Cultura

Uma caixa de malvados

Movidos por capricho, cobiça, vingança ou destino, vilões e vigaristas de ambos os sexos encantam e aterrorizam em caprichada antologia de contos

Ilustração: Gerson Nascimento

As tramas de mistério são a raiz da literatura de entretenimento e têm no conto sua forma narrativa ideal. Mas o que seriam dos heróis sem adversários adequados? Muito pouco. Quem desvenda crimes costuma agir de duas maneiras. Ou é um investigador cerebral, como Sherlock Holmes e Hercule Poirot, ou um durão, como Sam Spade e Philip Marlowe. Já as possibilidades para quem os comete são bem mais amplas. É aí que reside o fascínio de “O Grande Livro dos Vilões e Vigaristas”, da editora Nova Fronteira. Em dois volumes que somam quase 1,2 mil páginas, a generosa antologia reúne 64 histórias curtas que incluem o malvado definitivo (conde Drácula), mulheres fatais (Vivian Legrand e Jane dos Quatro Quadrados), gênios do crime (Fu-Manchu e Quong-Lu), inescrupulosos (Wolfe MacFarlane), pistoleiros (Cisco Kid), vigaristas (coronel Clay) e larápios (Raffles).

Os contos estão divididos em categorias, de acordo com suas épocas e estilos, dos vitorianos aos modernos. O mais antigo é “A História de Um Jovem Ladrão”, de Washington Irving, de 1824. “O Ponto Negro”, de Loren Estleman, de 2015, é o mais recente. Além da escala temporal, a cada conto o organizador Otto Penzler indicou se o protagonista é vilão ou vigarista. Para Penzler, a divisão se dá conforme os comportamentos e os objetivos dos malfeitores.

Os vilões são malignos, quando não doentios, e facilmente cometem homicídios, motivados por ambição ou prazer. Já os vigaristas tendem ao charme e evitam provocar conflitos desnecessários em seus golpes, construídos em torno de chantagens, disfarces e álibis. Nem por isso os vilões deixam de ter coração mole — Drácula é um apaixonado, lembremos. Já pilantras consumados podem matar com frieza quando necessário. Essa amoralidade entrecruzada ao sabor das circunstâncias é o que torna mais adorável detestar essa bandidagem.

DOS LIVROS AOS FILMES O ladrão de corpos Wolfe MacFarlane (acima, ao centro) foi às telas em 1945, em “O Túmulo Vazio”. Drácula, Fu-Manchu, Cisco Kid e Jane dos Quatro Quadrados (ao lado): fascínio por malfeitores (Crédito:Divulgação)

Personagem real

O próprio organizador da obra é uma figura lendária. Editor especializado em literatura policial e de mistério, Otto Penzler é dono da The Mysterious Bookshop, livraria especializada sediada em Tribeca, Nova York. Ele é tão estimado pelos escritores do gênero que já foi parar nas páginas de ficção. Um oficial nazista fugitivo levou seu nome no romance de Elmore Leonard “Os Amores de Honey”, de 2007. Dez anos antes, Penzler e sua loja também apareceram em um conto natalino de Lawrence Block, um dos escritores policiais em atividade mais prolíficos. Block é criador do arrombador bonzinho Bernie Rhodenbarr e do advogado inescrupuloso Martin Ehrengraf, que estão nas páginas do segundo volume. Porém, assim como no crime, não há antologia perfeita. Nêmesis de Sherlock Holmes, o ardiloso professor Moriarty não foi encontrado nessa caixa de malvados.

“O crime do vigarista é o roubo. O do vilão, o homicídio,
para o qual raramente existe desculpa”

Otto Penzler, organizador da obra

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