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Uma vergonha histórica na ONU

Ao adotar um tom belicista e voltado exclusivamente para as refregas internas, Bolsonaro vira as costas para o mundo ameaçando o comércio e o diálogo multilateral

Crédito:  Don Emmert / AFP
EUA ACIMA DE TUDO Trump foi um dos poucos líderes que cumprimentaram Bolsonaro na ONU. O presidente retribuiu com um “I love you” não correspondido (Crédito:Alan Santos/PR)

O estadista, já dizia Ulysses Guimarães, tem “a posição de suas ideias e não as ideias de sua posição”. Não pode ser um oportunista, aquele que se serve da política em vez de servi-la, e o que só pensa nas eleições futuras e não no futuro do País. É tudo ao contrário do que o presidente Jair Bolsonaro representa e demonstra ser. No púlpito da abertura oficial da 74ª Assembleia Geral da O NU, em Nova York, na manhã da terça-feira 24, o mandatário brasileiro foi ele na essência: um político permanentemente em campanha disposto a atacar inimigos imaginários como se no ringue eleitoral ainda estivesse. Já mira, por óbvio, o pleito de 2022. Os brasileiros – testemunhas de suas diatribes muitas vezes sem nexo e recheadas de informações equivocadas – já estão acostumados. A questão é que, desta vez, o vexame foi internacional – postura essa que pode custar caro ao diálogo multilateral, ao comércio, ao agronegócio e aprofundar o isolamento do País.

Na diplomacia, muitas vezes o tom e a maneira de falar contam mais do que o conteúdo. Bolsonaro parece não compreender essa ou qualquer liturgia que lhe imponha o mínimo de cerimônia. Ao ler um discurso de 32 minutos, preferiu o caminho da retórica belicista, ao adotar um tom contundente e falando quase que aos gritos, como se os microfones não estivessem funcionando, rompendo assim com a tradição dos presidentes nacionais de abrirem o evento com pronunciamentos moderados e pragmáticos.

NÃO VI E NÃO GOSTEI O presidente da França, Emmanuel Macron, disse que não ouviu o discurso porque estava “em uma correria” (Crédito: Ludovic MARIN / AFP)

Desastroso

Na toada do confronto, acusou os principais líderes mundiais de estarem imbuídos do “espírito colonialista” por desejarem colocar suas garras imperialistas na Amazônia, repisando as críticas ao presidente da França, Emmanuel Macron, e à chanceler da Alemanha, Angela Merckel. Mesmo sem tê-los citado nominalmente, depois de saudar a índia Ysany Kalapalo, que ele levou à tiracolo a Nova York em sua comitiva, Bolsonaro lançou petardos aos dois integrantes do G7. “Os ataques sensacionalistas que sofremos por grande parte da mídia internacional devido aos focos de incêndio na região despertaram nosso sentimento patriótico. É uma falácia dizer que a Amazônia é patrimônio da humanidade. É um equívoco dizer que a nossa floresta é pulmão do mundo. Além disso, ainda querem nos impor sanções”, esbravejou. Merkel foi filmada cochilando, enquanto Bolsonaro falava. Já Macron não estava no recinto na hora do pronunciamento.“Ele (Bolsonaro) acabou de perder a última chance de ser respeitado”, disse um dos representantes da ONU presente ao espetáculo verborrágico. Ao final, todos foram unânimes em classificar o discurso de Bolsonaro como desastroso.

Os líderes mundiais, que esperavam ouvir propostas mais pragmáticas de um país aberto a trocas de comércio internacional, acabaram servindo de cobaias para o discurso antecipado do presidente brasileiro em relação às eleições presidenciais de 2022. Afinal, Bolsonaro usou a ONU para atingir os inimigos internos, como se estivesse num palanque eleitoral, ao afirmar que os governos do PT aparelharam e corromperam o Estado. Não que, neste caso, seja mentira. Mas, evidentemente, que a ONU jamais deveria ser o foro adequado para regurgitação de questiúnculas domésticas. O presidente mesmo assim lembrou que esses “inimigos” colocaram o País “em uma situação de corrupção generalizada, grave recessão, altas taxas de criminalidade e de ataques ininterruptos aos valores familiares e religiosos que formam nossas tradições”, um quadro que ele teria vindo para mudar, segundo reverberou em toda sua fala. Nem da facada que levou “de um militante de esquerda” ele se esqueceu. Como se falasse apenas para o seu eleitorado cativo, voltou a repetir a ladainha de que os governos petistas deixaram o País à beira do socialismo com a colaboração de Cuba e Venezuela, que, segundo ele, desejavam transmitir ao Brasil suas ideologias, em “busca de um poder absoluto”. Ao dizer que os médicos cubanos vieram ao Brasil desenvolver o programa “Mais Médicos”, em 2013, como parte desse tipo de ameaça à nossa soberania – acordo classificado por ele como um entendimento entre “o governo petista e a ditadura cubana” -, Bolsonaro elevou a temperatura da Assembléia. Resultado: os diplomatas cubanos deixaram o plenário em sinal de protesto. Foi apenas o termômetro do que ainda estaria por vir.

