Comportamento

Um Rio de transtornos

A violência faz crescer no Rio de Janeiro os casos de ansiedade generalizada, estresse pós-traumático e até psicose

Crédito: Divulgação

ROTINA Olhe nos olhos dessa mãe que tenta escudar a filha em um tiroteio: a sua vida psíquica jamais será a mesma (Crédito: Divulgação)

Falta de ar, tremores pelo corpo, sudorese nas mãos, sensação de aperto no peito, taquicardia, diarreia. O leitor e a leitora podem julgar que se trata, aqui, de uma reportagem restrita à medicina. Nada mais natural, mas o certo é que o enfoque é bem amplo – e localizado. Fala-se, na verdade, sobre o Rio de Janeiro. Os sintomas acima descritos são apenas alguns entre os que compõem enfermidades psiquiátricas como transtorno da ansiedade generalizada, síndrome do pânico e transtorno de estresse pós-traumático. E onde entra a ex-cidade maravilhosa nessa história? Não é difícil imaginar. Considerável parcela de seus moradores já demonstram sinais claros dessas três doenças psíquicas por viverem diuturnamente em meio à crescente violência. E há gente desenvolvendo delírios persecutórios e psicotizando. Ainda que os ouvidos se habituem ao estampido de tiros, existe em todos nós, seres humanos, um sistema nervoso central em que ficam “impressas”, entre outras emoções, também aquelas que nos foram ruins. Após essa “impressão” ocorrer, o organismo pendula, autonomamente, entre a liberação de hormônios estressantes e hormônios relaxantes, numa repetição enlouquecedora. O mais recente relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS), publicado há menos de um mês, aponta sofrimento emocional em um a cada cinco indivíduos que habitam áreas conflagradas. Resta alguma dúvida de que o Rio de Janeiro é palco de uma conflagração, de uma “guerra” entre traficantes, milícias e policiais?

Moradora na favela de Manguinhos, Rosilaine pode perder a guarda de um dos filhos numa decisão bastante heterodoxa de um juiz: “risco diuturno de morrer”

Guito Moreto / Agência O Globo

Quem passou por um assalto ou teve de se esconder de um tiroteio, por exemplo, pode desenvolver lembranças intrusivas (o mesmo tipo de pensamentos recorrentes em portadores de transtorno obsessivo compulsivo), flashbacks e pesadelos. E, como se o corpo estivesse programado para periódicas descargas de adrenalina, lá vem a crise de ansiedade. Há muita gente com tal sintomatologia. Outras pessoas que atravessaram situações de violência relatam nos postos de saúde que ficaram bem durante um bom tempo até que a depressão as abateu. Ou, mais grave ainda, a mania de perseguição. “Entra-se em pânico apenas com o barulho de um helicóptero. Quem é de fora não sabe o quanto é angustiante viver aqui”, diz a assistente social Liliane Santos, moradora no Complexo da Maré, na zona norte da cidade. Para se ter uma ideia da evolução das morbidades emocionais, os trinta e três Centros de Atenção Psicossocial (Caps) que funcionam no Rio de Janeiro atendem mensalmente, em média, quinze mil enfermos. Somente na Maré, nos últimos doze meses, houve uma escalada de 326 atendimentos. Então é isso, o Rio de Janeiro se tornou uma clínica e sua população está institucionalizada.

Talvez com a finalidade de tentar evitar que uma criança sofra dos mesmos males, agora ou no futuro, um juiz da Vara da Família do Rio de Janeiro tomou uma decisão bastante incomum no campo jurídico. Saiu de seu roteiro do dia a dia e deu a guarda de um garoto de oito anos de idade, da favela de Manguinhos, ao pai, que mora em Santa Catarina, e não à mãe, que vive na comunidade. A sua justificativa na sentença é de gelar: “(…) a cidade do Rio de Janeiro tornou-se uma sementeira de crimes, havendo (…) o risco diuturno de morrer (…); reputo muito mais vantajoso para a criança (…) a morada com o pai (…)”. Reforçando a tese do juiz, o advogado do pai, Ricardo Afonso Batista, explica que “o progenitor não consegue sequer visitar o filho em Manguinhos porque os criminosos do local o ameaçam de morte”. A mãe, compreensivelmente abalada, rebate: “aqui, sempre fomos felizes. A casa é simples mas ele adora a convivência com o irmão de quinze anos e continua estudando na mesma escola privada desde os três”, (seu prenome é Rosilaine, o sobrenome foi mantido em sigilo).

A decisão do magistrado pode ser reformada, e isso rapidamente, já que ele saiu da ortodoxia das leis. O Ministério Público recorreu da sentença alegando que a pobreza, por si só, não pode ser vista como um fator determinante para a perda da guarda. A OAB-RJ, por intermédio de Rodrigo Mondego, membro da Comissão de Direitos Humanos, declarou que a decisão “está calcada em mero preconceito”.

