Pesquisadores de duas universidades públicas brasileiras, o Hospital Universitário Cassiano Antônio Moraes da Universidade Federal do Espírito Santo (Hucam-Ufes) e a Universidade de São Paulo (USP), unem-se a um consórcio internacional liderado pela Faculdade de Medicina da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, na busca por novos tratamentos e pela cura da hepatite B. O estudo, que visa entender o comportamento do vírus em nível celular, acaba de ser iniciado no Brasil e se estenderá por cinco anos, integrando pesquisa científica básica com a prática clínica.
Esta iniciativa global, retomada em 2025, inclui equipes de pesquisa do Brasil, Índia, Senegal e Uganda, com o objetivo ambicioso de erradicar a doença como problema de saúde pública até 2030, conforme a meta da Organização Mundial da Saúde (OMS).
Consórcio internacional liderado pela Johns Hopkins busca a cura para a hepatite B, com participação de universidades brasileiras.
- A pesquisa observará o comportamento do vírus e as respostas imunológicas em 600 pacientes de diferentes países.
- O objetivo é identificar fatores genéticos e subpartículas virais que possam guiar o desenvolvimento de novos fármacos e tratamentos.
A pesquisa global irá observar, a nível celular, tanto o comportamento do vírus em pacientes de diferentes países como as respostas imunológicas das pessoas infectadas. Serão analisadas também pessoas infectadas ao mesmo tempo por hepatite B e HIV.
“A hepatite B não tem cura, esse é o grande objetivo global”, afirma a professora Tânia Reuter, do Hucam-Ufes e referência no assunto. “O primeiro objetivo é eliminar as hepatites virais, no nosso caso aqui, eliminar a hepatite B como problema de saúde pública até 2030”, enfatiza a pesquisadora.
Pesquisa inédita contra a doença
O consórcio foi criado em 2023, suspenso em 2024 e retomado no ano seguinte. No Brasil, o estudo teve início este ano e deverá durar cerca de cinco anos. A metodologia integra pesquisa científica básica com prática clínica.
Tânia Reuter explica que os pesquisadores irão observar 600 pacientes com hepatite B e com a coinfecção por hepatite B e HIV por cerca de quatro anos e meio cada. Serão 150 pacientes de cada país, e 75 deles serão analisados pela equipe dela no Brasil.
O estudo pretende identificar o que faz com que o vírus evolua diferentemente em cada paciente, quais características genéticas são capazes de proteger as pessoas de uma evolução mais rápida e quais subpartículas do vírus podem funcionar como preditores de cura ou de tratamento.
“Eu quero descobrir alvos que possam auxiliar no manejo para cura da hepatite B”, explica Tânia Reuter. “[O que for achado] pode ser um alvo para desenvolvimento de fármacos, sejam imunoestimuladores, imunomodulador, etc”, diz.
A professora iniciou o recrutamento dos pacientes em julho e, até o momento, conta com 40 participantes. Ela pretende ter o grupo de 75 completo até o final deste ano, com o prazo final dado pela pesquisa até meados de 2027.
“O vírus da hepatite B é um dos maiores causadores de câncer hepático. Câncer primário de fígado ou hepatocarcinoma”, diz Tânia Reuter. “A gente está aqui trabalhando para mitigar a evolução de cirrose e câncer hepático”, enfatiza a professora.
O que é a hepatite B e como se manifesta?
A hepatite B é uma doença viral silenciosa que ataca o fígado. Ela ainda não tem cura e a progressão pode levar a quadros de cirrose, câncer hepático e morte. Segundo a OMS, cerca de 240 milhões de pessoas vivem com infecção crônica, segundo dados de 2024.
Somente no Brasil, segundo o Ministério da Saúde, 276,6 mil casos foram confirmados entre 2000 a 2022.
A hepatite B pode ser transmitida sexualmente e por contato com sangue contaminado, inclusive durante a gestação ou no parto, passando da mãe para o bebê. De acordo com a Sociedade Brasileira de Clínica Médica, o vírus do tipo B é 100 vezes mais contagioso que o HIV.
A meta global da OMS é erradicar o HIV, as hepatites virais e as infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) como ameaças à saúde pública até 2030. Segundo relatório da organização divulgado em julho deste ano, as infecções por hepatites virais anuais caíram 32% globalmente desde 2015, refletindo o aumento na cobertura da vacinação infantil, que alcançou 84% em 2024.
Vacinação é a principal forma de prevenção
De acordo com o Ministério da Saúde, a principal forma de prevenção é a vacina, que está disponível no Sistema Único de Saúde (SUS) para todas as pessoas não vacinadas, independentemente da idade.
Para crianças, a recomendação é que se façam quatro doses da vacina, sendo: ao nascer, aos 2, 4 e 6 meses de idade. Já para a população adulta, via de regra, o esquema completo se dá com aplicação de três doses.
Outras formas de prevenção são o uso de preservativo interno e externo em todas as relações sexuais e o não compartilhamento de objetos perfurocortantes e os de uso pessoal.