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Apesar de terem um dos candidatos mais preparados para presidente, tucanos se digladiam

O PSDB, partido que foi um sustentáculo da redemocratização e tem um dos candidatos mais preparados para implantar uma agenda de modernização, perde-se em disputas internas, colocando o próprio futuro em xeque

Crédito: Governo do Estado de Sao Paulo

EM CAMPO O ex-governador João Doria em Monte Mor (SP), em março passado: realizações robustas e planos para o País (Crédito: Governo do Estado de Sao Paulo)

APOIO O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso disse que
as prévias do partido foram democráticas e seu resultado
deve ser respeitado (Crédito:GABRIELA BILO)

Depois de anos de disputas inúteis, é inacreditável que a agremiação que historicamente reuniu alguns dos mais célebres caciques da cena política brasileira — de FHC a Mário Covas, passando por José Serra e Tasso Jereissati, entre tantos outros — fixe como marca a prática da desavença sistemática. Já foi assim em 2018, quando Geraldo Alckmin foi colocado no fogo da disputa presidencial sem fôlego para tanto. Agora, o PSDB poderia — e ainda pode — fazer uma rentrée triunfal com João Doria, o vencedor legítimo das prévias realizadas em novembro passado, mas teima nas traições espantosas de bastidores.

O ex-governador de São Paulo é um quadro com um plantel de realizações difícil de superar. Talvez seja o melhor candidato que a sigla já teve desde a ascensão de FHC ao poder. Conseguiu façanhas dignas de nota. Em sua gestão à frente da administração de São Paulo — com o maior orçamento disparado da América Latina —, Doria produziu um crescimento econômico cinco vezes maior do que o do restante do País e reduziu a níveis insignificantes a violência no Estado investindo na tecnologia de ponta com drones e câmeras nos uniformes dos policiais. Ainda multiplicou por dez o número de escolas em tempo integral do sistema público, enquanto o MEC desmantelava a educação Brasil afora, por ordem e interesse do mandatário Messias Bolsonaro. Boa parte dessas conquistas ocorreu com verba privada de milhões arrecadados junto a empresas.

INCONFORMADO O gaúcho Eduardo Leite perdeu a votação em novembro e se aliou a adversários de Doria para tentar deslegitimar as prévias (Crédito:Gabriel Haesbaert)

Essas realizações já seriam suficientes para catapultar a candidatura de qualquer personagem que ambicionasse ser carregado pelos braços dos eleitores rumo ao Planalto. Mas Doria fez mais: consagrou-se como o pai da vacina. A despeito da resistência e verdadeira mobilização federal para retardar a imunização dos brasileiros, com o presidente em pessoa vangloriando-se de não gostar de vacinas, de não tomá-las e ainda reclamar da pressa dos brasileiros para tanto, o tucano empreendeu uma cruzada pessoal em busca de fornecedores e foi efetivamente o responsável por trazer ao País não apenas o primeiro imunizante como aquele mais aplicado na população, distribuído nacionalmente para salvar milhares de pessoas e o próprio ministério da Saúde de uma tragédia ainda maior.

Coroando uma passagem admirável pelo Palácio dos Bandeirantes, na capital paulista, Doria, ao final, entregou uma promessa que parecia impossível por 60 anos nas mãos de seus antecessores: a despoluição do Rio Pinheiros, hoje navegável, com índices aceitáveis de oxigênio, peixes e vida aquática de volta. Era o milagre que faltava para consagrar uma passagem inesquecível pelo motor econômico nacional e para carimbar o seu passaporte, facilmente, rumo à conquista das urnas neste ano.

NOS BASTIDORES Ex-presidente do PSDB, Aécio Neves perdeu a eleição presidencial em 2014 e tenta impedir que Doria concorra este ano (Crédito:EVARISTO SA)

Mas o PSDB, o próprio partido de Doria, por incrível que pareça, ergueu um rochedo de intrigas na sua frente e tenta com diversos subterfúgios barrar o avanço da alternativa que — suprema ironia — seria a redenção do tucanato, cujo ninho encontra-se numa desarrumação e desordem sem fim. Não foram apenas as cenas de golpismo explícito dos últimos dias que traduziram o impasse e levaram Doria a quase desistir da candidatura. O esquema de rasteiras ali dentro parece mais profundo e vai avançando. Do presidente da sigla, Bruno Araujo, que mostra-se um poço de contradições e trabalha nos bastidores para enfiar a alternativa dileta do gaúcho Eduardo Leite no lugar de Doria, até tradicionais nomes da legenda como Tasso Jereissati e Aécio Neves, muitos empenham-se em conspirar loucamente para uma grande baderna no alto tucanato. O que pretendem? A ideia da autossabotagem parece alimentar a maioria daqueles pássaros de grande bico. Esperneiam na calada do ninho e podem colocar a perder uma das melhores oportunidades de reorganizar as forças de centro rumo a uma terceira via efetivamente vitoriosa nas eleições. É um desastre.

