Internacional

Uma frágil coalizão em Israel

Tirar Netanyahu do poder foi a tarefa mais fácil para o grupo de partidos que acaba de tomar posse. Mais difícil será governar o país

Crédito: Anadolu Agency via AFP

ALIANÇA Rivlin (centro), presidente de Israel, com Bennett (direita) e Lapid (Crédito: Anadolu Agency via AFP)

Benjamin Netanyahu ganhou projeção internacional com sua linha dura contra os iranianos e palestinos, e pela aliança íntima com Donald Trump. O novo governo de Israel deve se concentrar nas questões internas do país, principalmente na economia, deixada em segundo plano. Esta é a expectativa após a queda de Netanyahu, que governou o país por 12 anos ininterruptos e no dia 13 passou o cargo de primeiro-ministro para Naftali Bennett, empresário de 49 anos que representa um pequeno partido de direita. Ele lidera a nova coalizão de governo, que engloba oito partidos de diferentes tendências políticas, unidos por um único objetivo: tirar Netanyahu do poder. O ex-premiê deixou o cargo em cerimônia no Knesset (parlamento) sem cumprimentar o sucessor, e qualificou a nova gestão de “esquerdista”. Antes, precisará enfrentar a Justiça: há duas acusações e um inquérito no judiciário por suspeita de corrupção.

“Nós voltaremos em breve, eu trabalharei para derrubar este governo perigoso e esquerdista” Benjamin Netanyahu, ex-premiê e líder do Likud (Crédito: Ronen Zvulun)

A relação com os palestinos continuará sendo um desafio central para Bennett. O grupo Hamas testou o novo governo já no dia 16, quando lançou balões incendiários a partir da Faixa de Gaza. Em represália, o primeiro-ministro ordenou o bombardeio do território palestino. “O novo governo não é esquerdista, ele é formado por uma coalizão bem ampla, que inclui a maioria dos atores da sociedade israelense, menos o Partido Likud (direita) e os ultraortodoxos”, comenta o cientista político André Lajst. Ele lembra que o maior partido da coalizão é de centro, o Yesh Atid, liderado pelo jornalista Yair Lapid, que foi o grande articulador da coalizão e deve assumir o governo dentro de dois anos. Os partidos de esquerda Meretz e Trabalhista também fazem parte do governo, bem como o Israel Beitenu, da direita secular, liderada por Avigdor Lieberman. Pela primeira vez o governo israelense também é integrado por um partido árabe islâmico, o Ra’am, chefiado por Mansour Abbas. “Enquanto existir algum risco da volta de Netanyahu, a coalizão ficará unida”, aposta Gunter Rudzit, professor de Relações Internacionais na ESPM.
Ex-aliado de Netanyahu, Bennett é um judeu ortodoxo moderado. Formado em direito pela Universidade Hebraica de Jerusalém, em 1999 fundou sua própria empresa, uma start-up de software. Em seguida, foi viver em Nova York. Voltou a Israel em 2005 e vendeu a empresa por mais de US$ 100 milhões (R$ 505 milhões), ingressando na política. Apoia os colonos judeus na Cisjordânia, é contra o acordo nuclear com o Irã e defende uma política econômica liberal. Mas suas propostas precisarão ser sempre negociadas. É importante lembrar que as decisões de Bennett deverão ser tomadas em consenso com os outros líderes da coalizão. Lapid virou ministro das Relações Exteriores.

“Start-up médio-oriental”

O novo governo pode acelerar a transformação do país em um “hub tecnológico”. Em 2020, Israel recebeu investimentos de US$ 10 bilhões (R$ 50,5 bilhões), feitos principalmente no setor de TI, que é um dos mais dinâmicos do mundo. O PIB per capita da população chegou a US$ 41 mil, superando Japão e Itália. Porém, um relatório da OCDE de 2016 indicava que 21% da população era pobre, porcentual que entre os judeus ultra-ortodoxos saltava para 49%. Dados mais recentes indicam que 23% dos israelenses são pobres, o que dá um total de 1,98 milhão de pessoas, das quais 702 mil são árabe-israelenses.

“A estabilidade do novo governo dependerá muito do que ele conseguir fazer para gerar mais emprego e reduzir esse ‘gap’ entre quem está na pobreza e a classe média”, avalia Lajst. Por isto, a agenda econômica será importante. Rudzit, da ESPM, observa que Israel virou na última década “uma grande start-up” do setor de TI, com uma economia moderna de serviços. “Bennett já colocou como prioridade os investimentos em educação, a reforma do Estado e a normalização das relações com a Suprema Corte”, destaca. Se condenado, Netanyahu corre o risco de ser preso, destino do ex-premiê Ehuld Olmert, que em 2014 foi sentenciado a seis anos de detenção por corrupção. Outro risco é Netanyahu perder o poder dentro do Partido Likud. Caso isso aconteça, seria o fim do político que governou Israel durante mais tempo desde 1948. Netanyahu já prometeu fazer uma oposição feroz e disse que o novo governo pode cair mais cedo do que se espera. Ironicamente, a ameaça de seu retorno poderá representar exatamente a grande força a unir a nova gestão.