Para variar, o único líder mundial que lhe conferiu alguma importância foi o americano Donald Trump, que o cumprimentou após o discurso. Não faltaram, no entanto, cenas tão explícitas quanto lamentáveis de subserviência. Bolsonaro chegou ao cúmulo de dizer ao presidente americano que o amava: “I love you”, derreteu-se o capitão reformado. Trump não correspondeu às juras de amor, limitando-se a responder apenas que era um “prazer vê-lo novamente”, mas à noite, em sinal de retribuição amorosa, o presidente americano incluiu Bolsonaro no jantar oferecidos a outros chefes de Estado num hotel novaiorquino, o mesmo em que o brasileiro estava hospedado. Pura firula. Na contramão do aliado norte-americano, no entanto, a maioria dos ex-embaixadores do Brasil em Washington demonstrou estarrecimento com o que foi testemunhado sob os holofotes da ONU. Rubens Ricupero, que além de embaixador americano já foi subsecretário da Organização das Nações Unidas entre 1995 e 2004, lamentou que o posicionamento do presidente brasileiro “vai afetar muito as perspectivas do agronegócio brasileiro”.

Afinal, a Alemanha e França podem impor sanções aos produtos brasileiros, temendo que eles sejam oriundos da área devastada da Amazônia. Ricupero lembrou que, na semana passada, 230 fundos estrangeiros que administram US$ 16 trilhões fizeram um comunicado conjunto pedindo ao Brasil medidas concretas de combate a queimadas e ao desmatamento amazônico. “Depois desse tipo de advertência, se esperaria uma atitude mais conciliadora de Bolsonaro, mas pelo contrário, foi um discurso agressivo. Lido de forma belicosa”, opinou o ex-ministro. O ex-embaixador Roberto Abdeneur também considerou “inábil” o discurso por atacar parceiros do comércio brasileiro, sobretudo alemães e franceses. Para Rubens Barbosa, que foi embaixador em Washington no governo de FHC, Bolsonaro “ampliou as áreas de atrito” que ele mesmo havia criado recentemente com ataques a Macron. Já Marcos Azambuja, ex-embaixador em Paris e Buenos Aires, disse que os ataques de Bolsonaro à Franca e Alemanha foram “gratuitos e desnecessários”. Na quinta-feira 26, o presidente acusou o golpe. Demonstrou incômodo com as críticas, apesar de reafirmar o tom “tiro, porrada e bomba” usual. “Queriam alguém lá que fosse para falar abobrinha, enxugar gelo e passar o pano?”, questionou. “Não fui ofensivo com ninguém. Assisti ao que eu falei. Seria muito mais cômodo eu fazer um discurso para ser aplaudido, mas não teria coragem de olhar para a cara de vocês aqui”, disse a apoiadores no Palácio da Alvorada.

“É uma falácia dizer que a Amazônia  é patrimônio da Humanidade”  Jair Bolsonaro, presidente da República

De novo,o espantalho

O mandatário gosta de usar o PT como espantalho toda vez em que é corretamente questionado. Mas, de certa forma, o que ele fez no palco mundial lembra o vexame protagonizado em 2014 pela então presidente Dilma Rousseff, quando transformou a ONU em palanque de sua campanha à reeleição. Ato contínuo, em entrevista em Nova York, Dilma defendeu o diálogo com o Estado Islâmico, que dias antes havia decapitado reféns. Pode-se dizer, então, que ao adotar comportamento análogo, Bolsonaro “Roussefizou” o discurso. Para além das comparações com o que houve de pior nos seus antecessores, o grande problema é que, ao dar de ombros para as principais nações do mundo, Bolsonaro coloca em risco acordos comerciais que nos seriam vantajosos. Além disso, ao se aliar preferencialmente aos Estados Unidos, o Brasil vira as costas também para a China, que é o maior mercado brasileiro. Enquanto Bolsonaro já visitou os EUA duas vezes em oito meses, os chineses ficam cada vez mais distantes do relacionamento internacional do país. Isso, sem contar na insistência de que seu aliado preferido no Oriente Médio é Israel, visitado por ele logo no início do governo. Vale lembrar ainda que o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu convive com dificuldades incontornáveis para remontar um novo governo e está cada vez mais isolado da comunidade internacional. Quando Bolsonaro disse, já eleito, que poderia mudar a embaixada do Brasil para Jerusalém, o país chegou a ser retaliado por outros países árabes, como Egito, que ameaçaram suspender compras de carne brasileira. Assim, a política isolacionista e antimultilateralista de Bolsonaro pode trazer prejuízos irreversíveis à balança comercial brasileira.