“Não entendo o que querem os tucanos”, diz Doria. “Podemos oferecer nessa disputa um plantel de realizações inegáveis que irá certamente encantar os brasileiros”, afirma. Não é apenas o ex-governador que pensa assim. Muitos correligionários também andam assombrados com as articulações diabólicas da alta cúpula e não concordam com os seus métodos. O senador Arthur Virgílio, por exemplo, diz que Doria é efetivamente uma grande opção, além de ser o mais experiente entre os postulantes. O venerável ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, autêntico guru tucano, insiste que não se pode tentar no tapetão tirar Doria de uma candidatura que conquistou legitimamente e para a qual apresenta “extraordinárias qualidades”. O que leva então a alguns setores de dentro da agremiação a insistir na conspiração?

É tido e havido que o PSDB abrigou, talvez, a maior concentração de egos políticos por metro quadrado de que se tem notícia. Ali, essas aves raras não se bicam porque algumas sempre se imaginaram melhor que as outras e cada uma acredita ter voo próprio. Ledo engano. Foi nessa toada que o ex-governador Geraldo Alckmin, irritado com o desenrolar das negociações e do espaço que lhe cabia ali, resolveu bater asas rumo justamente ao abrigo do antigo inimigo, o PT, que sempre combateu. Foi um voo cego para o inferno que pode vir a queimar de vez as suas asas. Como ele, Aécio Neves, que andou mais chamuscado que fênix nas cinzas, é um pássaro estranho na tradicional reputação do partido. Ex-candidato à Presidência contra Dilma Rousseff, chegando muito perto de conquistar o Palácio do Planalto, o herdeiro político do mitológico Tancredo Neves enlameou-se em histórias mal resolvidas reveladas pela Lava Jato e somente agora conseguiu alforria. Pois bem, mesmo com esse currículo manchado foi um dos líderes a tentar colocar areia nas pretensões do aliado partidário Doria. Por quê? Mais uma vez, muitos atribuem o impulso a puros rompantes de vaidade. Aécio Neves era, lá atrás, o garoto prodígio que iria brilhar e projetar a legenda. Fracassou. Doria agora tem a chance de fazer o que o mineiro planejou e não conseguiu. Isso deve lhe soar como afronta.

NEGOCIAÇÃO Bruno Araújo (PSDB), Luciano Bivar (União Brasil), Baleia Rossi (MDB) e Roberto Freire (Cidadania): presidentes das legendas vão anunciar candidato único em 18/5 (Crédito:Divulgação)

Para entender os movimentos fulgurantes de Doria, ex-governador que conseguiu ser prefeito de São Paulo sagrando-se vitorioso no primeiro turno (sem nunca antes ter concorrido a qualquer cargo público), é necessário recuar algumas décadas e encontrar explicações na trajetória interrompida abruptamente de seu pai, o patriarca João Doria, que foi deputado federal cassado pelo regime da ditadura. A família do Doria, pai do Doria Jr. que agora está às portas da maior eleição de sua vida, sofreu as agruras do exílio, da falta de dinheiro e da luta para se firmar depois de injustamente ter visto ceifadas as chances do patriarca. O filho tomou os planos do pai como uma missão. Construiu primeiro uma bem-sucedida trajetória na iniciativa privada que o deixou rico e depois abandonou tudo, literalmente, para consagrar o sonho do pai. E tenta cumpri-lo com afinco. Demonstrou isso na rotina do próprio governo de estado. Trabalhava, invariavelmente, 16 horas por dia. Doria doava todo o salário que recebia. Deixou os assessores praticamente loucos de tantas demandas por realizações e — repetindo a sina do lendário Juscelino Kubistchek, que quis avançar 50 anos em 5 — fez em quatro anos o que certamente o estado levaria mais algumas décadas para conquistar. A despoluição do Rio Pinheiros é a prova viva disso.

