Internacional

Uma semana, três presidentes

Em meio às crises política e social e à lambança que impera no cargo de presidente, o Peru tem um novo mandatário – ele assume mais como remendo a um país minado pela corrupção, menos como alguém que esteja à altura da função

Crédito: ERNESTO BENAVIDES

PROTESTOS As ruas de Lima como palco de manifestações: acalmar os ânimos é uma das prioridades de Sagasti (Crédito: ERNESTO BENAVIDES)

Entra para o Guinness Book, no verbete dança das cadeiras, o Peru: três presidentes da República em sete dias. Essa história que vem se desenrolando nas últimas semanas, em um país abombado na economia e socialmente convulsionado, pode ser contada do início para o fim ou de trás para frente que vai dar no mesmo enredo: “incapacidade moral”, figura jurídica da legislação peruana a traduzir, lá, o que aqui também rola com bastante desenvoltura: corrupção. Até a quarta-feira 18, quando narrávamos essa situação, ocupava a Casa de Pizarro, Palácio presidencial localizado em Lima, Francisco Sagasti, que assumira o poder com idênticas promessas ditas por seus antecessores: tirar o Peru da crise econômica, que se deve, sobretudo, a sua base extrativista e sempre vulnerável às oscilações do Mercado de commodities — estima-se que esse ano o PIB do país despenque 14%. Outra promessa, que também é prato frio e feito, foi repetida por Sagasti: cumprir a constituição e dar à população, no ano que vem, eleições livres e democráticas para presidente. Importante detalhe: em se tratando do Peru, nação na qual os interesses populares ficam sempre em segundo plano, não se aconselha apostar sequer um Novo Sol que isso irá mesmo ocorrer (1 Novo Sol equivale a R$ 1,49).

“Estamos vivendo duas crises: a da pandemia do coronavírus e a de seus efeitos na economia” Francisco Sagasti, presidente do Peru (Crédito:Sebastian Castaneda )

As mãos do destino

Francisco Sagasti tem 76 anos, integra o Partido Morado, autodefine-se como um homem de centro e se tornou agora presidente em eleição indireta no Parlamento: de um total de cento e vinte e três congressistas, ele recebeu o apoio de noventa e sete. Sagasti assume em meio à uma onda de protestos que começou contra o ex-presidente Manuel Merino, que comandava o Congresso e colocou a faixa presidencial assim que seu antecessor foi afastado sob a acusação de corrupção: Martín Vizcarra, bastante popular e bastante populista. O imã do carisma de Vizcarra atraía os peruanos, mas tal fenômeno já não ocorria com Merino. Na cabeça da população, a coisa passou a funcionar assim: se Vizcarra é acusado de ser corrupto e Merino é investigado também por corrupção, então fiquemos com aquele de quem gostamos. “Há um desgaste estrutural na política peruana”, diz André Kaysel, professor de ciência política da Unicamp. “Não é sem motivo que todos os governos do Peru, mais cedo ou mais tarde, acabam com alto grau de impopularidade”.

No entra-e-sai envolvendo Merino e Sagasti, o país passou quarenta e oito horas acéfalo, e também isso vai para o Guinness Book, no ítem vacância de poder. Então chegou “Dom Quixote”, apelido de Sagasti devido a sua barba branca, que se tornara congressista havia oito meses, ocupando um dos noves assentos aos quais o partido Moderado tem direito — ele é um dos fundadores da legenda, criada em 2016. Na votação apressada que definiu quem substituiria Merino, já que se temia um golpe diante das crescentes manifestações populares agravadas pela ausência de um presidente, o temperamento moderado de Sagasti foi fundamental. Além disso, o partido Moderado fora o único que votara em peso contra a destituição do popular Vizcarra.

ADEUS Manuel Merino foi cercado por protestos e acusações de corrupção: presidência relâmpago (Crédito:JHONEL RODRIGUEZ)

O fato é que o Peru precisava urgentemente de um presidente, e, assim, as mãos do destino empurraram Sagasti para o cargo. “Dom Quixote foi escolhido, agora vamos trabalhar contra as crises”, twitou a deputada esquerdista Rocío Silva. “Uma de nossas principais lutas é contra a corrupção”. Assim, o novo presidente surge mais como remendo para um país politicamentente roto, menos como alguém que já tenha demonstrado estar à altura do cargo. Quanto à corrupção, a deputada Rocío cobre-se de razão. Desde os tempos de Alberto Fujimori, que presidiu o Peru ditatorialmente entre 1990 e 2000, todos os ex-presidentes vivos encontram-se presos ou sob investigação. E esse, finalmente, é o terceiro ponto que leva o Peru ao Livro dos Recordes.

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