Uma pausa em nosso surrealismo

Entre todas as desgraças impostas pelo atual governo, uma coisa precisamos admitir: em matéria de Olimpíadas esse homem é pé quente.

Impressionante.

Fechamos os Jogos Olímpicos de Tóquio com o recorde histórico de 21 medalhas.

Atletas orfãos de apoio, nos encheram de orgulho e em meio a tanto pessimismo, impuseram um resultado que foi além de todos os prognósticos mais otimistas.

E o presidente, nem em seus sonhos mais megalômanos, imaginaria onde chegamos.

Apesar do governo passar os últimos dois anos sistematicamente esvaziando o esporte e a cultura, o Brasil foi lá e conquistou sua melhor posição de todos os tempos na mais importante competição esportiva do mundo.

Imagino que o presidente deva estar sinceramente orgulhoso, porque desconfio que não faz a menor ideia de qual política seu governo tem em relação ao Esporte.

Ou à Saúde.

Ou à Economia.

O presidente Bolsonaro já demonstrou que não se aprofunda em nenhum assunto relacionado ao seu governo, a não ser sua própria permanência no poder.

A impressão é a de que ele imagina que presidir um País é como pilotar um Boeing.

Só que constantemente em piloto-automático.

Mas nós, a torcida, sabemos bem de onde vieram essas medalhas e que o mérito é exclusivamente dos atletas e de seus patrocinadores.

Lamentável, porque poderíamos ter ido ainda melhor, já que governos podem determinar a performance de seus atletas.

Apesar de o governo passar os últimos dois anos esvaziando o esporte e a cultura, o Brasil foi lá e conquistou sua melhor posição em Olimpíadas

Nos menos radicais, o governo provê recursos para identificar e treinar os potenciais vencedores. Nos mais radicais, mandam os perdedores para a Sibéria.

Por aqui, nenhum dos dois.

Para entender como conseguimos um resultado brilhante mesmo num ecossistema político tão desfavorável, precisamos entender que a performance Olímpica tem a mesma dinâmica de uma grande obra pública. Uma linha do metrô, ou uma usina.

A concepção é feita por um governo, mas o mérito de inaugurar é do próximo.

Assim, para compreender o fenômeno dessa geração de atletas, precisamos lembrar que nossos representantes não surgiram nesses últimos dois anos.

Atletas Olímpicos são semeados durante, em média, uma década antes das competições.

O ex-atleta de Triathlon e ex-chefe dos Esportes de Alto Rendimento por mais de 10 anos durante os governos que precederam Bolsonaro, André Arantes, afirma que a principal mudança deste governo foi deixar de ouvir os diferentes setores do esporte.

Ou seja, o governo atual não apenas ignora os talentos como também não escuta as representações de cada modalidade.

Então, apesar de se beneficiar politicamente com o resultado atual desta Olimpíada, este governo será responsável pelo resultado da próxima.

Se você duvida, guarde esse texto e vamos falar depois de nossa performance em Paris.

Mas não vamos deixar que a política nos tire o gosto deste incrível resultado: 7 medalhas de ouro, 6 de prata e 8 de bronze.

A gente precisava disso.

Mesmo.

A cada grito que dei, feito um maluco, diante da TV quando nossos atletas conquistaram suas medalhas, me senti de novo, um cidadão do mundo.

Estávamos tão carentes dessa sensação de inserção.

Nos últimos anos, passamos a ser um País-exceção, distantes do bom senso, estigmatizados e isolados.

Por alguns minutos, os atletas brasileiros, nas Olimpíadas, lavaram a nossa alma com sua superação.

Então só resta a agradecer a essa gente tão especial que nos fez sentir, de novo, uma Nação unida e vitoriosa.

Mesmo que apenas por algumas semanas.

Agora chega.

Voltamos a nossa programação normal.


Sobre o autor

Mentor Muniz Neto, 51, é escritor. Mora em São Paulo com suas filhas Manuela, Olivia e Catarina e escreve crônicas do cotidiano que às vezes parecem realismo fantástico


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