Cultura

Uma jornada ao inferno de 1917

O filme de Sam Mendes restaura a magia da tela grande e atraiu o público de volta às salas de cinema em uma saga ambientada na Primeira Guerra Mundial

Crédito: Divulgação

AUGE O soldado Schofield (George MacKay) corre para entregar uma mensagem a fim de impedir um ataque que já começou: uma das muitas cenas de “1917” que usam efeitos especiais realistas (Crédito: Divulgação)

FILMAGEM A mesma sequência mostrada acima, em uma fotografia panorâmica do set no sudoeste da Inglaterra: Sam Mendes dirige tudo a bordo de um veículo, com figurantes e explosões reais (Crédito:Divulgação)

Filmes de guerra costumam contar com a participação escassa de personagens femininas. Elas se limitaram a se esconder e padecer nos conflitos sangrentos. Em geral, não passam de itens formosos da cenografia. O longa-metragem “1917”, do diretor inglês Sam Mendes, não escapa à fórmula. A única mulher se chama Lauri (Claire Duburcq). Surge no canto de uma casa em ruínas de um vilarejo ao norte da França, abraçada a sua bebê, escondida dos combates corpo a corpo entre britânicos e alemães durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918). O fato é que, mesmo assim, a simples aparição de uma coadjuvante diante do protagonista, o soldado Schofield, fornece emoção e veracidade às ações de uma produção que utiliza recursos avançados de ilusionismo técnico para, assim, restituir um efeito que saiu de moda com a ascensão das superproduções dos serviços de streaming: a velha magia das salas de cinema.

O drama “1917” é o oitavo filme do diretor de 54 anos em 27 de carreira. Sam Mendes ganhou fama com o drama “Beleza americana” (1999) e dos sucessos de bilheteria “007 — Operação Skyfall” (2012) e “007 contra Spectre” (2015), todos recheados de malabarismos visuais. Desta vez, lançou mão do habitual virtuosismo para embarcar no gênero épico. Por causa dessa virada, tem sido festejado pelos críticos como a reencarnação de D.W. Griffiths (1875-1948), o cineasta que consagrou a grande tela e os espetáculos leviatânicos, com cenas impactantes de batalhas típicas do cinema mudo, como“O nascimento de uma nação” (1915) e “Intolerância” (1916). A exemplo do antecessor, Mendes usou centenas de figurantes em sequências gigantescas, mas também se dedicou ao detalhe mais delicado e comovente em uma cena de mãe e filhinha ameaçadas pela guerra. São poucos os diálogos e, como na era silenciosa, são valorizadas as expressões, a coreografia e as imagens chocantes. Sam Mendes resgatou o poder espetacular do cinema em plena era dos dispositivos móveis.

3 pontas célebres

Memórias do avô

Eis a razão de o drama de guerra ter arrebatado os prêmios de Melhor Filme Dramático e de Melhor Diretor a Mendes no último Globo de Ouro, despontando como um dos concorrentes mais fortes do Oscar, com seis indicações. Perde para “Coringa”, com onze, o campeão de bilheteria da temporada, com arrecadação de US$ 1 bilhão e um orçamento de US$ 62 milhões. “1917” estreou em 25 de fevereiro e arrecadou até a semana passada modestos US$ 64 milhões, sem ter conseguido ainda cobrir os custos de produção, de cerca de US$ 100 milhões. A bilheteria conta pontos no Oscar, mas o realismo, a seriedade do roteiro e o preciosismo de câmera e da cenografia também têm seu valor em Hollywood.

“Este filme não é uma história sobre o meu avô, mas sobre o espírito dele — o que aqueles homens suportaram, os sacrifícios, o senso de acreditar em algo muito maior do que eles próprios” Sam Mendes, diretor (Crédito:Divulgação)

O argumento é singelo. Mendes se baseou nas lembranças do avô para elaborar o seu primeiro roteiro, ao lado da novata Krysty Wilson-Cairns.

O oficial britânico Alfred Mendes lutou na Grande Guerra. Por ser baixo (1,63 metro), foi incumbido de atravessar os campos inimigos sem alvejado, para entregar comunicados de um comandante a outro. “A premissa simples de um homem que leva mensagens ficou na minha mente e se tornou o ponto de partida de 1917”, diz Mendes. “Assim, construí uma aventura heroica baseada em fatos reais.”

No final da Primeira Guerra Mundial, dois jovens soldados britânicos: Schofield (George MacKay) e Blake (Dean-Charles Chapman) são designados para atravessar o campo inimigo alemão, até a área em que o batalhão de Devon está entrincheirado, com uma mensagem do general Eninmore ao comandante da divisão, o coronel Mackenzie, para que ele cancele o ataque, pois se trata de uma armadilha. A jornada é repleta de cenas de horror, com cadáveres mutilados, ratazanas famintas, duelos nas trincheiras e uma perda inesperada.

O talento com que os realizadores elaboram os movimentos de câmera é o fator que causa o maior estupor, e muito de sua eficácia se deve ao diretor de fotografia inglês Roger Deakins, conhecido pelas parcerias com os Irmãos Coen e com Mendes. Ao lado deste, Deakins logrou simular uma única sequência, sem recursos aparentes de montagem, o que também faz lembrar o avesso da inovação introduzida em “Intolerância”: o corte e a montagem de cenas distantes no tempo e espaço. Diretor e fotógrafo optaram pelo recurso contrário. Assim como Alfred Hitchcock no suspense “Festim diabólico” (1948), com seu famoso truque de plano-sequência único, eles se valem da simulação de uma sequência que dura 1 hora e 59 minutos, graças a câmeras que operam em 360 graus e às cenas de passagem que ocultam cortes.

A inovação está em usar um procedimento comum em gêneros menores, que se potencializa no ambiente épico. “Nossos dois personagens principais são enviados em uma jornada perigosa e a câmera nunca se afasta deles. Eu quis acompanhar cada passo e cada suspiro daqueles rapazes”, afirma Mendes. É a mesma sensação diante dos horrores da guerra que o espectador é levado a experimentar. Por isso, as panorâmicas violentas e as minúcias sensíveis de “1917” só podem ser apreciadas por completo em uma sala às escuras, dotada de projetores de ponta e uma tela imensa.