A possível derrocada desses aliados preferenciais, como Trump, às voltas com um pedido de impeachment, e o próprio Benjamin Netanyahu, debaixo de forte pressão, e a possibilidade de que outros também sofram derrotas apavora Brasília. Embaixadores do próprio Itamaraty têm reconhecido internamente que o temor tomou conta dos diplomatas chamados cabeças brancas, ou seja, os mais experientes da turma. Os alarmes, porém, têm sido desprezados pelo comando da chancelaria. As conseqüências, porém, não podem ser deixadas de lado ao sabor das conveniências ideológicas e políticas. Nesta semana, deputados democratas apresentaram uma resolução no Congresso dos EUA pedindo que os acordos com o Brasil sejam suspensos, justamente por conta das atitudes e políticas de Bolsonaro. Ainda que o imbróglio guarde relação com o debate das eleições americanas, o caso revelou como a escolha de Bolsonaro pela aliança com Trump pode afetar a relação de Estado entre Brasil e EUA. “O Brasil está adotando uma postura fanática em seus posicionamentos políticos, sem espaço para o diálogo, tolerância e construções plurais”, lamentou a professora da Universidade Torcuato di Tella, em Buenos Aires, Monica Hirst.

Desde o Barão do Rio Branco, o Brasil, convencido de suas limitações militares e econômicas, decidiu pelo caminho do diálogo multilateral. E, ao não se dobrar quase que de maneira abnegada a uma única potência, como faz Bolsonaro com os Estados Unidos, adquiriu a admiração e o respeito de toda a comunidade internacional. Bolsonaro vai na contramão e o Brasil se isola ainda mais. A tradição de país mediador, aberto e tolerante, cede lugar a um País que considera mais importante a orientação sexual de seus cidadãos que o combate às desigualdades e que prefere o soberanismo ao multilateralismo. A vergonha agora foi internacionalizada. Ao virar as costas para o mundo, o Brasil desperdiça mais uma vez a oportunidade de mostrar que não somos o que já disseram que era o nosso irremediável destino: a transformação numa republiqueta de bananas.

As polêmicas de Bolsonaro

“O Brasil esteve muito próximo do socialismo”

“Nesta época do ano, o clima seco e os ventos favorecem queimadas espontâneas e criminosas. Existem também queimadas praticadas por índios e populações locais”

“É uma falácia dizer que a Amazônia é patrimônio da Humanidade”

“As nossas florestas não estão sendo devastadas e nem consumidas pelo fogo, como diz mentirosamente a mídia”

“A visão de um líder indígena não representa a de todos os índios brasileiros. Alguns desses líderes, como o cacique Raoní, são usados como peça de manobra por governos estrangeiros”

“ONGs teimam em manter nossos índios como homens das cavernas”

“A ideologia invadiu a própria alma humana para dela expulsar Deus e a dignidade com que Ele nos revestiu”

A repercussão internacional

New York Times
O maior jornal americano destacou a vertente ideológica de Bolsonaro, que durante o discurso na ONU atacou os críticos mundiais de sua errônea política de combate aos desmatamentos na Amazônia

The Washington Post
Um dos principais dos EUA, o jornal americano destacou o fato de que Bolsonaro rejeitou os pedidos de ajuda estrangeira para combater as queimadas na Amazônia

The Wall Street Journal
O diário americano de maior prestígio no mercado financeiro classificou o discurso de Bolsonaro como “desafiador”, acusando a mídia internacional de espalhar mentiras e tratar indígenas como “homens das cavernas”

El País
O jornal espanhol de conceito internacional disse que o discurso de Bolsonaro foi “polêmico”, destacando sua fala como de “ultradireita” e “anti-indígena”

The Guardian
O jornal britânico de grande expressão internacional desaprovou o tom beligerante de Bolsonaro, classificando-o como “obcecado por conspiração e profundamente arrogante”

Le Monde
O jornal francês destacou o antagonismo de Bolsonaro com o presidente da França, Emmanuel Macron, afirmando que o brasileiro “mentiu” sobre os dados do desmatamento na Amazônia

 

 

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