Comportamento

Uma princesa à frente do seu tempo

No centenário de morte de Isabel, que libertou os escravizados, vem à tona o tema de sua canonização. Ela foi alma da Abolição e, a partir disso, fortaleceu a Proclamação da República — sonho de poucos idealistas, moído pelas elites da época com uma quartelada

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MISSA DA ABOLIÇÃO Pela foto constata-se a prevalência da presença masculina na vida da monarquia: por três vezes, Isabel comandou os homens do reino (Crédito: Divulgação)

No domingo 14, fez-se o centenário de morte da princesa Isabel, uma das mais significativas personalidades da história brasileira — como filha de dom Pedro II, ela assumiu por três vezes a regência do Brasil imperial, integrando a rara galeria de mulheres em todo o mundo que tiveram plenamente o poder nas mãos no século XIX, ainda que em períodos intercalados. Essa foi a Isabel política. Quanto a Isabel mulher, se é que dá para separar uma da outra, enfrentou chefes de gabinetes ministeriais e latifundiários, contestou viscondes, barões, duques e demais gente que levava títulos nobiliárquicos, provando-lhes que, ao contrário do preconceito reinante, mulher era capaz de governar — e governar bem, com visão de futuro e humanidade. Isabel foi uma mulher muito à frente de seu tempo. Em 14 de novembro de 1821, ela morreu em Paris, onde viveu desde 1889, quando a República foi proclamada no Brasil e os primeiros donos do poder, com a deseducação da petulância, deram vinte e quatro horas para Pedro II e sua família buscarem asilo político. A princesa escolheu a França porque era casada com Luís Filipe d’Orleans, o Conde D’Eu — pela vontade do pai, Isabel teria deixado o caminho livre para a irmã unir-se ao conde, mas nela o amor bateu mais forte no coração. E o coração mandou-lhe, também, bater mais forte o pé. Casou-se.

À época de seu falecimento, os tradicionais jornais franceses “Le Figaro”, “L’Eclair” e “Jornal des Débates” elogiaram-lhe os atos, lembrando justamente o talento político quando assumia a chefia do País. Frisaram o seu destemor em uma sociedade completamente patriarcal. Mais: exaltaram o mérito de ela ter assinado a Lei Áurea, em 13 de maio de 1888, pondo fim à escravatura no Brasil que se alongou por trezentos anos e subjugou pelo menos cinco milhões de negros. Vergonha nacional! E foi ela, Isabel, quem os libertou das senzalas e da chibata. Agora, no centenário de morte, veio novamente à tona um documento que está na Arquidiocese do Rio de Janeiro. Trata-se de um estudo do professor Hermes Rodrigues Nery pedindo à Igreja Católica a abertura do processo de canonização de Isabel — foi seu avô, dom Pedro I, quem homenageou Nossa Senhora Aparecida com o título de Padroeira do Brasil. Mas há de fato a possibilidade de Isabel se tornar santa? Nada é impossível sob o céu: “ainda não dá para saber porque não foi aberto o processo para verificação dos quesitos necessários”, disse à ISTOÉ dom Roberto Lopes, delegado Arquiepiscopal para a Causa dos Santos, no Rio de Janeiro.

A ÚLTIMA FOTO Princesa Isabel, aos 75 anos de idade, em 1921, em Paris: asilo político na França desde a chegada da República (Crédito:Divulgação)

Voltemos às coisas mundanas. Juntamente com a costura da Abolição, dava-se entre a elite política, intelectual e latifundiária o cerzir rumo à Proclamação da República. Ao establishment não mais interessava o império, nem ao próprio imperador. Os proprietários de terras e de escravos resistiram no início à ideia da Abolição e de um Brasil republicano porque receavam que lhes obrigassem a ceder parte de suas posses aos negros libertos, nas quais eles poderiam morar, trabalhar e extrair o sustento. Os articuladores da República, no entanto, não cogitavam essa hipótese porque também eram donos de escravos e territórios, e jamais abririam mão de um centímetro que fosse do chão que lhes pertencia. Dessa forma, não lhes foi muito difícil atrair os latifundiários para as duas causas. Além disso, todas as partes temiam que movimentos de resistência de negros tomassem à frente do processo histórico e repetissem no Brasil o radicalismo visto no Haiti, onde donos do chicote acabaram pendurados em árvores com o corpo balançando, isso quando não acabaram sem a cabeça mesmo. Pode-se dizer, assim, que foram os próprios negros e sua resistência que conquistaram a Abolição. A Lei Áurea, chancelada pela princesa, fez com que o processo se desse de forma institucional. Um ano e seis meses depois veio a Proclamação da República, que completou cento e trinta e dois anos na segunda-feira 15 — um dia depois do centenário de morte da princesa, ou seja, até hoje as histórias dos dois movimentos caminham entrelaçadas.

Pedro II queria que Isabel deixasse o caminho livre para a irmã casar com o Conde D’Eu. Mas o amor bateu mais forte no coração da princesa, e ela, então, também bateu mais forte o pé. Casou com ele.

O vice-presidente Hamilton Mourão disse, para comemorar a data, que ”o povo brasileiro acordou no dia 15 de novembro de 1889 cheio de esperança”. Foi bombardeado nas redes sociais, e com razão. A Abolição da escravatura, que obviamente tinha de ser decretada pela pena, ou, também obviamente, tinha de ser conquistada à força a partir dos quilombos (na verdade a escravatura nunca deveria ter acontecido), relegou os negros à própria sorte, sem terra e sem trabalho e sem casa e sem pão. A República, armada pela mesma elite, deixou o povo à margem do processo — o povo, general Mourão, “a tudo assistiu bestificado”, no testemunho ocular do jornalista Aristides Lobo. No Campo de Santana, no Rio de Janeiro, ele ouvia as pessoas perplexas se perguntarem: “é uma parada militar?”. Isso explica a disfuncionalidade do Exército em nossa vida republicana.