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Um salário de fome

Renda dos venezuelanos atinge baixa histórica e desnutrição supera 20% da população. Impasse persiste, mas chavistas fazem negociações secretas com os EUA

Crédito: FEDERICO PARRA

MÃO DE FERRO Protestos contra a fome não incomodam Nicolás Maduro: o regime continua a punir severamente seus opositores e já tortura até aliados (Crédito: FEDERICO PARRA)

HO / Venezuelan Presidency / AFP

O fracasso do último plano de recuperação econômica da Venezuela é um sinal evidente da deterioração acelerada do regime bolivariano. A ditadura estabeleceu como meta um salário mínimo de US$ 30 (R$ 120). Mas, na última semana, a remuneração de 40.000 bolívares atingiu o menor valor da história, seguindo a cotação oficial do câmbio: abaixo de US$ 3, ou menos de R$ 12. É suficiente para comprar uma cartela de 30 ovos. E sob a linha de miséria estabelecida pela Organização das Nações Unidas (ONU). Segundo a instituição, quem vive com menos de US$ 1,90 por dia está em situação de extrema pobreza.
O poder de compra no país vizinho diminui rapidamente. Desde o início do ano, a inflação já superou 1.500%. Milhões de pessoas passam fome e afeta a saúde dos venezuelanos, alertam organizações humanitárias internacionais. A FAO, Organização para a Alimentação e a Agricultura da ONU, estima que, entre 2016 e 2018, 21,1% da população encontrava-se em estado de desnutrição. Isso trará consequências de longo prazo para a saúde. Na falta de proteínas como frango e carne bovina, a população sobrevive com iguarias — uma delas é o arepas, tradicional pão feito de milho moído. Há excesso de consumo de carboidratos e gordura. Para manter sua alimentação, milhões de venezuelanos dependem de cestas básicas subsidiadas pelo governo. Os críticos denunciam que o regime utiliza esse recurso para controle social.

Isso explica o motivo pelo qual mais de 4 milhões de venezuelanos já fugiram do país. A ditadura destruiu a economia. Sem contar a corrupção governamental. Com esse cenário, combustíveis e medicamentos estão em falta. A infraestrutura do está arrasada. Na terça-feira 20, um novo apagão atingiu Caracas, menos de um mês depois de outro incidente ter deixado a Venezuela às escuras. Já foram diversos blackouts esse ano, inclusive um que paralisou o país por uma semana, em março.
Mesmo com o colapso e o sofrimento da população, o ditador Nicolás Maduro consegue se manter no poder com mão de ferro. Além de manter uma guarda paramilitar, Maduro atrai a elite militar ao estimular a corrupção e promover oficiais. Com isso, a Venezuela já tem mais generais do que a própria OTAN. A ONU denunciou que milhares de oposicionistas foram executados nos últimos anos, e o regime recentemente passou a torturar os próprios militares, que são fiéis ao bolivariano, por medo de deserções.

Ainda não há soluções de curto prazo à vista, que necessariamente passam por eleições livres e o afastamento de Maduro. Mas uma saída pode estar a caminho. Foi revelado que os EUA abriram um canal de comunicação secreta com o círculo próximo do ditador. Diosdado Cabello, número dois do regime chavista, teria se encontrado em julho com um emissário do presidente Donald Trump. O objetivo seria buscar garantias de que membros do regime não seriam punidos se cedessem às demandas da comunidade internacional.

Intenções duvidosas

Na terça-feira 20, Maduro e o presidente americano, Donald Trump , confirmaram que representantes dos dois países estão em contato, mas sem dar detalhes sobre as negociações. As conversas são preliminares e ainda estão cercadas de dúvidas. Cabello divulgou por um porta-voz que não se encontraria com nenhum membro estrangeiro sem a permissão do presidente. Mas Maduro poderia estar buscando demonstrar controle sobre as tratativas. Cabello, que é radical e intransigente, tem aumentado sua influência à medida que Maduro se enfraquece. É acusado pelos EUA de liderar um grande esquema de corrupção, tráfico de drogas e de ameaçar assassinar um senador. O objetivo dos americanos não seria fortalecê-lo para substituir o presidente, mas provocar o dissenso no núcleo duro do regime, que já teria diversos grupos em disputa.

Enquanto isso, as negociações oficiais entre os representantes de Maduro e o líder oposicionista Juan Guaidó, reconhecido por 50 países como presidente interino, caminham a passos lentos. A última rodada de conversas, que são intermediadas pela Noruega, foi interrompida pelos venezuelanos quando os EUA divulgaram uma nova leva de sanções econômicas, que incluem o confisco dos bens venezuelanos no país e a punição de empresas de outras nações que fizerem negócios com o governo chavista. Muitos se perguntam até quando o regime conseguirá se manter. A população, acuada, passa fome.

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