Cultura

Uma recepção cordial para ‘Joaquim’

Terminada a sessão de gala do filme Joaquim no Festival de Berlim, na noite de quinta-feira, 16, (à tarde no Brasil), a comunidade artística brasileira presente levantou cartazes com palavras de ordem sobre a atual situação política do País, com inscrições como “Cinema contra o Golpe” ou o bordão “Fora, Temer”, em alemão.

À tarde, com a imprensa, o diretor Marcelo Gomes fez o que outros diretores já haviam feito para a plateia de seus filmes, mas agora num âmbito maior – a entrevista é transmitida ao vivo e fica no ar no site do festival.

Leu a versão reduzida da carta firmada por diretores brasileiros e apoiadores internacionais. “O Brasil vive uma grave crise institucional. Os direitos civis estão ameaçados. O cinema brasileiro corre perigo etc.” A íntegra está no Portal do jornal “O Estado de S. Paulo”.

Não foi um protesto como o “Fora, Temer” gritado e repetido durante a sessão de Pendular, de Júlia Murat, no Panorama, quarta-feira à noite, mas uma tomada de posição. Se o cinema brasileiro está com 12 filmes em Berlim, se os números indicam avanço no mercado interno, tudo isso é consequência de uma política pública implementada ao longo dos últimos 14 anos. A próxima saída – em abril – de Manuel Rangel, que encerra seu mandato na Ancine, está gerando apreensão. Quem será seu sucessor? Vai entrar para acabar com o que foi tão laboriosamente construído?

Para o cinéfilo que quer saber como foi a recepção ao filme, ela foi lenta, não propriamente morna, muito menos fria. Os aplausos – não uma ovação, mas honrosos – vieram no fim dos créditos, e eles são longos. Pode ser um sonho de brasileiro. O Brasil já ganhou muito ouro em Berlim – dois melhores filmes, três melhores atrizes. Incontáveis pratas. É chegado o tempo de torcer por um melhor ator brasileiro, o excepcional Júlio Machado, que Gomes descobriu na montagem de Incêndios, por Aderbal Freire-Filho. “Gostei muito dele no palco. Fiz um teste, e gostei mais ainda, mas não o escolhi imediatamente.” O diretor continuou fazendo testes. “E o Júlio, que estava deixando crescer o cabelo, me questionava, até quando? Sou muito criterioso nessa coisa de escolher atores, porque eles são a alma do filme.” Não só o grande Júlio Machado, mas também Isabel Zuá. Preparem-se.


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Gomes contou a gênese do projeto. Uma produtora espanhola tinha esse projeto de fazer telefilmes sobre os grandes heróis das revoluções na América Latina. Foi nessa série que César Charlone fez o seu Artigas. Miguel Gomes foi sondado para fazer Tiradentes. “Só aceito se tiver plena liberdade.” Seu filme é sobre o alferes Joaquim José da Silva Xavier, antes de virar o mítico mártir da Inconfidência. O filme abre-se com o mártir, mas só pelo breve momento de uma fala. Joaquim serve à Coroa portuguesa. Quer ser promovido e juntar dinheiro para comprar a alforria da escrava que ama. A promoção não vem, ela foge. Reencontram-se, e, do choque desse reencontro, nascerá o homem revoltado.

“Quando comecei a investigar as relações no Brasil colonial, compreendi que elas moldaram as diferenças de classes que ainda persistem no País. O que nos define não é só a herança portuguesa mas as contribuições dos índios e negros, principalmente iorubas. Ouso dizer que a semente da revolta do brasileiro é nosso sangue negro.” O filme é muito crítico com a época retratada. Numa cena, Joaquim tem de atravessar um rio e explica o significado da expressão “boi de piranha”. É o que talvez seja. A elite colonial – poeta, sacerdote, dono de terras etc. – o chama para confraternizar num jantar, mas o alferes não tem modos à mesa. Pelos olhares, fica claro que não o consideram um “deles”.

Gomes espera lançar o filme logo, em abril, para aproveitar o 21, feriado que homenageia Tiradentes. O filme parece ter sido feito ontem para refletir o Brasil de hoje, mas teve uma longa gestação. O diretor reviu Os Inconfidentes, de Joaquim Pedro. Observa: “Todo filme reflete seu tempo. Aquele era uma reação à ditadura em 1972”. Gomes tem cumprido o protocolo. Lê a carta de repúdio, manifesta indignação pelo que chama de crise institucional. Mas teme, no fundo, que Joaquim vire bandeira. “O Brasil está num clima de Fla-Flu tão grande que isso iria destruir o filme. E acho que ele é de todos os brasileiros. Já pensou? Joaquim foi comprado para a China. Não quero nem sonhar que possa ser boicotado no Brasil.”

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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