Cultura

Uma dinastia dos palcos

Criado pelo ator Valdemar de Oliveira, o Teatro de Amadores de Pernambuco (TAP) celebra 80 anos em plena vitalidade artística. Com as restrições da pandemia, no entanto, o grupo mais antigo em atividade no País lança campanha para conseguir manter-se na ativa

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FORÇA E TALENTO TAP: elenco reúne dezenas de apaixonados pelas artes cênicas (Crédito: Divulgação)

“Tivemos de nos reinventar: renovamos o elenco, criamos um canal no Youtube e lançamos a campanha para mobilizar a população, empresários e a classe artística” Pedro Oliveira, diretor artístico do TAP (Crédito:Divulgação)

Dramas familiares são tão antigos quanto o próprio teatro. De Sófocles a Nelson Rodrigues, passando por William Shakespeare, a relação entre pessoas do mesmo clã já rendeu clássicos eternizados por atores e companhias em todo o mundo. Em Recife, capital de Pernambuco, a saga da dinastia Oliveira acontece tanto nos palcos quanto fora deles. É uma história que se confunde com a trajetória das artes cênicas na região. Idealizado pelo ator Valdemar Oliveira, o Teatro de Amadores de Pernambuco (TAP) comemora seus 80 anos em 2021 e se consagra como a mais antiga trupe ainda em atividade no País.

O TAP nasceu sob influência do Grupo Gente Nossa, criado nos anos 1930 por Samuel Campêlo. Após a sua morte, o médico Valdemar de Oliveira assumiu o elenco e anunciou a primeira peça sob nova direção: “Knock ou o Triunfo da Medicina”, de Jules Romains. Era 4 de abril de 1941: no palco do “Nosso Teatro” nascia oficialmente um grupo de atores amadores que mudaria os rumos do gênero no Brasil. Anos mais tarde, essa revolução se consolidaria com o Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), o Arena e o Oficina. Em 1977, com a morte de Valdemar Oliveira, o “Nosso Teatro” foi rebatizado em sua homenagem.
Como companhia mais relevante do Nordeste, o TAP atraiu alguns dos maiores dramaturgos e atores, entre eles Zbigniew Ziembinski, Jorge Kossowski, Hermilo Borba Filho e Bibi Ferreira. Com convites para se apresentar em todo o Brasil, caíram na estrada e encenaram espetáculos do Acre ao Rio Grande do Sul. Nas apresentações, o sucesso era garantido graças às premiadas atuações de Valdemar, mas também de Reinaldo Oliveira, seu filho e atual presidente do TAP, e de Geninha da Rosa Borges, cofundadora do grupo e grande dama das artes cênicas pernambucanas.

MODERNISMO “O Leque de Lady Windermer”, de Oscar Wilde: montagem de 1943 (Crédito:Divulgação)

As dificuldades para gerir o “Teatro Valdemar Oliveira” e uma equipe de mais de 30 pessoas surgiram bem antes da pandemia. Em 1980, o local foi quase destruído por um incêndio. Hoje, os problemas são outros. O diretor artístico Pedro Oliveira, responsável por elaborar o plano para manter o grupo ativo, foi um dos criadores da campanha “Dê a mão ao TAP”, buscando doações para ajudar a bancar a trupe. Com a pandemia e a ausência do público presencial – além de dois assaltos, que pioraram a situação –, os atores apostaram em uma estratégia inevitável: o teatro online, com peças filmadas e exibidas pela internet. “Tivemos de nos reinventar: renovamos o elenco, criamos um canal no Youtube e lançamos a campanha para mobilizar a população, empresários e a classe artística”, afirma Pedro.

Desde 2020, o TAP realizou algumas lives: encenou uma peça em homenagem a Geninha da Rosa Borges, uma festa junina virtual, com Terezinha do Acordeon, e o espetáculo virtual “Leão do Norte”, com participação do cantor Lenine. Aproveitaram o período sem público para organizar seu acervo histórico, tarefa que ficou a cargo da pesquisadora Yêda Bezerra de Mello. São dezenas de cartazes de peças, roteiros e objetos que fazem parte não apenas do teatro pernambucano, mas, também, do patrimônio cultural brasileiro.

CLÁSSICOS Grupo adaptou obras como “Arsênico e Alfazema”, de Albert Kesselring (Crédito:Divulgação)

A atriz Fernanda Montenegro guarda “lembranças poderosas” do TAP desde os anos 1950: “Completar 80 anos é um milagre e uma força de coragem cultural. Os grupos acabaram, se modificaram e viraram profissionais, mas vocês, não”, afirmou Fernanda, em mensagem enviada ao elenco. “Respeito e tiro o chapéu para a arte pernambucana. O TAP faz parte desse eterno movimento de sobrevivência. Em uma hora tão difícil como essa, que estão destituindo a nossa cultura, sinto muita emoção e alegria com essas oito décadas. Minha memória volta ao início desse movimento lindo, do qual eu também participei. Guardo uma memória carinhosa da família Oliveira.”

As comemorações da data começaram com a live “Nós, Voz, Elis”, em homenagem à cantora Elis Regina, e seguem com “Bibi – Em Casa de Ferreira, Espírito de Palco”. Ao viver comédias e tragédias, o Teatro de Amadores de Pernambuco é a prova maior de que um ato vem sempre depois deoutro – e que é preciso se reinventar a cada um deles.

A diretoria atual é composta por: Reinaldo de Oliveira (Presidente de Honra), Pedro de Souza (Diretor Geral), Carlos Alberto Leal de Barros Júnior (Vice-Diretor Geral), Paula Rio Lima Moraes de Melo (Diretora da Patrimônio), Yêda Bezerra de Mello (Diretora Financeira) e Pedro Oliveira (Diretor Artístico).

Em parceria com a galeria Arte Maior, o TAP realizará um leilão beneficente para financiar a reabertura de suas atividades. Será possível adquirir objetos, móveis, obras de arte doadas por artistas plásticos renomados, fotos raras e outros objetos. Quem quiser realizar doações ao grupo, pode fazer por meio da seguinte chave PIX: teatrovaldemardeoliveira.tap@gmail.com