“A panela explode”

Deixando-se de lado o aspecto judicial, o fato é que a determinação do juiz demonstra de modo emblemático que a perspectiva de morte, “o risco diuturno de morrer” está sempre a rondar. Esse sentimento de proximidade da morte, segundo especialistas, ainda que ele migre emocionalmente para o inconsciente, é um dos fortes alimentos do transtorno de ansiedade generalizada e da depressão profunda. É o que acomete agora a moradora do Morro do Gambá Marcia Jacinto, que jamais imaginou que o som de um único disparo de arma de fogo derrubaria a sua vida para sempre – e não é para menos, o alvo da bala foi seu filho de dezesseis anos. “O que ele tinha a ver com essa guerra entre bandidos e policiais?”, pergunta Marcia. Em decorrência de sua dor psíquica, ela já sofreu um primeiro infarto e a ameaça do segundo. Nesse cenário, os próprios policiais, responsáveis por um dos mais altos índices de letalidade no País, engrossam as estatísticas de vítimas fatais: no ano passado (dado mais recente), aproximadamente trinta mil atendimentos psicológicos ou psiquiátricos foram realizados. “Somos cobrados para ser heróis e, por isso, não exibimos nossas fragilidades, principalmente as de cunho psicológico”, diz o policial Alexandre (nome fictício). “Se não buscamos tratamento, a panela explode”.

“Há uma precarização da saúde mental da população como um todo”, diz Dayse Assunção Miranda, cientista política da USP. Uma infeliz mulher do bairro do Botafogo (não quer se identificar) relata que após sofrer dois assaltos demorou a reconhecer que estava doente. Chegou-lhe o dia no qual não mais conseguiu dar um passo além da portaria de seu prédio. Palpitações e tremores tomaram-lhe o corpo. Imaginou-se anêmica. Foi ao médico. Viu-se encaminhada para serviços de atendimento à saúde mental. Ela mergulhara, não em um rio, mas em um mar de síndrome do pânico. É imprescindível e urgente que as autoridades responsáveis pela segurança no Rio de Janeiro – incluindo-se aí o governador Wilson Witzel que já brincou de passear de helicóptero sobre Angra dos Reis exibindo armamento – ouçam o relato de tantos aflitos. Dê-se voz à psicóloga do SUS Mariana Ferreira que assiste as vítimas que poderíamos chamar de enfermas da violência: “Existem pacientes que psicotizam gravemente. Acreditam ouvir vozes, ser alvos de perseguições e até ter chips implantados no corpo”.

Violência e diabetes

Estudo inédito do Ministério da Saúde retrata a morte de mulheres, em todo o País, a partir de doenças desenvolvidas em decorrência de elas terem vivenciado situações de violência. Os pesquisadores analisaram os registros de aproximadamente dezessete mil óbitos ocorridos entre 2011 e 2016. Triste conclusão: mulheres expostas à violência psicológica, sexual ou física apresentam risco de mortalidade oito vezes maior em comparação com a população feminina em geral.

BASTA Espancadores de mulheres não ligam para leis: comportamento recorrente e morte (Crédito:Divulgação)

Um dos aspectos mais originais e relevantes do trabalho está no fato de ele englobar doenças crônicas que surgem a partir de agressões. Uma delas, bastante grave, é a depressão. O dado mais surpreendente da pesquisa é que, em consequência do estado depressivo, uma das enfermidades prevalentes é o diabetes. O risco de morte devido a tal doença em mulheres que são vítimas de violência é quatro vezes maior se cotejado com o risco que correm as mulheres não agredidas.

Quanto a males cardíacos, meninas de quinze anos de idade que experimentam situações de extrema violência são seis vezes mais vulneráveis quanto ao risco de vida. “O impacto da violência à saúde da mulher vai muito além das feridas, das cicatrizes, das fraturas, dos hematomas”, diz Wânia Pasinato, uma das mais conceituadas sociólogas do País e consultora do Conselho Nacional do Ministério Público. “Tem impacto interno, subjetivo, na sua saúde física e mental que gera outras doenças”. O estudo do Ministério da Saúde contou com o trabalho de especialistas e pesquisadores da Universidade de São Paulo, Universidade Federal de Minas Gerais, Universidade de Toronto e da organização internacional Vital Strategies que se dedica ao desenvolvimento de políticas de saúde pública.

16,5 mil é o número de mulheres que morreram, entre 2011 e 2016, devido a doenças decorrentes da violência. Entre as enfermidades estão a depressão e o diabetes