Cultura

Uma Flip ainda mais ativista

A 17ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty deixa de ser um encontro de autores para intensificar o debate político, abordando o massacre de Canudos, narrado por Euclides da Cunha

Crédito: Zedu Moreau

MILITÂNCIA O “Slam das Minas” e a poesia engajada na Flip 2018: na nova edição, discussões literárias dão lugar a temas como injustiça social, gênero e raça (Crédito: Zedu Moreau)

A 17ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty exibe as marcas das perturbações que o Brasil sofreu na última década. Já não se trata do conclave de literatos fundado em 2003 pela editora inglesa Liz Calder, então moradora da cidade histórica. Com o passar das crises, Liz foi embora, os grandes escritores sumiram, as verbas minguaram e a programação alternativa se incorporou à festa. “Hoje a Flip é a fusão da programação principal com a de casas parceiras”, diz a editora Fernanda Diamant, curadora da festa. “O público mudou a relação com a atenção. Por isso, optamos por mesas de 45 minutos, com formatos variados: palestras, performances e entrevistas.”

Outra mudança se deu na densidade literária, que se diluiu para dar lugar à politização e à invasão de autores militantes dos movimentos negro, indígena, LGBTQ+ e feminista. “A Flip é um evento educativo e politico”, afirma Fernanda. “Ao fazer cultura, você faz política.” Nada mais politizado que o autor homenageado deste ano, Euclides da Cunha (1866-1909), e seu “livro vingador”, “Os sertões” (1902), mistura de tratado antropológico-topográfico e relato da destruição do arraial de Canudos, em outubro de 1897, pelo exército brasileiro. É um tema que convém ao novo modelo da festa.

A atualidade de “Os sertões” será discutida por 33 escritores de dez nacionalidades em várias áreas, da sociologia à fotografia, roçando até a literatura. Fernanda escolheu nomes de locais do interior da Bahia para ilustrar as 21 mesas, nem sempre ligadas ao tema.

Genocídio

Também são vários os Euclides abordados. Na mesa “Jeremoabo”, em 12/7, o carioca Miguel del Castillo vai falar de seu romance, “Cancun”, que nada tem a ver com Canudos. Mas diz que lembrará do Euclides moderado. “Ao ver a crueldade dos militares, fez uma autocrítica”, diz. No polo oposto, a crítica Walnice Nogueira Galvão mostrará o Euclides agitador:

“Assim como vemos hoje massacres de pobres, Euclides se revoltou contra o genocídio sertanejo e reconheceu que a mídia fazia lavagem cerebral do público para legitimar a violência institucional.” Ela participa do evento “Euclides socialista”, com o jornalista Glenn Greenwald. O lado poético foi captado pela fotógrafa Maureen Bisilliat em viagens que fez ao Ceará nos anos 1970 e 1980. “O Brasil sem ‘Os sertões’ seria um país menor”, afirma a curadora.

Euclides é reivindicado pela esquerda e pela direita — e corre o risco de se carnavalizar, como tudo no Brasil. Mas é inegável seu papel fundador. “Ele denunciou um crime que continua sendo o modo do Estado se relacionar com as populações vulneráveis”, diz. “No momento que a gente atravessa, sua mensagem se revela ainda mais forte.”

Jamie McCarthy