Comportamento

Usuários de drogas são ‘população de alto risco’ em pandemia, alerta Opas

Usuários de drogas são ‘população de alto risco’ em pandemia, alerta Opas

Um homem é internado no Hospital Bocalandro após consumir cocaína aparentemente adulterada com opioides, em Loma Hermosa, província de Buenos Aires, Argentina, em 3 de fevereiro de 2022. - AFP

A pandemia agrava a situação das pessoas com transtornos por uso de drogas, que também enfrentam maior risco de sofrer complicações de saúde por covid-19, alertou a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas).

Na semana passada, a morte de pelo menos 24 pessoas e a hospitalização de outras dezenas na Argentina por consumo de cocaína, aparentemente adulterada com opioides, revelaram um crescente problema de saúde pública na região, intensificado nos últimos dois anos pela emergência sanitária causada pelo coronavírus.


“Usuários habituais e problemáticos de substâncias psicoativas constituem uma população de alto risco no contexto da pandemia”, disse à AFP Luis Alfonzo, assessor da Opas sobre o consumo de drogas.

A incerteza sobre a doença, os confinamentos para evitar o contágio, o fechamento de escolas, locais de trabalho e locais de entretenimento, perda ou deterioração do emprego e a crise econômica em geral aumentam a predisposição ao uso de substâncias como mecanismo de enfrentamento, explicou.

Essas não são as únicas circunstâncias associadas a problemas do consumo de drogas no contexto da pandemia.

Alfonzo mencionou a alteração na cadeia de tráfico e comercialização habitual das substâncias, algo apontado pelas autoridades argentinas em relação à recente intoxicação em massa.

Por outro lado, a escassez de alguns medicamentos pode levar a crises de abstinência e o consumo solitário resulta em overdoses graves, cuja atenção imediata pode ser dificultada pela sobrecarga que os serviços de emergência já enfrentam devido à covid-19.

Outro fator é a promoção do uso de substâncias por meio de campanhas de desinformação, que atribuem efeitos benéficos ou protetores ao álcool, tabaco ou cannabis contra a covid-19.

– “Maior vulnerabilidade” –

“O uso de drogas é um comportamento de risco, associado ao desenvolvimento de um transtorno de dependência, mas não só isso”, ressaltou Alfonzo.

Infecções, alterações de órgãos e sistemas, distúrbios mentais e neurológicos, problemas cardiovasculares e metabólicos, lesões e envenenamentos são “outras consequências graves”.

E ao ter sua resposta imunitária enfraquecida, os consumidores de substâncias psicoativas têm “uma maior vulnerabilidade e maior probabilidade de morrer e adoecer do que o resto da população, por qualquer causa e também por covid-19”, explicou Alfonzo.

“Fumantes, de tabaco e também de outras substâncias, como maconha, cocaína fumável, entre outras, têm maior risco de contrair o coronavírus e sofrer complicações, o que se soma às dificuldades em seguir um calendário de imunização ou tratamento”, acrescentou.

– Minimizar o prejuízo –

Na América Latina e no Caribe, 17 milhões de pessoas entre 15 e 64 anos consumiram drogas em 2018 e acredita-se que 19 milhões o farão em 2030, de acordo com o Relatório Mundial sobre Drogas 2021 do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime UNODC).

“Isso pode aumentar a carga associada aos transtornos por uso de substâncias nos sistemas de saúde da região, que está desproporcionalmente concentrada em países de baixa e média renda”, alertou a Opas em dezembro, lançando um plano para melhorar as capacidades nacionais para responder a esse problema.

O projeto, que presta apoio técnico à Colômbia, Costa Rica, Equador, Guiana, Jamaica e Panamá, busca desenvolver programas para abordar o uso de drogas a partir de um enfoque de saúde pública.

Mas a Opas apoia iniciativas de análises de drogas para que os consumidores saibam o que estão tomando?

Segundo Alfonzo, “medidas efetivas devem ser tomadas, baseadas em evidências, para evitar ou reduzir a possibilidade de ocorrência de eventos adversos associados ao consumo”.

“Algumas medidas que podem ser controversas, como a distribuição de material estéril para injeção, testes analíticos para identificação de substâncias ou salas seguras de injeção, têm uma lógica dentro da saúde pública, pois visam reduzir ou evitar a possibilidade de doença e morte”, disse.

“No entanto, nem todas são aplicáveis em todos os contextos e precisam ser avaliadas pelos responsáveis de cada país pela definição das políticas de saúde”, destacou.