivente? Ponho em dúvida alguns valores. Me pergunto se estava certo ou se fui um babaca esse tempo todo. Agora, decidi continuar a ser como sou, honesto como sou. Mas tenho vergonha de ser contemporâneo de alguns políticos que estão aí.

Você ainda acredita na política?

Não acredito. Acho que a juventude não acredita também, porque os exemplos são péssimos, e eu não vejo novos mitos se formarem na política. Não vejo surgirem políticos carismáticos capazes de congregar multidões com ideias lindas, maravilhosas, realmente feitas para consertar o país. Isso me entristece muito como cidadão. Sei que a utopia não existe, mas continuo acreditando.

Você escolheu seus candidatos para as próximas eleições?

Eu não estou mais na idade de votar. Nas últimas vezes que votei eu fui contrariado, porque não acho que o voto deve ser obrigatório. Não tenho que votar, não sou obrigado. A democracia me permite não votar. O voto é um direito seu, não uma obrigação. Eu ficava puto da vida quando tinha que ir. Então, acho que não vou mais votar.

Você cantou com o Emicida. Como é essa experiência de gravar ao lado de músicos de diferentes gêneros e gerações?

Eu sou geminiano. Metido a besta. Se um escultor explicar, em dez minutos, como fazer o que ele faz, o geminiano vai se achar capaz de fazer a mesma coisa. Quando conheci o Emicida quis participar do discurso dele, me apresentar com ele. Entendendo a arte dele eu enriqueço a minha, eu aprendo com ele, me fortaleço. Aprendo com Marisa Monte, como aprendi com Roberto Carlos, com Caetano Veloso, com Arnaldo Antunes, Nando Reis, e tantos outros parceiros.

Você é um homem muito dedicado à carreira. Sobra tempo para a família?

Eu sou muito recluso à minha casa, com minha mulher, a Fernanda. Nossa vida é ver uma televisão, uns esportes, fazer churrasco com os filhos e os amigos dos filhos, ir ao cinema, comer pipoca. Isso era algo que eu não fazia há muito tempo. Nos anos 1970 e 1980 eu perdi tempo bebendo em vez de comer pipoca. Essas coisas assim. E trabalhando pra caramba, viajando, pegando a estrada, avião, hotel. Essa é minha vida e estou mais feliz do que nunca. Moro na Barra da Tijuca, bem tranquilo. Tenho momentos sagrados na minha vida em que não faço nada.

Já pensou em fazer um musical com suas canções?

Já me propuseram. Acho legal. Claro que há musicais medíocres e outros espetaculares. Se fizessem um musical meu teria que ser espetacular, e para isso teria que ter as obras de Erasmo e Roberto Carlos. Porque ali que está a nossa grande contribuição para a música brasileira, definitiva, e irretocável.

Você continuará a fazer música? O público não precisa se preocupar?

Enquanto eu estiver com a mente sã eu vou fazer música. Mesmo se, fisicamente, pela idade, eu não puder fazer mais shows, música eu vou fazer sempre. Porque eu sou um compositor, não sou cantor. Eu não preciso do palco para viver. Eu preciso da minha mente para compor.

Colaborou André Sollitto

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