Tucanos traíras

É esse personagem que agora busca catapultar seu nome rumo a Brasília para buscar uma retomada do crescimento econômico do Brasil. E é justamente contra ele que o PSDB se converte agora no seu maior inimigo. Na prática, os tucanos estão na pele de traíras fazendo gols contra. Podem morrer na praia nessa tática, se a maioria lúcida não reverter o quadro. Ainda há tempo. Além de nomes históricos como FHC e Serra, outro fundador do PSDB, Arthur Virgílio, afirma que é preciso parar com as querelas internas. “Vamos aprender a cumprir as regras do jogo”, insiste. Virgílio também participou das prévias que mobilizaram 44 mil filiados do PSDB, perdendo assim como Leite, e defende a sua legitimidade. Lembra que o partido poderia até ser questionado judicialmente por ter gastado milhões em um processo pré-eleitoral para depois abandoná-lo. Ao contrário, isso deveria fortalecer a legenda.

PELO PARTIDO Fundador do PSDB, Arthur Virgílio também disputou as prévias internas e diz que é preciso “parar as querelas internas” (Crédito:Adriano Machado)

Essas contestações não são inéditas. Há cinco meses, a própria filha de Mário Covas, Renata Covas, criticou em uma mensagem as tentativas de anular o processo eletrônico das prévias pelos aliados de Leite. O aplicativo havia sido desenvolvido por uma fundação gaúcha por imposição dele e teve problemas técnicos. Além disso, as regras deram peso maior a alguns caciques e desfavoreciam Doria, que mesmo assim venceu. “Não sabem perder. A história se repete. Em 1989, o candidato do PSDB era pressionado coßm o discurso interno de ‘não decola’”, criticou. Ela se referia à primeira eleição presidencial da redemocratização, quando o candidato tucano era Mário Covas, que foi derrotado, mas teve papel fundamental para o partido se consolidar e chegar ao poder poucos anos depois. Virgílio diz que o PSDB precisa mostrar coerência e defender suas bandeiras históricas independentemente do resultado das urnas, como o parlamentarismo.

Também há contingências do processo eleitoral a serem consideradas, apesar da polarização cristalizada. A rejeição de Doria está em queda. O ex-presidente Michel Temer, envolvido nas articulações para uma campanha unificada do centro democrático, já tinha apontado o descasamento inexplicável entre os índices negativos do tucano e suas realizações. Mas a última pesquisa Datafolha aponta que sua rejeição caiu sete pontos percentuais de setembro passado para março (de 37% para 30%), abaixo dos índices de Bolsonaro (55%) e Lula (37%). Ou seja, uma entre cinco pessoas que rejeitavam o nome de Doria mudou de ideia nesse período. Isso contradiz o discurso dos rivais no campo democrático, inclusive Leite, que tentaram cravar sua inviabilidade. E conta a favor da estratégia inicial do paulista, que sempre foi crescer no curso da campanha depois de deixar o governo.

ARTICULAÇÃO Pré-candidata lançada pelo MDB, a senadora Simone Tebet pode compor a chapa única do centro democrático (Crédito:Suamy Beydoun)

O fim da janela de mudança partidária e o afunilamento da corrida pré-eleitoral são o momento de definição. Doria evoluiu de uma candidatura marcada por seu objetivo pessoal para um propósito mais amplo, em prol do Brasil. Ele sabe que está pilotando uma cruzada para tirar o País da armadilha dos extremos e se empenha noite e dia nesse sentido. Evita o fogo amigo e vai buscando compor alianças com os demais postulantes, na proposta firme de encontrar uma alternativa viável e racional que tire o País dessa queda de braço insana dos extremos representados por Lula e Bolsonaro. Ele está avançando de forma calculada. As negociações com o MDB parecem frutificar. Com suas realizações e trazendo, talvez, como vice o nome da senadora Simone Tebet, Doria pode afinal consolidar uma chapa realmente competitiva e, quiçá, vencedora. A reunião de quatro presidentes de partidos do centro democrático (União Brasil, MDB, PSDB e Cidadania) na última quarta-feira que antecipou a definição de um candidato comum para o próximo dia 18 de maio indica uma luz no fim do túnel e aponta, talvez, que a sensatez esteja prevalecendo nessas forças.

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